Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 28 de maio de 2018
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Sobre feijões e cozinhas

Sobre feijões e cozinhas

[Jasmine Malta]

Meu avô materno era fazendeiro, cresci entre a casa na cidade, onde ficava seu comércio variado (material de construção, tecidos, artigos Avon, miudezas e até armas (sim, um dia peguei uma caixa de balas e lambi escondida, é claro) e a casa da fazenda. Em ambas, adorava estar metida na cozinha, em meio aos aromas, sabores e a alquimia vinda pelas mãos das empregadas. 

Gostava mais de passar as Férias em Codó(MA) do que em Fortaleza, era mais livre para as ruas e as praças, apesar da severidade de meu avô. Podia ficar "misturada" aos colegas, aos vizinhos e aos primos em meio às corridas desembestadas, ao "esconde-esconde" e "31 Salve todos". Havia espaço até para o "Mô de Deus", o doido que não fazia mal à ninguém mas de quem nos pelávamos de medo. 

Na casa urbana haviam duas cozinhas, a "de casa" e a "grossa", em uma extensão no quintal, com chão batido. A interna era revestida em azulejos brancos e azuis, com dois fogões, armários, panelas impecáveis e toda a sorte de baixelas para que minha avó, e algumas vezes minha mãe, pudesse fazer a mágica acontecer. Bolos, pratos salgados e doces diversos saíam daquele espaço. Inesquecível o tabule com limãozinho e pedacinhos de salsicha, em sua versão pessoal para o prato típico de nossos vizinhos. Ou a "sopa de macarrão", iguaria exclusiva para a criançada.

Mas eu gostava mesmo era da "cozinha grossa" com sua coberta de palha e a imensa mesa em madeira, tendo ao pé-do-muro o cercado com as criações domésticas. Ali matavam as galinhas, pelavam os porcos, embebedavam os perus e recolhiam o sangue em uma bacia de ágata branca. Os quibanos eram expostos ao sol com os camarões a secarem para o vatapá de domingo, sobre bancos de couro de bode, que sorrateiramente eu pegava escondida e gulosa. O pilão soava com a farinha e a carne seca, e eu me aventurava algumas vezes para pilar arroz. Com a imensa "mão" para meu porte infantil, sempre recebia ajuda de alguma das responsáveis.

Descascar o milho e "dibuiar" o feijão verde eram uma das atividades preferidas, porque ficava ouvindo as histórias todas, me sentindo um tanto adulta entre aquelas mulheres cheias de vivências e donas de tantos sabores.

Com o "escolho" do feijão e do arroz diários, era possível alimentarmos nossas panelinhas de barro e alumínio, e fazermos nossas comidinhas temperadas com terra seca, folhas e flores coloridas. Uma lata de leite vazia, com os recortes necessário, fazia as vezes de fogão rústico, agrado do tio favorito pela criançada.

Por que estou lembrando de tudo isso hoje ? Porque aprendi que cozinhar é colocar amor em forma de alimento, e hoje foi um domingo dedicado à isso. Nosso filho do meio recebeu mais uma lição de culinária, desbravou as minúcias de uma carne ao forno e de um saboroso feijão caseiro. Contudo, entre as panelas e os ingredientes, descobrimos mais um ensinamento.

Infelizmente nós, brasileiros, pagamos calados por tudo. De 1kg de feijão retirei 1/2 xícara de "escolho", com grãos claramente "queimados" e perfurados por larvas. Boas cozinheiras sabem que para alimentar uma família de quatro pessoas basta cozinhar uma xícara de arroz e duas de feijão. Ou seja, descartamos uma boa parte desse alimento tão saboroso e nutritivo, mesmo tendo pago pelo peso completo. 

Inclusive os impostos.

Jasmine Malta é escritora e professora da Universidade Federal do Piauí

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