Dilson Lages Monteiro Domingo, 25 de fevereiro de 2018
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Gilberto Mendonça Teles: Na curva do rio

Gilberto Mendonça Teles: Na curva do rio

1. O Encontro

[Gilberto Mendonça Teles]

Hoje um rio se faz de pura essência
e se levanta clássico, arengando
comigo sobre o tempo, repetindo
no presente o porvir e seu sentido,
memória desdobrada pelas margens
na penumbra das nuvens, rio-máquina,
ser-movente no medo disfarçado
que me conduz acima das distâncias
e me diz:
“Toma, e lê. Encontrarás
neste volume a forma, o tom, a cor,
o jeito de louvar esse outro Rio
que se esconde e se mostra soberano
nas curvas da baía e do oceano”.
Por aí me dei conta de que um mapa
se abria em minha frente e, bem-falante,
como uma flor se abrindo no cerrado,
começou a dizer-me: – Olha, repara
que a cidade se inscreve no seu rio
de lenda e calendário. Tudo brilha
nas praias e nos morros. Um navio
fotografa de longe a bela imagem
do mar se repetindo nas montanhas
 
2. Os Nomes
Olha – repetiu noutro ritmo: “Toda a cidade é bela”,
embora Machado de Assis tenha dito que preferia
que os estrangeiros elogiassem não a geografia
mas os costumes especiais da nossa gente.
Mas olha, vê, repara: ali está a beleza dos morros
da Babilônia do Pavão do Pavãozinho
do Cara-de-Cão (o Jaguaratoba e sua história)
do Pão de Açúcar (chamado o morro isolado
e pontudo)
o morro da Viúva (que se esconde), os Dois Irmãos
o do Catete do Anhangá dos Cabritos
o encanto do Corcovado com seus braços abertos
e a majestade do Metaracanga que os tamoios viam
como o cocar na cabeça de seu chefe de tribo
e que os descobridores transformaram em Pedra
da Gávea
fazendo a gente ficar imaginando um navio
antigo todo cheio de inscrições rupestres dos fenícios.
Olha, vê, repara – Camões me guia –
o Bico do Papagaio na Serra da Tijuca
as baixadas de Guaratiba Sepetiba Jacarepaguá
a ponta do Arpoador as enseadas os sacos as baías
as praias de Copacabana Ipanema Leblon
a lagoa Socopenypen que já foi Fagundes Varela
e é hoje a Rodrigues de Freitas com sua árvore de Natal
suas regatas e muitos peixes mortos.
Repara na pronúncia indígena de alguns rios:
o Catete o Catumbi o Maracanã
o Guandu o Andaraí o Bangu o Comprido
o Pavuna o Miriti o Sarapuí
o do maciço da Pedra Branca
e o famoso Carioca que ninguém vê.
Olha, repara a baía com suas muitas ilhas:
Brocoió Fiscal a da bela Moreninha de Paquetá
a grande ilha aérea e culta do Governador
que já foi a Paranapuã e seu mar redondo.
Repara também no mar as de nomes esquisitos:
Cagarra Guaratiba e Sernambetiba e seu Pontal
que de manhã é istmo, de tarde ilha e à noite
a grande praia extrema da Barra da Tijuca.
Mas pensa na bela e sábia conjunção dos índios
que diziam Uanãpara para o seio do mar que esconde
e I teroy para a pequena água escondida.
 
3. O Zoom
A voz do mapa, agora em velho tom,
tenta mostrar de dentro o que era bom,
o melhor, o mais belo, a majestade
da música do sol pela Cidade.
Olha agora de perto, vê, repara
a paisagem urbanizada, dentro
de cada rua e bairro – joia rara
da Zona Sul à Zona Norte e Centro.
Aqui tudo se fez, se faz história
no charme especial da Lapa e Glória,
no imperial São Cristóvão e, com certeza,
na Gamboa e também Santa Tereza.
As Barras, da Tijuca e Guaratiba,
Recreio, Grumari e, bem arriba,
o Alto da Boa Vista, o Grajaú,
Realengo, Engenho Novo e Bangu.
Na Zona Sul o mar e seu poema
do Leme ao Leblon, por Ipanema
e por Copacabana e Arpoador,
nas ondas da poesia e muito amor.
Vê Méier, Cascadura, Bonsucesso,
o Morro do Alemão e seu progresso
e antes que o olhar te dê canseira
vê Benfica, Pavuna e Madureira. 
 
4. O Landscape
Do alto do Corcovado
tu podes ver o Baixo Leblon
e uma parte do elevado Paulo de Frontin.
Não podes ver dentro do Rebouças
mas podes muito bem imaginar
as praias cheias de moças.
Tu podes ver a ponte e a baía
o Maracanã e o Engenhão
podes ouvir o ritmo dos sambas
ensaiando seus passos na Avenida
e podes ver e ler e declamar
a poesia suspensa no ar.
Tu podes ver tudo:
a PUC e seu estudo
a Urca com seu Pão de Açúcar
Botafogo / Flamengo / Fluminense / Vasco
ver o Santos Dumont e Niterói
e até o morro do Cantagalo e dos Cabritos
onde se não me engano
ainda cantam bonito
as cigarras do Olegário Mariano.
Tu não podes ver mas podes imaginar
a educação do povo pela rua
os taxis buzinando e furando sinal
e a beleza da cidade ao natural.

5. O Close-in
Se Freud houvesse passado alguma vez
pelo Rio de Janeiro, teria dado atenção
à cultura do “complexo de Geraldo”,
que ataca de noite, na água choca,
a insolação das cariocas.
Geraldo, acabei de ler o seu Plural de nuvens.
Tem ido a Goiás do Mato Grosso, Geraldo?
Diga, Geraldo, o que você pensa, o que diria
do mau livro, ou seja, do meu livro de poesia.
Apesar de emendarem os seus lapsos,
escorregando nas elipses e nos psius,
fico sempre com a impressão meio pagã
de que por aqui tenha passado disfarçado
ou o Geraldo-sem-Pavor ou o D. Juan.
Ou será que meu nome – lança em riste –
as apavora para além do chiste?

6. O Fim
Aqui a voz se fez, tornou-se pássaro,
cantou de longe o velho e o novo Rio;
deixou de lado o curso que não passa
e engendrou em silêncio outro sentido.
A máquina do medo, com seu vidro,
sua lâmina de vento, sua graça,
pousou no azul do tempo redivivo
e se deixou sumir na madrugada.
Quem sabe do Eco que ficou vibrando
no que a história não quis na sua letra,
no sinal de louvor e, no arremate,
na linguagem do amor, em contracanto,
vindo de longe desaguar inteira
na curva mais extrema da Cidade.
(GuanaBarra, 30 de janeiro de 2014)
 
Gilberto Mendonça Teles é de Goiás. Reside no Rio de Janeiro há 42 anos. Professor Emérito / Titular da PUC-Rio e da UFG. Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará e da PUC de Goiás. Professor aposentado da UFRJ e da UFF. Lecionou no Uruguai e nas universidades de Portugal (Lisboa), França (Rennes e Nantes), Estados Unidos (Chicago) e Espanha (Salamanca). Poeta e crítico. Conferencista em várias universidades, nacionais e estrangeiras. Um de seus livros alcançou a 20ª edição. Membro da Academia Carioca de Letras – cadeira 09.

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