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Metáfora e argumentação

(*) Dílson Lages Monteiro

 

Os novos Parâmetros Curriculares, no que se refere à Língua Portuguesa, orientam para a valorização dos símbolos, bem como da diversidade de gêneros textuais e de linguagens do cotidiano na escola. Nesse contexto, era se esperar mudanças concretas, especialmente quanto à linguagem literária.

No dia-a-dia escolar, o trabalho com discursos desse matiz, entretanto, ainda deixa bastante a desejar – principalmente em relação à ausência de diálogo entre a literatura e outras linguagens. O resultado disso se colhe na prática vigente – recursos lingüísticos como a metáfora, por exemplo, são vistos como manifestações exclusivas da literatura.

Assim, é comum florescerem em aulas de Redação perguntas como esta: “professor, posso usar metáfora em meu texto argumentativo?”

Muitos alunos, portanto, acabam alimentando a idéia de que as figuras de linguagem somente são utilizadas em textos literários. Esse sofisma se avoluma junto aos vestibulandos, fundamentalmente, em face de uma visão deturpada, presente em vários manuais de redação e, também, de uma abordagem estanque e estereotipada comum na produção textual em diversas escolas.

Algumas instituições, equivocadamente, por não criarem condições para os alunos compreenderem os mecanismos de construção de sentido do texto, apostam na montagem de um arcabouço de esquemas “capaz” de garantir a expressão do pensamento, mas que, em virtude de sua superficialidade, resulta em textos pré-moldados, sem autoria, incapazes de ativar, de fato operações de pensamento.

Fortalecendo o problema, encontram-se manuais de redação que tentam simplificar o processo de elaboração de textos, a partir da divisão entre textos objetivos e textos subjetivos. Divisão infrutífera, haja vista que ela leva o aluno à concepção de que não deve escrever textos com marcas de subjetividade patentes.

Tal postura deve ser duramente combatida. Por quê? Conforme ressaltam George Lakoff e Mark Johnson, no clássico Metáforas da vida cotidiana, “o objetivismo e osubjetivismo precisam um do outro para existir. O objetivismo tem por aliadas a verdade científica, a racionalidade, a precisão, a justiça e a imparcialidade. O subjetivismo tem por aliados as emoções, o conhecimento intuitivo, a imaginação, os sentimentos humanos, a arte, bem como uma verdade 'mais alta'”.

Para justificar a premissa, os referidos estudiosos da linguagem argumentam que cada um “é mestre em seu próprio domínio”, acrescentando que “cada um existe, mas em domínios separados. Cada um de nós tem um domínio em que é apropriado ser objetivo e um domínio em que é apropriado ser subjetivo”.

Vinculado ao equívoco da visão tubular objetivo versus subjetivo, o não emprego da metáfora em textos argumentativos se fortalece erroneamente na noção de “desvio” que vigora nos manuais didáticos. Alimenta-se, como conseqüência, a idéia segundo a qual desviar-se do padrão em textos argumentativos é construir sentenças obscuras, porque, como afirma Joaquim Brasil Fontes, quando se fala em desvio, “em geral, fala-se de um desvio entre figurado e usual: aquela “linguagem iluminada” de Cícero obteria suas claridades graças a uma comparação com a língua quotidiana, mais simples(...) O figurado só existe na medida que se opõe ao literal (...)”

Diante dos modernos estudos lingüísticos e dos usos sociais da língua, ainda assim, normas do tipo “textos argumentativos não devem criar a sensação de estranhamento, tampouco centrar-se na ativação dos sentidos” ainda encontram espaço no receituário de muitos manuais de redação e nos implícitos das concepções vivas em manuais de literatura. A sugestão como caminho à convenção ( o ícone levando ao símbolo) e à referencialidade não se limita à literatura.

O exame detalhado de artigos de opinião comprova que as figuras de linguagem, especialmente a metáfora, também são recursos de textos predominantemente lógicos; não obstante o pensamento de alguns especialistas em retórica clássica, como Pascal Ide, em A arte de pensar, afirmar que a analogia fragiliza a argumentação. Qual seria, portanto, a função das figuras de linguagem, sobretudo da metáfora, em textos predominantemente argumentativos?

Suarez Abreu, em A arte de argumentar – gerenciando razão e emoção (atelier editorial), responde à formulação: “As figuras retóricas são recursos lingüísticos utilizados especialmente a serviço da persuasão. (...) Possuem um poder persuasivo subliminar, ativando nosso sistema límbico, região do cérebro responsável pelas emoções. Elas funcionam como cenas de um filme, criando atmosferas de suspense, humor, encantamento, a serviço dos nossos argumentos”

Para melhor compreender o emprego das figuras na argumentação, restringem-se à metáfora, as observações subseqüentes, uma vez que as figuras de linguagem, conforme Jakobson, podem ser reduzidas à metáfora e à metonímia, se examinadas as maneiras como se organiza a língua (proximidade/similaridade). Além disso, porquanto, a metáfora, segundo as palavras de Edward Lopes, “é mais do que simples figura ornamental: é um mecanismo cognitivo de pensamento, atuando desde a poesia mais sublime até o raciocínio científico mais abstrato, intervindo também na linguagem comum do homem comum”.

A metáfora consiste em poderosa ferramenta da argumentação, porque funciona como elemento de esfriamento do texto – pode ser utilizada para diminuir o grau de formalidade da comunicação; buscar no repertório do leitor uma imagem de que ele se possa servir para entender o conteúdo proposicional do texto. É o que demonstra, recorrendo à teoria do canadense Mcluhan, o inventor do “gancho frio”, o supracitado Suarez Abreu: “dizer para o cidadão comum que 'as altas taxas de juros estão colocando em perigo a contenção da inflação e que o ministro da Fazenda parece não ter condições de resolver esse urgente problema' pode ser quente demais. Dizer, entretanto, que as taxas de juros colocaram a inflação na marca do pênalti'e que ' o ministro da Fazenda não tem a menor chance de pegar essa bola' esfria bastante a mensagem, uma vez que qualquer brasileiro tem em seu repertório as regras de futebol e sabe muito bem o perigo representado por uma cobrança de penalidade máxima”.

Ao funcionar como “gancho frio”, a metáfora em textos argumentativos acentua duas virtudes da boa comunicação, a clareza e a motivação do interlocutor, e ressoa princípios de grandes estudiosos da linguagem. Entre eles, Aristóteles e Mattoso Câmara Júnior. Aristóteles, já dizia, analisando as qualidades do estilo, que a metáfora é o meio que mais contribui para dar clareza ao pensamento. Ainda de acordo com o filósofo, a comunicação se torna agradável servindo-se de expressões novas. Para ele, as palavras mais agradáveis são as que trazem algum conhecimento – efeito particularmente produzido pela metáfora: “Quando dizem que velhice é como o colmo, fornecem-nos um conhecimento: velhice e colmo, ambos perderam a flor”. Para Câmara Júnior, a metáfora atua de modo a enfatizar a mensagem, deixando-a mais clara. Dessa forma, “é um recurso quase sempre eficiente para obviar ao caráter vago de termos abstratos”.

O emprego da metáfora, portanto, não é um recurso exclusivo de textos literários. Ela também exerce papel ímpar em textos em que predominam As funções de linguagem referencial ou apelativa, porque o processamento da metáfora se confunde com a própria construção do pensamento. Por isso, textos argumentativos pautados pelo eficiente uso de figuras de linguagem não anulam a referencialidade das relações de convencimento ou persuasão. Distantes de simbolizarem obscuridade, os tropos configuram-se como fator de clareza – se utilizados conscientemente para esse fim; ademais, como fonte segura de implícitos, atuantes na renovação do vigor semântico das palavras pelo alargamento de suas possibilidades sígnicas.

(*) Dílson Lages Monteiro (dilsonlages@uol.com.br) é professor e poeta.

BIBLIOGRAFIA:

ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Ática, 1996.
ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Ediouro, 1969.
BLIKSTEIN, Izidoro. Técnica de comunicação escrita. São Paulo: Ática, 1998.
CÂMARA JÚNIOR, Manual de expressão oral e escrita. Petrópolis: vozes, 1996.
FONTES, Joaquim Brasil. As obrigatórias Metáforas – apontamentos sobre literatura e ensino. São Paulo: Iluminuras, 1999.
HOLESTEIN, Elmar. Introdução ao pensamento de Roman Jakobson. São Paulo: Zahar, 1978.
IDE, Pascal. A arte de pensar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação poética. São Paulo: Cultrix, 1973.
LOPES, Edward. Metáfora: da retórica a semiótica. São Paulo: Atual, 1987.
LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. São Paulo: Educ, 2002.
MCLUHAN, Mashall. Os meios como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1969.


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