Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 14 de agosto de 2018
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TEORIA DA CRISE

 


ROGEL SAMUEL

Crise? Não se assuste, há crise permanente nas sociedades capitalistas. A crise é a própria realidade, a raiz do progresso. Como disse Marx, "tudo o que é sólido se desmancha no ar". Todo o pensamento de esquerda se constrói sobre os fundamentos de uma teoria de crise.

O fenômeno desestabilizador produz crescimento. É força que sempre se oferece à vida das sociedades, dos seres. A crise se radica na idéia de "instabilidade", imprevisibilidade de tudo que é. Mas provoca sofrimento, explorado na literatura romântica, angústia da sensação de inocuidade. Sofrimento ordinário da vida cotidiana.

Representa perigo, gera medo, queda e mal, alternância do melhor com o pior. Ausência de emancipação, liberdade, como determinação ou condição de vida.

O fenômeno da crise permanente indica conseqüência comunicativa, a consciência política, aponta a maturidade que pode daí surgir.

Sem crise não há liberdade.

Mas o contínuo estado de crise em que vivem as sociedades capitalistas tem a ver com a não-permanência, a não-compleição, com a natureza modificadora de tudo, num começar e terminar para novo começo, na interdependência, que dificulta o ideal de libertação integral, num mundo de caos cujos elementos constitutivos não têm nem duração nem estabilidade, em que tudo está mudando, nem as pedras permanecem. O capitalismo está condenado à crise, porque tem de crescer continuamente.

No solo desta sociedade não há imortalidade, nem eternidade. O eterno é o eterno passar.

Tudo é efemeridade, como proclamaram os poetas de todos os tempos.

"A realidade não é uma grandeza fixa. O mundo não é acabado. O que são as coisas - esses momentos num processo que chamamos fatos? Estão fluindo. Foram feitos e por isso mesmo são suscetíveis de serem modificados. Persiste sempre a possibilidade de alteração. Isso pressupõe o domínio do acaso" (Bloch).

A vida propriamente dita, a vida biológica, psicológica, é definida como ação interagindo entre seres e coisas, numa pulsação de expansão e extinção, que afinal se encaminha para a modificação ou mesmo morte.

O aparecimento de novas formas, num movimento que não parece ter fim nem teve princípio, estabelece ação, atrito, atração e repulsão, constituinte de tudo o que é existente, no sentido mesmo de que a vida não tende para nada que seja estável, nada que seja o mesmo, gerando um certo estado de insatisfação, de vazio — que caminha para uma satisfação e preenchimento nunca conseguido, através da ação volitiva, quase sempre geradora de tensão e sofrimento, mas também de euforia, glória e progresso, porque é crescimento e modificação como o das serpentes que abandonam sua antiga pele.

Essa desestabilização permanente tem a ver com desarmonia e harmonia, com o caráter revolucionário, perecível e recuperado, com a decomposição do que é composto. E assim, tudo deixa de ser o que antes era, e se transforma, se desagrega, e se agrega a novos elementos, numa modificação contínua de sempre, através da infinidade de transformações e manifestações diferentes, num fluxo contínuo de recriações, de vir-a-ser. Mutações.

Tudo vigora, não como uma integridade em si mesmo, mas num intercâmbio, em mútua transformação sucessiva, incessante, sem limites claros e precisos durante muito tempo, num processo de assimilação e desassimilação em que até o fluxo da consciência e do pensamento atravessa o homem num rápido passar que aparece e desaparece.

"Poder ser diferente, isso significa: também poder transformar-se em outra coisa: no mal a conter, no bem a promover" (Bloch).

Assim é a dialética da transformação do mundo, onde as coisas mudam muito rapidamente e é o que causa o sofrimento e a insegurança radical, onde o próprio sujeito é pluralidade de individuação e desintegração transitória, um processo de conhecimento e desconhecimento de todos os seus diversos aspectos e de tudo o que se está formando e desaparecendo, tudo que está sendo superado sucessivamente.

A matéria, as sensações, as percepções e a consciência são igualmente condicionadas, não permanentes, sujeitas ao processo desestabilizador. E isso se refere, como disse Arendt, aos conceitos de imortalidade e eternidade. Desde a queda do Império Romano nada que seja produto do homem pode ser considerado imortal. E mesmo a experiência do eterno, de que fala Aristóteles, é transitória, não suportando o homem durante muito tempo a experiência do Presente, pois o homem é sempre provisório.

A União Soviética passou. "Tudo o que é sólido se desmancha no ar". Toda revolução se constrói sobre as ruínas de uma crise. É possível que o progresso das nações, a felicidade dos povos, a paz e a prosperidade — é possível que tudo isso esteja ao alcance das nossas mãos de futuro. Pois o homem é possibilidade, como escreveu Ernst Bloch.

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