Dilson Lages Monteiro Sábado, 20 de outubro de 2018
Romances de Rogel Samuel
Obras integrais
Tamanho da letra A +A

O IGARAPÉ DO INFERNO, 1

 

 

           
 
            – Vou contar. O quê? Você quer que eu continue? Não, não, meu menino, dos líquidos do corpo, o pus, a gosma, a saliva, o muco, as palavras ingratas: a linfa a fonte o plasma aquoso, amarelo-transparente, entende o que digo?, enzimas, digo, ceras, seivas pegajosas, urina e cerveja, você não sabe o que isso, de ontem, de outra época, das terras voadoras das palavras verazes, elásticas, humores, borracha, pau de leite, sim, tudo que esmaga e esguicha, mas o pior é o sangue, o sangue, mas sim, você me interrompeu com perguntas, e estou pegando o rumo, e você?, e você? Eu passei a vida toda de palavras de nada
 
            Era assim que falava Maneco Bastos, Manuel Bastos Filho, para aquele rapaz. Ele tinha o mesmo nome do falecido pai, Manuel Bastos, dono do Bar Bacurau, na João Coelho.
            A noite prosseguia.
            Estavam na Lapa, no Rio de Janeiro. Somente poucos fregueses ali, bêbados, cansados. Clima de decadência, pobreza.
            – Pois sim sim, disse ele. Meteu a unha na fenda do parafuso, forçou, dali saiu um líquido gomoso e muito vermelho escuro, mas o parafuso não cedeu, nem se moveu, e ele quase não sentia a dor, a cabeça do parafuso fendida rasgou o dedo, pingando suor em cima, cabeça de falo e fendida, emperrado impedia a focalização do binóculo.
            Aquilo era luneta de 1845, merda, por quê?, o quê? agora o olho burro vê, focaliza, e tudo vê, bem nítido e bonito, mas a imagem da orla da Praia do Cuco, a língua branca, de açúcar, que avançava até as águas do Igarapé do Inferno.
            “Tudo bem?”, perguntou ele assim. “Aquilo se move?” Agora aquilo se move?, foi o que ele perguntou e disse, ou o que disseram que ele disse.
            Do convés do “Barão do Juruá” ele observava a orla da Praia do Cuco, a copa das arvores verdes, lindo lindo. Sim, um susto, um gesto. Que é? Não é? Continuava a se mover, tinha visto, continuava ainda vendo? Via. Com nitidez, dentro do círculo de luz do fim do foco. Do fim fundo escuro do foco. Mas nada não disse do que tinha visto e estava vendo. Nunca disse. Zequinha ficou e ninguém viu quando ele desceu do navio para a floresta, e em minutos desaparecia ali.
 
            Oh, oh! – disse ele. O desaparecimento de Zequinha Batelão foi um desastre! Um desastre escandaloso. Ele era dos homens mais ricos e bonitos do Amazonas, do Alto Juruá, na época. Sabe? Sabe? Um segredo: Todas as jóias da família ainda estão lá, até hoje escondidas, num cofre debaixo de uma grande pedra da Praia do Cuco. Inclusive a tiara de esmeraldas e brilhantes que pertenceu à Rainha Vitória. Mas só eu sei onde está.
            O fim de Zequinha foi lá a coisa mais misteriosa, perturbou a imaginação do povo amazônico. Hipóteses absurdas, cabeludas leseiras, injustificadas. Tolices, surpresas de todo tipo do fio fino do destino. O quê? O destino é isso, seu merda. Nós morremos e é só, morremos um pouco a cada agonia. O destino é o pré-dito, os ditos, os feitos, a trama universal. Não, não é acidental. Só quando feito não era o pretendido. Nós agarramos o destino com as mãos de sangue, com as mãos cegas, com as mãos da sobrevivência, com as mãos que sangram. O acidental não tem deliberação. Cega necessidade física. Luta de vida e de morte, contra a causalidade da sorte. Violência não – causa. Quando vejo minha vida, inteira, uma serie de anos e danos escrotos, estéreis, inúteis, impunes, sinto os acontecimentos mas sem as conexões, pois eu não sei ser: ser é esperar, ser é morrer.
            Mas com você me perco. Vamos, vamos continuar.
            Zequinha desapareceu em 1912. Tinha 22 anos. Já vendido o Seringal Manixi a um homem chamado Ferreira, Dr. Antonio Ferreira, de Manaus.
            Zequinha tinha chegado da Europa, Paris era um luxo, eu estive em Paris, morei em Paris, na Rua Fondary, 30, no Hotel Fondary. Era perto da Torre. Zequinha liquidou tudo, menos o “Palácio Manixi”, o "art-nouveau" palácio, como esta minha pessoa diz que aqui falo. Adiou o regresso, meses e meses, e não tinha pressa, esperava acontecimentos.
 
            Zequinha era um rapaz estranho. Mas o descompasso, o contraditório, ah isso era, delicado selvagem culto. Os cabelos lisos e pretos como a mãe índia, quíchua. Ele era uma mistura de índia com uma princesa espanhola. Família Cellis. Olhinhos também pretinhos, muito vivinhos e pretos. Lábios sensuais. Príncipe! Príncipe amazônico, selvagem, sofisticado, adamado, maneiro. Pois a que beleza se reduz a só. Você é belo? O belo é o que aparece belo, para mim só. Ser é parecer. Eu fui, na juventude. Eu era um luxo. Nessa idade? O quê? Quantos anos tenho? Ah, ah, não digo não, no esconso. Tenho o tenho, no que dá. Você quantos tem? Pois, meu caro, meu caríssimo. Nenhuma, você está bêbado, você quer agradar porque eu pago. Faz bem. Continue assim. Mas era assim. Um instinto social, no que de uma propriedade das coisas, um fato em si, mas de um valor lógico, do desejo, da utilidade, do prazer, da vida, valores cognitivos. O Belo é apenas uma frase. Um atributo. Mas eu esqueço que você só tem uns poucos anos. Eu vi, vivi, estou à morte. Estou à morte. Ah, ah, ah. Sim sim. A mor-te! Ah, ah, – ria-se ele.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

17.10.2018 - A PANTERA 3

08.10.2018 - DOIS: A PANTERA

05.10.2018 - A PANTERA. 1

07.02.2018 - A PANTERA 6.

01.01.2018 - A PANTERA 5 - ROGEL SAMUEL

01.08.2017 - A PANTERA (3)

30.07.2017 - A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito) 2.

04.07.2017 - A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

13.04.2017 - A PAIXÃO SEGUNDO SÃO MATEUS

28.11.2016 - O DNA do passado

25.11.2016 - TEORIA DA CRISE

24.11.2016 - Obsessão pelo poema

22.11.2016 - Quem está preso a uma estrela

18.11.2016 - A mulher que passa

18.11.2016 - Estranho grande poema - Rogel Samuel

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

18.10.2018 - DOM CLIDENOR E DOM QUIXOTE DE LA MANCHA

O nome Meduna foi dado em homenagem a um grande psiquiatra francês. O sanatório é uma bela construção, com seus pavilhões brancos, seus alpendres, seus corredores.

17.10.2018 - A PANTERA 3

A PANTERA 3

16.10.2018 - NEUZA MACHADO: A DESTRUIÇÃO PELO FOGO

NEUZA MACHADO: A DESTRUIÇÃO PELO FOGO

11.10.2018 - A história do sapo Zé

Falou que o garoto, além do amor aos livros, gostava de desenhar, escrever e era componente de uma banda musical.

08.10.2018 - DOIS: A PANTERA

DOIS: A PANTERA

06.10.2018 - COMO CONHECI NEUZA MACHADO

COMO CONHECI NEUZA MACHADO

05.10.2018 - A PANTERA. 1

A PANTERA. 1

05.10.2018 - A AMIZADE: BREVÍSSIMA REFLEXÃO

Na questão

04.10.2018 - A IMENSURÁVEL FLORESTA

A IMENSURÁVEL FLORESTA

03.10.2018 - A arte fotográfica de Valdeci Ribeiro

Valdeci se esmera em aguardar o momento mais adequado de luminosidade, em procurar o melhor ângulo, para conseguir o resultado que deseja.

02.10.2018 - Relembrando 1989

É preciso entender a verdadeira situação crítica em que se encontra o nosso país. Todo o cuidado é pouco.

01.10.2018 - Psycho Pass 10: batalha no túnel do metrô

Prossigo a análise, na forma de guia de episódios, da série de animação "Psycho Pass" com as aventuras futuristas da policial Akane Tsunemori, num Japão distópico onde a sociedade é controlada.

28.09.2018 - A GRANDEZA DESPOJADA

A GRANDEZA DESPOJADA

28.09.2018 - A GRANDEZA DESPOJADA

A GRANDEZA DESPOJADA

28.09.2018 - Noturno de Oeiras no Fórum da Velhacap

Noturno de Oeiras, com essa linda placa, marca mais um tento, “um verdadeiro gol de placa”.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br