Dilson Lages Monteiro Domingo, 25 de fevereiro de 2018
Romances de Rogel Samuel
Obras integrais
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A PANTERA 6.

A PANTERA 6.

ROGEL SAMUEL
 
Acrescentar eu devo que prosseguindo mudos naquela direção o dia inteiro do pico ainda estávamos mesmo assim distantes do anoitecer; e não mais senti a presença negra da pantera nos perseguindo, quando os olhos ao céu dirigindo vimos clarões brilhar como relâmpagos mudos e lumes dois ou três que a terra estremeciam e aí vejo que de Jara os olhos se assustaram, e ligeira logo se fez. E logo nos deparamos com uma pequena planície onde havia montículos de terra que pensei de serem túmulos rasos.
- Mas “não”, disse-me Jara (pois se fossem os animais já teriam descobertos), e encontro sacolas de ouro e mochilas com armas e vestimentas, sapatos e botas e comida envolvidos em plásticos.
Eu me aproprio das utilidades, visto-me de casaco e botas, encho um saco de pequenas pepitas de ouro, armas e um cantil.
Ao que um terrível urro logo ouvimos da pantera que chegava num toque que peguei nas armas ao que Jara me conteve.
- Pare, ela não nos atacará.
E já vestida ela de soldado e armada de faca e de fuzil me parecia protegida.
E depois de revistar outros montículos de terra de umas mochilas nos apropriamos, assim com Jara partimos e eu a segui.
Logo nos primeiros passos sentimos o peso da carga recebida, mas mesmo assim Jara e eu entramos na floresta que rara se fazia, e caminhamos por alguns dias, subindo a encosta da montanha lentamente e passando ao mais alto, mas Jara revelava que aqueles sítios todos antes conhecera.
Do medo a cor que o gesto me alterara ao ver que aparecia, na ponta da planície, marchando célere em nossa direção, aquela pantera.
Mas Jara, como escutando, espreita e me diz:
”Ela quer ela nos atalhar e nos levar nesta direção”.
E Jara aponta aquela direção antiga e diz:
 - “É mister vencer nesta porfia”, - e da pantera a marcha acelerada nos adiantou e de lá saímos, buscando o alto da montanha, onde é raro o aparecer de algo, e um ensejo de nos fazer guiar pelo caminho que entre abismos nos comunica.
Sim, ali, porém, já fui que a inimiga pantera nos constrangia a fazer essa jornada.
Que pensei, e pensando disse para Jara, que agora poderíamos fazer, para das sombras nos tirar dos seus precitos, com as armas de que agora dispúnhamos, poderíamos a fera abater a tiros:
-“Esta é a pior solução” - dizendo ela, voltou-se para mim – e usando uma expressão nova:
- “Esforça-te, querido, eu também sei o caminho que da grande batalha vai nos afastar”.
E acrescentou:
 – “Este paul que a fera cheira é o circundo da guerra e o tormento que de entrar já não podemos sem ira”
Disse, – e não me lembro o que mais disse, o pensamento e o olhar pondo no cimo chamejante que os olhos me prendia, vi que estava atenta, pois de lá longe o aspecto de horripilantes explosões sucessivas que o chão estremecia, que por isso com as unhas a pantera a terra arranhava e com suas patas o o solo rebatia e com tal brado que à guerreira me acerquei de pavor cheio.
Jara volta a face de fúlgida luz o rosto farto, conserva a calma a encarar-me, transformando-se numa sorte de deusa e as mãos juntando às minhas mãos e os olhos no fundo dos meus olhos a amparar-me dessa arte, e logo um tufão distante fremiu impetuoso que de ardores explosivos se cercando, sem pausa fere a terra, que se abria como em leques de sonoridades entre nuvens de pó, alevantando o infinito e após o mundo se cobrindo de um estranho silêncio, mudo e quieto, mundo derradeiro e deserto que vem da insânia rara.

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