Dilson Lages Monteiro Sábado, 17 de fevereiro de 2018
Romances de Rogel Samuel
Obras integrais
Tamanho da letra A +A

A PANTERA 34

 


A PANTERA 34 - ROGEL SAMUEL

Um dia, me pediram uma coleção primavera-verão e eu desenhei. Era a primeira vez que eu aceitava essa encomenda. Trabalhei meses e depois assisti ao desfile, anônimo. 
Foi consagrador, pois eu era diferente e logo encontrei meu lugar na chamada alta costura.
Não era no primeiro time, mas era.
No fim da apresentação, apareci rapidamente para agradecer os aplausos.  
Naquela noite sonhei com meu pai, coisa rara. Meu pai aparecia como um homem quase negro e me perguntava por que eu não queria fazer aquilo, e ganhar dinheiro. Ele não perguntava com palavras, mas com um gesto, um resmungo. -“E  então?” parecia dizer ele. Aí eu me lembrei de meu  pai tocando piano em Itacoatiara, no interior do Amazonas, sozinho na cidade, no único piano da cidade. Tocava aquela “Sonata ao Luar” de Beethoven, e lágrimas escorreram de meus olhos ao sabor da lembrança de meu pai já morto, no seu piano, tão longe, tão distante, no morto espaço de minha vida passada. Meu pai era um bom pianista. Aprendeu música em Strasbourg, onde cresceu, perto daquela catedral. Toda manhã acordava ao som dos sinos da Catedral.   
Depois daquela coleção, caí no esquecimento, mas continuei mesmo assim desenhando para  diferentes casas, graças ao sonho de meu pai,  profético, de apoio, como dizia “vá em frente”.
Depois resolvi fazer mais fotografia.  Era uma diversão. Eu sempre aprendia a cada foto. Fiz um estudo de luz e sombra em preto e branco e em cor. Fotografei corpos e objetos. Ao som das sonatas de Beethoven. Minhas fotos, reunidas, eram a “Sonata ao luar”. 
Mas o mundo girava rápido. Soube que a ditadura brasileira tinha prendido um companheiro nosso na Espanha e eu me apavorei.
Voltei a morar em diferentes hotéis por motivo de segurança, ou porque eu me sentia sempre perseguido. E tinha sempre uma boa quantidade de dinheiro vivo comigo para o caso da fuga. Talvez fosse paranoia, mas as notícias da repressão eram terríveis. Eu não viajava mais, sempre ficava em Paris, mudando de lugar quase escondido. E só.
Depois, fechei minha loja e desapareci.
Conheci a ponta dos extremos. Dos cadáveres semienterrados no alto da floresta, cujas roupas vesti, ao luxo europeu. Ali estava eu. Era esse o mistério de minha concepção de mundo e de arte. Desenhei roupas para rainhas e para índias. O meu mundo era o caos. 
Pretendia ir para os Himalaias, mas um devastador terremoto com milhares de mortos me deixou paralisado. Era um mundo em guerra. Eu me via em busca de segurança, num mundo inseguro, móvel, tinha pesadelos em que era caçado por tropas inimigas. Eu só via destruição e morte por toda parte. Tudo era um horror, tudo era a catástrofe. 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

07.02.2018 - A PANTERA 6.

01.01.2018 - A PANTERA 5 - ROGEL SAMUEL

01.08.2017 - A PANTERA (3)

30.07.2017 - A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito) 2.

04.07.2017 - A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

13.04.2017 - A PAIXÃO SEGUNDO SÃO MATEUS

28.11.2016 - O DNA do passado

25.11.2016 - TEORIA DA CRISE

24.11.2016 - Obsessão pelo poema

22.11.2016 - Quem está preso a uma estrela

18.11.2016 - A mulher que passa

18.11.2016 - Estranho grande poema - Rogel Samuel

14.03.2016 - O IGARAPÉ DO INFERNO, 1

03.02.2016 - A PANTERA 34

28.12.2015 - A PANTERA 6.

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

16.02.2018 - POR UM RIO DE JANEIRO MAIS CARIOCA

Conseiderada internacionalente

16.02.2018 - POEMA DE TUFIC

POEMA DE TUFIC

15.02.2018 - O TALENTO ESCULTÓRICO DE BRAGA TEPI

Sem dúvida, pelo que pude perceber das peças constantes do álbum, é um dos maiores escultores do Piauí, e inegavelmente é um dos grandes artistas brasileiros.

14.02.2018 - MORRE JORGE TUFIC

MORRE JORGE TUFIC

14.02.2018 - D. Fr. Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco.

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante bispo do período colonial.

13.02.2018 - DE LOS HERMOSOS EL RETOÑO ANSIAMOS

DE LOS HERMOSOS EL RETOÑO ANSIAMOS

12.02.2018 - OS LIMITES DA LOUCURA

Algo puede ser real, haber sucedido, y al contarlo sonar a falso. Y una pura invención inverosímil puede parecer lo mas real del mundo (Mariana Mayoral).

11.02.2018 - O CONTO DE JOÃO ANTÔNIO: A MALANDRAGEM NA LINGUAGEM

Este capítulo pretende

11.02.2018 - Opressão odiosa às mulheres

É preciso chamar a atenção para essa nova forme de extremismo político que se traveste em religião; o fundamentalismo islâmico

09.02.2018 - O JUIZ RAIMUNDO CAMPOS

O Dr. Raimundo Campos foi juiz de Regeneração e Amarante por vários anos. Homem sem jaça, de reputação ilibada.

07.02.2018 - A PANTERA 6.

A PANTERA 6.

07.02.2018 - A MORTE DO MUNDO

Cammile Flammarion escritor de talento

06.02.2018 - CONSTITUIÇÃO da República Federativa do Brasil

CONSTITUIÇÃO da República Federativa do Brasil

05.02.2018 - A VOZ DA CONDENAÇÃO

Não, não posso entender o que aconteceu, naquele labirinto da História

04.02.2018 - A QUESTÃO DO TETO DA PREVIDÊNCIA

O presidente

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br