Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Romances de Rogel Samuel
Obras integrais
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A PANTERA 34

 


A PANTERA 34 - ROGEL SAMUEL

Um dia, me pediram uma coleção primavera-verão e eu desenhei. Era a primeira vez que eu aceitava essa encomenda. Trabalhei meses e depois assisti ao desfile, anônimo. 
Foi consagrador, pois eu era diferente e logo encontrei meu lugar na chamada alta costura.
Não era no primeiro time, mas era.
No fim da apresentação, apareci rapidamente para agradecer os aplausos.  
Naquela noite sonhei com meu pai, coisa rara. Meu pai aparecia como um homem quase negro e me perguntava por que eu não queria fazer aquilo, e ganhar dinheiro. Ele não perguntava com palavras, mas com um gesto, um resmungo. -“E  então?” parecia dizer ele. Aí eu me lembrei de meu  pai tocando piano em Itacoatiara, no interior do Amazonas, sozinho na cidade, no único piano da cidade. Tocava aquela “Sonata ao Luar” de Beethoven, e lágrimas escorreram de meus olhos ao sabor da lembrança de meu pai já morto, no seu piano, tão longe, tão distante, no morto espaço de minha vida passada. Meu pai era um bom pianista. Aprendeu música em Strasbourg, onde cresceu, perto daquela catedral. Toda manhã acordava ao som dos sinos da Catedral.   
Depois daquela coleção, caí no esquecimento, mas continuei mesmo assim desenhando para  diferentes casas, graças ao sonho de meu pai,  profético, de apoio, como dizia “vá em frente”.
Depois resolvi fazer mais fotografia.  Era uma diversão. Eu sempre aprendia a cada foto. Fiz um estudo de luz e sombra em preto e branco e em cor. Fotografei corpos e objetos. Ao som das sonatas de Beethoven. Minhas fotos, reunidas, eram a “Sonata ao luar”. 
Mas o mundo girava rápido. Soube que a ditadura brasileira tinha prendido um companheiro nosso na Espanha e eu me apavorei.
Voltei a morar em diferentes hotéis por motivo de segurança, ou porque eu me sentia sempre perseguido. E tinha sempre uma boa quantidade de dinheiro vivo comigo para o caso da fuga. Talvez fosse paranoia, mas as notícias da repressão eram terríveis. Eu não viajava mais, sempre ficava em Paris, mudando de lugar quase escondido. E só.
Depois, fechei minha loja e desapareci.
Conheci a ponta dos extremos. Dos cadáveres semienterrados no alto da floresta, cujas roupas vesti, ao luxo europeu. Ali estava eu. Era esse o mistério de minha concepção de mundo e de arte. Desenhei roupas para rainhas e para índias. O meu mundo era o caos. 
Pretendia ir para os Himalaias, mas um devastador terremoto com milhares de mortos me deixou paralisado. Era um mundo em guerra. Eu me via em busca de segurança, num mundo inseguro, móvel, tinha pesadelos em que era caçado por tropas inimigas. Eu só via destruição e morte por toda parte. Tudo era um horror, tudo era a catástrofe. 

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