Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 24 de setembro de 2018
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Crispim, rios de desesperança

Crispim, rios de desesperança

(*) Dílson Lages Monteiro 

 

Escrevendo sobre particularidades vitais da Teoria Literária, ao discorrer sobre a trama no romance, anotaram os mestres mineiros Audemaro Goulart e Oscar Vieira:

“Ler um romance consiste em filtrar significados outros que não aquele óbvio que as palavras na sua limitação significativa estão a sugerir. É necessário que o leitor rompa a barra que separa significante e significado e se projete em outros domínios, descobrindo novos eventos, às vezes latentes, às vezes matreiramente escamoteados pelo romancista. Assim procedendo, ele, o leitor, estará enxergando os personagens sob novos prismas e perspectivas, estará, enfim, vendo gente viva, onde, supostamente estariam simples bonecos (...) Grave-se isto: a trama de um romance jamais deve ser o simples contar de uma história. Existe uma ambiguidade que cumpre ao leitor decifrar” (1994:103).

Crispim, rios de desesperança, romance com o qual Antônio de Pádua Vieira de Carvalho estreia na seara da literatura, é uma narrativa, em sua composição temático-formal, concentrada, sobretudo, em uma trama: interessa ao narrador, principalmente, os vínculos causais da estória e a alegoria subjacente a eles, construídos a partir dos desdobramentos em torno do destino trágico do filho de um pescador. Recuperando uma lenda que, historicamente, simboliza a identidade de Teresina, a lenda do Cabeça de Cuia, o autor resignifica  o sentido usualmente atribuído a ela, que, na versão de Pádua, vira romance, a fim de dar a essa lenda uma dimensão até então pouco explorada, embora muitas versões para a estória, em prosa e verso, tenham brotado das mãos de outros experientes literatos locais.

A clássica lenda do Cabeça de Cuia, vivida e revivida pelos teresinenses, conta popularmente a história de um garoto muito pobre, Crispim, estabelecido nas margens do rio Parnaíba. Certo dia, a mãe o serviu para o almoço uma sopa com ossos, porque, em sua casa, faltava carne. Revoltado com a situação, atirou um osso contra a mãe, atingindo-a na cabeça em golpe mortal. Antes de morrer, a mãe o amaldiçoou: ele, com a cabeça enorme no formato de uma cuia, um monstro, vagaria dia e noite pelo rio, somente se libertando da maldição após devorar sete virgens de nome Maria. Enlouquecido, Crispim se atirou ao Parnaíba, onde se afogou. O corpo dele nunca foi localizado e até hoje sua figura lendária desperta temor nos banhistas, nos pescadores e nas moçoilas.

Narrativas populares, nascidas da tradição oral, revelaram-se em seu nascedouro como instrumento de explicação para comportamentos ou ações que fogem à racionalidade ou contrariam as convenções sociais, a cultura ou as leis. Às vezes, sob forte influência das crenças religiosas. É o se observa também nos contos de fadas, de natureza próxima às lendas e ao conto popular, por exemplo, de acordo com o que diz Bruno Bettelheim:

“(...) Abundam em motivos religiosos; muitas histórias bíblicas são de natureza idêntica ao conto de fadas. As associações conscientes e inconscientes que estes evocam na mente do ouvinte dependem de seu sistema geral de coordenadas e de suas preocupações pessoais. Daí que as pessoas religiosas encontrarão neles muitas coisas de importância(...).

A maioria dos contos de fadas se originou em períodos em que a religião era uma parte muito importante da vida, assim eles lidam, diretamente ou por inferência, com temas religiosos “ (2007:22).

Seguindo esse viés, a matriz da lenda Cabeça de Cuia pode ser explicada pela necessidade de obediência diante das adversidades da vida: evitar o rio e seus perigos, manter a castidade, livrar-se dos riscos de afogamento nas águas turbulentas do rio, aprender a perdoar etc.

Em ensaio esclarecedor sobre a lenda do Cabeça de Cuia, Maria do Socorro Rios Magalhães, crítica literária e distinta integrante da Academia Piauiense de Letras, associou a criação do mito Crispim à fundação de Teresina. Citando diversas versões da lenda, ao analisar sua estrutura narrativa fundamentada em André Jolles, além de considerar contribuições de Lévi-Strauss, diz a pesquisadora:

“O Cabeça-de-Cuia é uma lenda muito associada a Teresina, à origem da cidade, remetendo ao lugar onde surgiu uma pequena povoação, denominada “Vila do Poti”, porque se situava junto à barra do rio Poti, ali onde aquele rio joga suas águas no Parnaíba, formando um cenário de extraordinária beleza, hoje transformado em atração turística. Esse local teria sido a primeira opção de José Antônio Saraiva para construção da nova capital que substituiria Oeiras, a antiga sede da província do Piauí. No entanto, as frequentes cheias que assolavam a região o fizeram desistir da ideia, levando-o a decidir-se pelo lugar conhecido como Chapada do Corisco, para onde foram transferidos, embora a contragosto de alguns, os moradores da Vila do Poti. A “Vila Nova do Poti”, como passou a ser chamado o povoado erguido na Chapada do Corisco, deu origem a Teresina, a nova capital, inaugurada em 1852 pelo presidente José Antônio Saraiva. Contudo, a antiga povoação da barra do Poti resistiu, teimando com as enchentes do rio Poti, e passou a ser conhecida como “Vila Velha do Poti”, até se tornar o bairro “Poti Velho”, o mais antigo da cidade” (págs.151-152)

Partindo do pressuposto de que mito e lenda remetem a um tempo das origens e de que “a narrativa mítica é a transformação de uma estrutura lógica subjacente”, citando Levi Straus, esclarece Rios Magalhães:

“(...) para captar o sentido de uma narrativa mítica, é necessário levar em conta, além das sequências narrativas, ou seja, os acontecimentos na sua ordem cronológica, que dão o sentido aparente do mito, aquilo que chama de “esquemas”, que são oposições e equivalências, que se encontram num plano de profundidade superior ao plano horizontal das sequências” (p.156).

Nessa linha de raciocínio, entre as várias conclusões que se associam à origem de Teresina, para fundamentar suas especulações, conclui a pesquisadora:

“A narrativa inicia com um homem tentando pegar um peixe nas águas dos rios e termina com um homem que, vivendo como peixe nessas mesmas águas, passa a afugentar aqueles que tentam ali pescar” (p.157).

Em Crispim, Rios de Desesperança, o significado da lenda adquire novos contornos. Ela é explorada para que o leitor alcance uma instância de enunciação compromissada com a dimensão social da literatura. Crispim deixa de ser o mostro que apenas causa pavor aos banhistas, canoeiros e mocinhas, para se transformar em vítima das injustiças sociais. Tal qual na lenda, o Crispim de Pádua Carvalho também matou a mãe e a avó e desapareceu nas águas do rio; entretanto por circunstâncias mais diretamente ligadas ao determinismo da imobilidade social gerada pela miséria.

A Teresina de Crispim, Rios de Desesperança é a da periferia; a da periferia teresinense das décadas de 1940 e 1950. A da família de pescadores residente na Catarina, nas imediações da Piçarra e do Morro do Querosene, detalhadamente personificada em hábitos e valores. A da construção da igreja de São Raimundo. A da fé incondicional em rituais religiosos. A dos incêndios criminosos em casas de palha. A da arbitrariedade do aparelho policial reprimindo e criminalizando a pobreza. A da violência galopante nos prostíbulos, formados de jovens perdidas na ilusão do amor frustrado. A da infância de brincadeiras genuinamente infantis, ainda que a maldade e o bullying, como denuncia o autor, estivessem desde sempre estranhados como traço humano ou parte integrante de cultura machista. Seus personagens tem o cheiro da terra: pescadores, lavadeiras de roupa, verdureiras, trabalhadores braçais variados, para quem, como reforça o narrador, pobreza não aniquila a honra nem a dignidade. A Teresina de Crispim tem a marca da injustiça social, mas reserva lugar ao amor e à bondade.

O Crispim de Pádua Carvalho é um rapazote disposto ao trabalho e a ajudar o pai Juvenal e a avó Dona Esperança, atormentado pela orfandade da mãe que habitava sua curiosidade e afeto. Embora se consumem núcleos dramáticos repletos de tristeza e sofrimento, a ternura e a comoção fazem o leitor se identificar com a narrativa. Identificação advinda também do humor sutil que perpassa o texto. Crispim ganha, por exemplo, a designação de Cabeça de Cuia, na verdade, pela natureza do trabalho que exerce (vendedor de cuias e esponjas)  na feira do bairro Piçarra, onde, permanentemente é caçoado por colegas que tentam inferiorizá-lo.

Em Crispim, Rios de Desesperança, há o publicitário que é o autor. E publicidade se chama ideia: responde ao nome de sonho. Há, neste romance, portanto, a imaginação viva de quem se habituou a transformar sonhos em necessidades, ou a verter carências em ideais. Permite, pois, sua obra recuperar o que escreveu o escritor russo Máximo Gorki, ao explicar como aprendeu a escrever:

“Na luta da existência, o instinto de conservação desenvolveu no homem duas poderosas forças criadoras. Essas forças são o conhecimento e a imaginação. A primeira é a capacidade de observar, comparar e elucidar os fenômenos naturais e os fenômenos da vida social; em outras palavras, o conhecimento é a capacidade de pensar. Em essência, a imaginação também é pensamento acerca do mundo. Porém, é fundamentalmente, pensamento em imagens, pensamento em forma artística” (1998:12).

Para aquilatar a dimensão de que o leitor estará diante de escritor senhor da palavra, o qual resignificou em romance a lenda mais característica do Piauí, em linguagem que valoriza a oralidade, sem perder a fluência nem empobrecer o texto, reproduzem-se aqui as linhas iniciais de Crispim, Rios de desesperança, na voz de um narrador distante que a contempla como se apalpasse a memória, para, mesmo em descrição da paisagem, conotar traço identitário de Teresina. Nestas linhas, o céu de Teresina, visto do bairro Picarra:

O sol ia alto no céu destas paragens de Teresina, uma cidade nova que há pouco tempo acabara de completar seus primeiros cem anos de vida. Estava límpido aquele céu, o mesmo que em noites de chuva era rasgado por coriscos e se fazia estremecer com o estrondar dos trovões, obrigando os mais supersticiosos a ficarem em suas casas, as portas e janelas fechadas, presos às crendices de cobrir os espelhos com panos, como forma de se protegerem. Ainda havia, na gente simples, muito da ignorância cultivada anos a fio pela pobreza, o isolamento e a falta de acesso ao conhecimento, talvez certa ingenuidade que, aos poucos, cedia lugar para uma nova realidade.

Este é o mesmo céu que, de dia, estende a luminosidade cegando as vistas, faz do astro-rei um braseiro que esturrica o chão das ruas de Piçarra, brilhando e queimando a pele dos filhos deste rincão de maneira menos branda que os de outros lugares. Mas, ainda assim, o verde das árvores predomina na paisagem, meio urbana e meio rural, e recompensa, com sua sombra, a enormidade do desconforto trazido pelo calor escaldante” (p.15).

Referências

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

CARVALHO, Antônio de Pádua Vieira de. Crispim, rios de desesperança. Teresina: Livraria Nova Aliança Editora, 2017.

GORKI, Maximo. Como aprendi a escrever. Porto Alegre: Mercado de Letras, 1998.

GOULART, Audemaro Taranto & SILVA, Oscar Vieira da. Introdução ao Estudo da Literatura. Belo Horizonte-MG: Editora Lê, 1994.

MAGALHÃES, Maria do Socorro Rios. A lenda do Cabeça de Cuia: estrutura narrativa e formação do sentido. Disponível em: http://seer.upf.br/index.php/rd/article/view/1920/1216

 

(*)Dílson Lages Monteiro é poeta e ficcionista. Editor de Entretextos e professor, ocupa a cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras.

 

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