Dilson Lages Monteiro Domingo, 21 de outubro de 2018
Paradoxo
Margarete  Hülsendeger
Tamanho da letra A +A

HERESIA! PARTE II

HERESIA! PARTE II

 Se em algum cataclismo todo o conhecimento científico fosse destruído, e fosse possível transmitir apenas uma frase para as próximas gerações, qual afirmação poderia conter o maior número de informações com o menor número de palavras? Creio que seja a hipótese de que todas as coisas são feitas de átomos.

Richard Feynman

 

Um arrepio percorreu a sua espinha, ao mesmo tempo em que uma gota de suor escorria pelo rosto. Mexeu-se ainda mais nervoso na cadeira. Um dos monges lhe lançou um olhar de advertência. Controlando-se, refletiu sobre a melhor maneira de agir. Uma solução seria continuar copiando como se nada entendesse. O problema era que o abade sabia que ele era capaz de ler e quando descobrisse o teor desse documento iria interrogá-lo sobre o porquê de não ter sido informado de imediato.

Não! Ele não se arriscaria. Agindo impulsivamente, levantou-se da cadeira e recolheu todo o material espalhado pela mesa. Ao ouvir o ruído, os monges pararam o trabalho e levantaram as cabeças. Respirando fundo, andou em direção ao seu superior imediato, o velho monge responsável pelo trabalho de todos os copistas do scriptorium. Agora o silêncio era absoluto, pois até mesmo o raspar das penas sobre os pergaminhos havia cessado.

Mantendo uma atitude tranquila e humilde, disse ao velho monge que precisava falar em particular com o abade.

- Meu filho, esse não é o momento. Volte a sua mesa e continue a tarefa que lhe foi designada – respondeu o velho, ignorando-o.

- Não posso, irmão – falou num sussurro, sentindo a voz tremer.

O monge mais velho não era tolo. Ao fitar o rosto do rapaz e vê-lo ali em pé, com os pergaminhos debaixo do braço, percebeu que algo de muito grave estava acontecendo. Largando a pena e cruzando as mãos sobre mesa, perguntou ao jovem:

- Irmão, o que o preocupa?

Baixando ainda mais a voz, o rapaz respondeu:

- São esses papéis. Eles não deveriam estar aqui.

O homem mais velho o olhou com atenção. Ele sabia, o abade fizera questão de informá-lo, que esse não era um jovem inculto, ele entendia o que estava copiando. Portanto, era óbvio que alguma coisa na leitura o perturbara. Olhando de forma severa para os outros monges os obrigou a voltar ao trabalho. Depois, levantando-se, pediu ao jovem que o seguisse.

Para chegar até a sala do abade era preciso atravessar um pátio que separava o prédio principal do scriptorium. Os dois monges fizeram todo o trajeto no mais absoluto silêncio. Quando, enfim, chegaram diante da sala, o homem mais velho bateu na porta e aguardou. Em seguida, ouviram uma voz abafada dando-lhes permissão para entrar.

- Bom dia, Eminência! – disse o monge mais velho.

O abade levantou a cabeça para responder quando viu que o irmão não estava sozinho.

- Algum problema? – quis saber, sem se preocupar com cortesias.

O monge fez um sinal ao rapaz para que falasse.

- Eminência, são esses papéis. Eles não deveriam estar aqui – repetiu o jovem, de cabeça baixa.

O abade franziu a testa, sem entender e, impaciente, perguntou:

- Como assim, “não deveriam estar aqui”? Não cabe ao irmão julgar o que pode e o que não pode estar aqui. Esse não é o seu trabalho.

O jovem monge olhou, com medo, para seus dois superiores. No entanto, intuiu que precisava terminar o que havia começado:

- Os documentos com o quais tenho trabalhado são claramente heréticos. Atentam contra Deus e a Santa Eucaristia – disse de um fôlego só.

Os dois homens mais velhos se olharam espantados. Recompondo-se, o abade pediu com um gesto que o jovem se aproximasse e colocasse todo o material sobre a mesa.

- Está tudo aqui? – perguntou o abade.

- Sim.

- Você comentou sobre esse assunto com mais alguém?

- Não.

- Muito bem. Você agiu corretamente. Agora saia, volte ao trabalho com a consciência limpa e não se preocupe mais com esses manuscritos.

Depois fez o sinal da cruz abençoando-os, e deu permissão para que se retirassem. Os dois monges inclinaram as cabeças em sinal de humildade e respeito e saíram em completo silêncio. Não houve mais perguntas. De volta ao scriptorium, o jovem monge recebeu outra tarefa: um pequeno texto de Aristóteles sobre botânica. Não pôde conter um suspiro de alívio.

Em sua sala, o abade lia o que fora transcrito. Sentiu sua respiração se acelerar. O rapaz tinha razão. Deixando o texto sobre a mesa, levantou-se e nervoso começou a dar voltas tentando descobrir o que fazer. Destruir. Essa era a opção mais razoável. O fogo daria cabo de todas aquelas heresias. Contudo, todos os documentos que entravam no mosteiro eram registrados, como iria explicar o desaparecimento desses papéis. Decidiu que o melhor era passar essa responsabilidade para os seus superiores em Roma.

Sentando-se, pegou um pedaço de pergaminho e redigiu uma breve mensagem a um amigo bispo. Sem entrar em detalhes, pedia que os documentos fossem entregues à Santa Sé para a devida avaliação. Feito isso, juntou todos os papéis e colocou-os em um cofre de ferro com cadeado. Em seguida, chamou seu secretário e ordenou que o cofre fosse enviado a Roma ainda hoje.

Quando, finalmente, tudo estava resolvido, sentiu-se mais tranquilo. Agora precisava apenas ficar de olho no jovem copista. A melhor solução seria transferi-lo para outro serviço. Quem sabe, a cozinha. Afinal, todos sabiam que conhecimento demais era o caminho mais seguro para cair nas mãos do demônio e ele, como guia espiritual daquele mosteiro, precisava zelar pela pureza das almas imortais de seus irmãos. Satisfeito consigo mesmo, retornou ao trabalho, procurando esquecer aquele pequeno contratempo em seu dia.

 

FIM.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

05.03.2018 - Elétrons

12.02.2018 - OS LIMITES DA LOUCURA

04.12.2017 - PERDIDA

04.11.2017 - LIÇÃO DE CASA

03.10.2017 - HERESIA! PARTE II

05.09.2017 - HERESIA!

07.08.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE III

03.06.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE II

08.05.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE I

01.04.2017 - UM ARCO-ÍRIS SÓ MEU

13.01.2017 - O PRÍNCIPE - PARTE I

04.09.2016 - A CASA AZUL

05.06.2016 - VESTIDA DE NEGRO

05.05.2016 - ADEUS!

12.04.2016 - A APRENDIZAGEM DA MENTIRA

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

18.10.2018 - DOM CLIDENOR E DOM QUIXOTE DE LA MANCHA

O nome Meduna foi dado em homenagem a um grande psiquiatra francês. O sanatório é uma bela construção, com seus pavilhões brancos, seus alpendres, seus corredores.

17.10.2018 - A PANTERA 3

A PANTERA 3

16.10.2018 - NEUZA MACHADO: A DESTRUIÇÃO PELO FOGO

NEUZA MACHADO: A DESTRUIÇÃO PELO FOGO

11.10.2018 - A história do sapo Zé

Falou que o garoto, além do amor aos livros, gostava de desenhar, escrever e era componente de uma banda musical.

08.10.2018 - DOIS: A PANTERA

DOIS: A PANTERA

06.10.2018 - COMO CONHECI NEUZA MACHADO

COMO CONHECI NEUZA MACHADO

05.10.2018 - A PANTERA. 1

A PANTERA. 1

05.10.2018 - A AMIZADE: BREVÍSSIMA REFLEXÃO

Na questão

04.10.2018 - A IMENSURÁVEL FLORESTA

A IMENSURÁVEL FLORESTA

03.10.2018 - A arte fotográfica de Valdeci Ribeiro

Valdeci se esmera em aguardar o momento mais adequado de luminosidade, em procurar o melhor ângulo, para conseguir o resultado que deseja.

02.10.2018 - Relembrando 1989

É preciso entender a verdadeira situação crítica em que se encontra o nosso país. Todo o cuidado é pouco.

01.10.2018 - Psycho Pass 10: batalha no túnel do metrô

Prossigo a análise, na forma de guia de episódios, da série de animação "Psycho Pass" com as aventuras futuristas da policial Akane Tsunemori, num Japão distópico onde a sociedade é controlada.

28.09.2018 - A GRANDEZA DESPOJADA

A GRANDEZA DESPOJADA

28.09.2018 - A GRANDEZA DESPOJADA

A GRANDEZA DESPOJADA

28.09.2018 - Noturno de Oeiras no Fórum da Velhacap

Noturno de Oeiras, com essa linda placa, marca mais um tento, “um verdadeiro gol de placa”.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br