Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Paradoxo
Margarete  Hülsendeger
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HERESIA!

HERESIA!

 Nem mesmo o brilho do Sol, a radiação que sustenta o dia, pode dispersar o terror que reside na mente das pessoas. Apenas a compreensão das várias manifestações naturais e de seus mecanismos internos tem o poder de derrotar esse medo.

Lucrécio (96 – 55 a.C)

No scriptorium o silêncio era interrompido apenas pelo raspar contínuo das penas de ganso sobre os pergaminhos. Ali não havia espaço para qualquer tipo de conversa fútil. A ordem do abade era incontestável: “Rezar e trabalhar”. E era a isso que os monges beneditinos do Mosteiro de Monte Cassino se dedicavam. Cabia a eles o santo ofício de copiar e ilustrar as obras dos grandes pensadores da antiguidade. Um trabalho cansativo que exigia extrema concentração e firmeza nas mãos.

Apesar do dia não ter amanhecido completamente, as escrivaninhas no scriptorium já estavam todas ocupadas. As primeiras atividades do dia eram sempre iniciadas com as orações matinais feitas na capela do mosteiro, seguida por uma refeição frugal antes de todos se dirigirem as suas mesas para começar o trabalho. Depois disso, ele só era interrompido quando o sino tocava para a próxima refeição e as orações do final da manhã. Em seguida, todos retornavam as suas mesas e o trabalho prosseguia até a noite. A rotina era severa e raramente interrompida.

Em uma das escrivaninhas trabalhava um dos monges mais jovens da congregação. Com todo o cuidado, ele se debruçava sobre o pergaminho, copiando um dos textos sob sua responsabilidade. Ele não ficara satisfeito com a tarefa, pois não se tratava de nenhuma das obras do grande filósofo Aristóteles. Sentiu como se não confiassem nele. No entanto, quem o olhasse não suspeitaria de nada, pois seu rosto, como o de todos os outros monges, era sereno e concentrado. Essa era uma das primeiras coisas que se aprendia ao entrar na ordem: manter para si qualquer tipo de sentimento ou emoção que pudesse perturbar o seu labor e o de seus irmãos.

Assim, mesmo aborrecido, há algumas semanas ele vinha trabalhando diligentemente nesses documentos. Copiava letra por letra, palavra por palavra e, no processo, lia o que estava escrevendo. Sim, ele lia. Ao contrário de muitos monges, não era um iletrado. Sendo o filho caçula de uma família nobre, antes de entrar no mosteiro recebera a melhor educação possível. Lia e escrevia fluentemente em latim, grego e também em hebraico. O abade fora informado de seus talentos, mas o proibira de comentar com os outros irmãos. Segundo ele, alardear sua boa educação demonstrava falta de humildade, atitude inaceitável em um bom católico temente a Deus.

Suspirando, ele largou a pena e massageou os olhos. Com dissimulação olhou em torno, pois era proibido parar o trabalho enquanto não lhe fosse ordenado. Contudo, o material diante dele o estava deixando apreensivo. Nervoso, recolheu as folhas que já havia transcrito e as releu em busca de alguma falha na sua interpretação. Não pôde encontrar nenhum erro. Confirmou o nome do autor, Teofrasto.

Com medo de ser pego sem fazer nada, voltou a segurar a caneta e concluiu a frase que estava copiando:

Os átomos são minúsculos, a ponto de iludir os sentidos, e têm inúmeras formas e tamanhos.

Segundo o autor do manuscrito, eles constituiriam tudo o que existe no universo. Verificou, novamente, que os nomes de Demócrito e Leucipo eram citados como a fonte original de tal declaração. Ele não sabia muito sobre eles, a não ser o pouco que tinha lido em algumas das obras de Aristóteles, existentes na biblioteca do mosteiro. Até mesmo os locais de seus nascimentos eram desconhecidos.

- Como, diabos, esses papéis vieram parar justamente em minhas mãos? – perguntava-se, enquanto fazia o sinal da cruz por inadvertidamente ter pensado no “maligno”.

Inquieto, debruçou-se mais uma vez sobre o pergaminho. Molhando a pena na tinta, manteve a mão firme e começou a copiar.

Os átomos movem-se no Vazio e esse movimento provoca colisões que os unem dando origem a novas estruturas mais complexas. Os átomos são imutáveis e indivisíveis.

- Por Cristo!– pensou assustado.

Aristóteles denominara esses homens – Demócrito e Leucipo – de “atomistas”, ridicularizando a maioria de suas ideais, pois, segundo ele, seria impossível falar de algo que não era visto e nem mesmo percebido por algum de nossos sentidos.

Entretanto, aqui estava ele transcrevendo um texto claramente herético. Um texto que defendia, inclusive, que a Natureza não teria uma razão especial de ser ou motivos secretos que justificassem certos fenômenos ou comportamentos. Segundo pôde entender, Demócrito e Leucipo não só renegavam a existência de um Deus onipotente e onipresente, mas também colocavam em dúvida o milagre da Santa Eucaristia. Afinal, se tudo era constituído de átomos e eles eram imutáveis como explicar o pão se transformando no corpo de Cristo e o vinho em seu sangue?

 

Continua...

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