Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2018
Paradoxo
Margarete  Hülsendeger
Tamanho da letra A +A

ADEUS!

 Emoções conflitantes a dominavam e, mesmo reconhecendo que a decisão tomada há algumas semanas era o caminho mais racional a seguir, uma dor profunda e estranha ameaçava sufocá-la. Ela compreendia que se não agisse desse modo estaria a um passo de adoecer, não só física, mas também emocionalmente. Essa certeza, no entanto, não diminuía a dor.

Piscando várias vezes tentou, sem sucesso, conter as lágrimas.

“Bobagem!”, disse a si mesma. “Idiota!”, insistiu, enquanto limpava, com raiva, o rosto.

Seu olhar vagou pela sala vazia. Quantas salas, antes dessa, havia deixado para trás? Várias. Não se tratava, portanto, de uma situação nova. Porém, sentia como se fosse a sua primeira vez. Talvez porque soubesse que era a última.

Fechando os olhos, lembrou como estava à sala há poucos minutos. Cheia. Não só de cadeiras e mesas, mas de gente. Ainda conseguia sentir um resquício da eletricidade que sempre a percorria nessas ocasiões: as batidas do coração cada vez mais rápidas, a incerteza de nunca saber o que esperar e o desejo, quase doloroso, de fazer a coisa certa. A adrenalina disparava, fazendo com que esquecesse os problemas, mantendo-a focada no momento e, principalmente, nas pessoas. Ela, no entanto, nunca levou a sério essas emoções. E agora era tarde demais para agir de forma diferente.

Não podia permanecer por mais tempo, precisava sair. A bolsa e o laptop eram seus, mas os papéis e a pasta ela os deixaria no armário, entregando a chave ao responsável quando partisse. Daquele lugar só desejava levar as boas lembranças. Não seria justo permitir que todos esses anos fossem marcados apenas pelas más recordações.

Tentando afugentar os seus demônios interiores, lembrou-se dos bons momentos que ali viveu. Os abraços sinceros, as palavras de afeto, os olhares atentos e os sorrisos enormes quando fazia alguma brincadeira. Sem querer, riu de si mesma. O estranho é que nunca premeditou nada. Ao contrário. Tudo sempre foi espontâneo, como se fosse uma segunda natureza tentando escapar do campo de força que ela criou em torno de si mesma.

“Eles vão esquecer rápido!”, pensou, com mais do que uma ponta de amargura.

Contudo, não havia como negar: boa parte da culpa fora dela. Seu maior inimigo, o medo, obrigou-a a construir um muro bem alto entre eles e ela. Convenceu-se de que, se não demonstrasse o quanto se importava, muito provavelmente não seria ferida. Enganou-se. Mesmo tendo erguido milhares de muralhas ao longo dos anos, nunca conseguiu evitar o sofrimento.

“Meu Deus. Como sou idiota!”, disse em voz alta. Afinal, não havia mais ninguém para ouvi-la.

E de repente, o simples pensamento de estar esperando algo que nunca ia acontecer fez com que olhasse para porta.

“Será?”

A porta continuou fechada, desafiando-a a pensar diferente.

Outra lágrima escorreu pelo rosto. Bem devagar. Dessa vez, ela não a secou. Afinal, não havia mais ninguém para vê-la.

Objetos pessoais na bolsa. Papéis na pasta. Chave na mão. Lágrima quase seca. Estava pronta para sair.

Sem pressa, andou até a porta sentindo o coração bater mais forte. Abrindo-a devagar espiou o corredor. Ele estava vazio. Bem, era isso. Virando-se, trancou a porta pela última vez. Partiu. E agora para sempre.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

05.03.2018 - Elétrons

12.02.2018 - OS LIMITES DA LOUCURA

04.12.2017 - PERDIDA

04.11.2017 - LIÇÃO DE CASA

03.10.2017 - HERESIA! PARTE II

05.09.2017 - HERESIA!

07.08.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE III

03.06.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE II

08.05.2017 - DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE I

01.04.2017 - UM ARCO-ÍRIS SÓ MEU

13.01.2017 - O PRÍNCIPE - PARTE I

04.09.2016 - A CASA AZUL

05.06.2016 - VESTIDA DE NEGRO

05.05.2016 - ADEUS!

12.04.2016 - A APRENDIZAGEM DA MENTIRA

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

21.05.2018 - Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, pioneiro da literatura piauiense.

O acadêmico Reginaldo Miranda aborda a obra de um pioneiro escritor piauiense.

21.05.2018 - TRADUÇÃO DO POEMA

Quisiera sr

18.05.2018 - Alguma coisa vem mudando no país

É só observar bem. Temos de apoiar as mudanças para melhor. O Brasil precisa continuar sendo passado a limpo porque tem muita sujeira de fato.

18.05.2018 - Herculano Moraes

O acadêmico Reginaldo Miranda presta homenagem a seu amigo e colega de APL, Herculano Moraes.

17.05.2018 - MORRE O POETA HERCULANO MORAES....

MORRE O POETA HERCULANO MORAES....

17.05.2018 - A 3ª REIMPRESSÃO DA 6ª EDIÇÃO NA SUA LIVRARIA

A 3ª REIMPRESSÃO DA 6ª EDIÇÃO NA SUA LIVRARIA

16.05.2018 - Viagem a Manaus

À noite, ouvi, muitas vezes, o canto rascante de cigarras e a sinfonia álacre dos batráquios.

15.05.2018 - Psycho Pass 9: Akane se impõe

Prosseguindo o guia de episódios do seriado japonês policial e de ficção científica "Psycho Pass" veremos como a Inspetora Akane lida com a hostilidade de seu colega...

14.05.2018 - Retrato de minha mãe (*)

Cristo disse que quem desejasse ser o maior, deveria ser o que mais servisse. Portanto, deveria ser o maior e o melhor dos servos. Mamãe (quase) renunciou a si mesma, para servir aos outros.

13.05.2018 - Capitão Marcos Francisco de Araújo Costa

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante militar e educador do período colonial.

13.05.2018 - Minha mãe e o budismo

Minha mãe participou ativamente do budismo em certas ocasiões.

13.05.2018 - Dia das Mães

Que dirá no dia das mães?

09.05.2018 - Barras: histórias e saudades

O livro conta a saga da comunidade barrense, desde o seu primórdio, no século 18, quando o fazendeiro e empreendedor Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do grande Bernardo de Carvalho e Aguiar, instalou a sua fazenda e currais.

06.05.2018 - Todos se dizem inocentes

Nenhum criminoso se declara culpado

06.05.2018 - O vestido verde

Sim, toda vez que eu passava pela avenue de la Motte Picquet tinha de dar uma paradinha naquela loja .

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br