Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Paradoxo
Margarete  Hülsendeger
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A CASA AZUL

A CASA AZUL

 Estranha situação, os espaços não querem ficar fechados! Eles se soltam. Diríamos que se transportam, facilmente aliás, para outros tempos, para outros planos diferentes dos sonhos e das lembranças.

Gaston Bachelard

Havia uma casa. Ela não tinha nada de mais. Nela havia uma sala, uma cozinha, um banheiro e dois quartos. A casa era azul.

A sala era espaçosa com um assoalho de madeira, mantido sempre muito bem encerado. O banheiro era daqueles antigos, onde até se podia encontrar um velho e lascado bidê. A cozinha por ser também espaçosa, era um ponto de encontro para longas conversas nos dias frios de inverno. Os quartos eram coloridos: um era verde e o outro azul. Existia uma porta entre eles, que era mantida quase sempre aberta.

Nesta casa vivia uma família: um pai, uma mãe e duas crianças (um menino e uma menina). O quarto verde pertencia ao pai e à mãe, e o azul, às crianças. A menina queria um quarto rosa, como, aliás, a maioria as meninas, mas tendo nascido o menino primeiro a escolha do azul foi a mais óbvia, para grande tristeza da menina.

O pai era um homem sério e zeloso de seus deveres. Todos os dias acordava no quarto verde e dele saía para o trabalho. A escolha da cor do quarto foi dele. A mãe também tinha grandes responsabilidades, mas, ao contrário do pai, não era tão séria. Havia sempre um sorriso em seus lábios e uma canção diferente para cada momento. Ela não escolheu a cor verde, ela preferia o amarelo. No entanto, o pai não quis: “Não é uma cor séria”, repetia ele. E ela não teve outro jeito a não ser aceitar.

O menino e a menina, apesar de gostarem de cores diferentes, se davam muito bem. Apesar de no quarto azul existir duas camas, mas, havia noites em que apenas uma delas era ocupada. Eram as noites de temporais e de pesadelos. A mãe várias vezes os encontrou agarradinhos na mesma cama, dormindo sossegadamente. Contudo, ela nunca os despertou, pois, também temia os temporais e os pesadelos que sempre insistiam em chegar sem dar aviso.

Todas as manhãs, os quatro se reuniam, na espaçosa cozinha, para juntos tomarem o café da manhã. A cozinha era branca, como convém a uma cozinha. Branco lembra limpeza. Todos só voltavam a se reunir nesse ambiente para o jantar, pois o pai passava o dia inteiro fora, ocupado com seus deveres, não tendo tempo para almoçar com a família. Assim, era durante o dia que a cozinha vivia o seu momento de maior agitação. Estando a mãe, a menina e o menino sozinhos, sem a presença séria do pai, a cozinha se tornava um lugar de muitas conversas, risadas e canções.

Nessa casa havia, também, uma sala. Sua cor era salmão (ou como diziam as crianças “cor-de-burro-quando-foge”). O pai não gostou muito, mas como ele já havia decidido a cor do quarto, permitiu que a mãe pudesse agora fazer a sua escolha. A mãe escolheu o salmão. O pai ao ouvir a explicação não entendeu, mas como era um homem sério e justo, acabou, meio contra vontade, aceitando a escolha da mãe.

A sala era grande, com móveis grandes, mas a sua marca mais importante era o assoalho de uma madeira muito lustrosa. A mãe o encerava todos os dias, pois acreditava que chão bonito é aquele no qual pode se ver o rosto refletido. As crianças gostavam muito dessa sala. Para elas, o assoalho polido e o espaço amplo a transformavam em uma incrível pista de patinação. Assim, em muitas noites de inverno, escondidas de sua mãe, buscavam, nas gavetas do quarto azul, meias velhas e, colocando-as nos pés, deslizavam pelo chão encerado, sentindo-se totalmente livres, quase como se fossem pássaros. O pai não aprovava essas brincadeiras e após o terceiro ou quarto “vôo” gritava para que a mãe desse um jeito. Naquela noite, elas sabiam, nada mais poderia ser feito, mas outras noites viriam e novos “vôos” aconteceriam para alegria dos dois e desespero do pai.

Na casa azul a família morou durante muito tempo. De vez em quando ela passava por algumas reformas, mas nenhuma delas afetou o seu colorido; ao contrário, as cores escolhidas eram sempre as mesmas. No entanto, com a passagem dos anos a casa começou a ficar pequena, para aquela que também era uma família pequena. Foi quando as crianças começaram a crescer. Nessa época, elas já não dormiam, em dias de temporal e pesadelos, na mesma cama. Não que os temporais ou os pesadelos tivessem deixado de existir, mas agora elas eram quase adultas e seria uma vergonha admitir esses velhos medos infantis. Assim, chegou o momento de pensar em uma nova casa, dessa vez, quem sabe, com um quarto cor-de-rosa.

A decisão da mudança não foi fácil. Abandonar aquele lugar, de tantas lembranças, era doloroso para todos. No final a família acabou se mudando, mas só o fizeram quando encontraram uma outra casa azul, que coloriram da mesma maneira: uma sala salmão, um quarto verde, um azul e outro cor-de-rosa, além, é claro, de uma cozinha e um banheiro brancos. A mudança foi triste, mas cheia de emoção. Quando o pai (apesar de continuar sendo um homem sério) e a mãe se viram sozinhos na casa vazia, abraçados, choraram, pois sabiam que ali tinham vivido alguns dos melhores momentos de suas vidas. As crianças (já quase adultas) também sentiram, mas como seus olhos estavam voltados para o futuro, logo esqueceram, pois, uma nova vida estava esperando por elas.

E quanto à velha casa azul? O que aconteceu com ela?

Pelo que se sabe ela não existe mais. Um dia alguém chegou e a achou muito velha e descolorida e sem mesmo pensar em quantas histórias ela havia registrado em suas paredes a mandou derrubar. Hoje o que se encontra em seu lugar é um grande, novo e desbotado prédio de apartamentos. Lá não há quartos verdes ou azuis, e muito menos uma sala salmão, mas apenas o branco que continua lembrando a mesma coisa: limpeza.

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