Dilson Lages Monteiro Domingo, 25 de fevereiro de 2018
Paradoxo
Margarete  Hülsendeger
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OS LIMITES DA LOUCURA

OS LIMITES DA LOUCURA

 Algo puede ser real, haber sucedido, y al contarlo sonar a falso. Y una pura invención inverosímil puede parecer lo mas real del mundo[1].

Mariana Mayoral

Ao colocar a chave na porta, Mauro ouviu vozes vindas do interior do apartamento. Tenso, seu primeiro pensamento foi o de dar meia volta e fugir. No entanto, ele sabia que era impossível. Resignado, girou a chave, entrando sem fazer ruído.

Ainda na porta, Mauro percebeu que a conversa estava bem animada. Palmas e assobios eram ouvidos e a impressão era de que algo importante estava sendo comemorado. Ele permaneceu em silêncio. Não sabia como agir. Na última vez, quando o interrompeu, a situação entre eles se tornara bastante difícil. Resolveu que o melhor era esperar, pelo menos até os ânimos serenarem. Largando a pasta no chão, sentou na cadeira ao lado do telefone.

Mauro e Lúcio estavam juntos há mais de dez anos e já tinham passado por muitas coisas. A relação entre eles sempre fora cheia de dificuldades. Primeiro, porque Lúcio era casado e assumir o relacionamento o obrigou a revelar-se e, por consequência, romper com a família. Além disso, a diferença de idade entre eles era significativa, o que tornava Lúcio um homem inseguro e ciumento. Contudo, até agora eles haviam conseguido vencer todos os obstáculos, seguindo em frente e procurando não se importar com o que os outros pensavam.

Um grito fez com que Mauro desse um pulo. Preocupado, espiou pela porta da sala. Lúcio gesticulava muito, falando sem parar. O outro permanecia em frente ao sofá, com um sorriso tolo no rosto, a espera que Lúcio se acalmasse.

Devagar e em silêncio, Mauro retornou a cadeira. Ansioso, pôs os cotovelos nos joelhos e apertou a cabeça, puxando alguns fios de cabelo.

“Isso é loucura!” – disse a si mesmo movendo o corpo para frente e para trás.

Como dialogar com alguém que não consegue compreender o alcance de suas ações? Lúcio, mesmo sendo o mais velho, se tornara uma criança grande. Alguém que precisava de atenção constante. Mauro fechou os olhos, sentia-se cansado. Muito cansado.

O silêncio na sala fez com que se endireitasse na cadeira. Aparentemente, a situação estava mais tranquila. Levantando-se, ajeitou a roupa e foi até a porta de entrada, abrindo e depois fechando, para parecer que acabava de chegar. Lentamente, aproximou-se da sala, dando tempo para que Lúcio percebesse a sua presença.

- Oi, amor, cheguei! – disse Mauro, com mais entusiasmo do que realmente sentia.

Lúcio não se virou de imediato, preferiu antes ouvir o que o outro estava dizendo. Mauro teve de controlar a impaciência, mantendo a expressão do rosto impassível.

- Oi, Mauro! – respondeu o homem mais velho, virando-se finalmente para ele. – Você chegou cedo.

- Consegui me livrar do trabalho antes. Estava preocupado com você – disse enquanto dava a volta no sofá e se sentava ao lado dele.

- Preocupado? Comigo? Que bobagem! Você sabia que eu tinha um compromisso de trabalho hoje – e com uma piscadela moveu a cabeça em direção ao outro.

Mauro abriu a boca para responder, mas forçou-se a ficar calado. Levantando a mão fez um carinho nos cabelos ralos do companheiro. Mauro sempre gostou de homens mais velhos, mas com Lúcio foi amor à primeira vista. Lembrou dos primeiros tempos e sentiu o coração bater mais forte. E foi dessas lembranças que extraiu a força para responder:

- É mesmo! Desculpe, eu esqueci. E como foi? Deu tudo certo?

Lúcio se mexeu inquieto no sofá. Olhava nervoso, sem saber a quem dar atenção.

Mauro percebeu a sua ansiedade, mas decidiu aguardar.

- Bem – começou. – Estamos quase finalizando um acordo – disse nervoso, enquanto que com o canto do olho cuidava a reação do outro.

Com pena, Mauro não insistiu. Em vez disso perguntou:

- Você já tomou os remédios?

Lúcio fez uma careta e não respondeu.

- Tomou ou não tomou? – insistiu, sentindo sua paciência chegar perigosamente ao limite.

- Tomei! Tomei! – disse Lúcio. – Mas, agora, me deixa em paz preciso ouvir o que ele está dizendo, não quero perder essa oportunidade.

Com um suspiro, Mauro levantou do sofá e foi até a cozinha verificar se a medicação havia sido realmente tomada. Lúcio, muitas vezes, esquecia e nessas ocasiões tudo ficava ainda pior.

Quando já estava na porta, Mauro se virou a tempo de ver Lúcio inclinando-se para estender a mão em um cumprimento. Do outro lado, diante do sofá, o apresentador do telejornal despedia-se com um sorriso de dentes brancos e um “Boa noite!”.



[1] “Algo pode ser real, ter acontecido, e ao contá-lo soar falso. E uma pura invenção, inverossímil, pode parecer o que há de mais real no mundo” (Tradução minha).

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