Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Painel Cultural do Ceará
Denis Akel
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Limoeiro zero

Limoeiro zero

[Denis Akel]

Sair de Fortaleza, na manhã da última quinta (21/02/18) teve um sabor especial, não apenas por ser uma viagem, ou pela chuva, inusitada companheira de estrada, mas por estar a caminho de uma feira do livro, para o que seria, entre tantas coisas, a primeira apresentação oficial de minha primeira publicação, o livreto Livro Zero.

Não seria a primeira vez que iria a Limoeiro do Norte. Por aqui já estive em 2015, justamente procurando as raízes desta feira, querendo conhecer, saber se ainda existia; tinha visto um anúncio da primeira edição, já no longínquo 2011, uma bicicleta pedalada por livros, imagem que ficou em mim ao longo dos anos. Não encontrei muita coisa, mas acho que também não procurei tanto, a feira talvez já tivesse acontecido. A hora não era aquela, mas veio espreitar-me justo agora, neste início de ano.

Graças à alegria do movimento, das viagens, deslocamentos - dessa teimosia - ano passado tive o prazer de conhecer Eugênio Leandro, em eventos em Fortaleza, e de cara lembrei que já vira seu nome antes: como um dos responsáveis da feira do livro de Limoeiro! Foi somente um beliscar no gigante manto inventivo deste músico, compositor, escritor e tantos outras facetas. Parecia que já o conhecia há tempos. E a feira de 2017 Eugênio? Vai acontecer, no começo de 2018.

Nesse meio tempo articulei a produção de minha primeira publicação, da urgência do papel, do físico, do sentir da página. Nascia o Livro Zero, parcialmente artesanal, misturando desenho, texto e o pulsar do momento, do risco, erro, acerto. Um pequeno sonho, se é que sonhos se medem em tamanhos.

Veio o convite de Eugênio. Teria a oportunidade de viver agora a V Feira do Livro de Limoeiro do Norte, em todo seu esplendor, e mais, teria ainda a chance de apresentar meu livreto. Ultimamente, tive o prazer de ir a alguns lançamentos, eventos literários, culturais, fazer amigos incríveis, parceiros, e sempre registrando, seja em fotos, vídeos, desenhos, mas sobretudo em textos. Faço pelo gosto à literatura, pela completude que me causa, transborda, um registro que serve antes de tudo para mim, referências, caminhos, opções. Agora, a novidade: eu faria uma apresentação, breve fala. Estaria do outro lado. Seria uma experiência nova e estava curioso e, por que não dizer ansioso para descobri-la.

Na estrada, já um mundo de histórias, conhecendo melhor os entornos de Limoeiro e do Vale do Jaguaribe. A região do Tabuleiro, e percebendo que nada ainda conheço do gigante Ceará. Quantas histórias, quantas vidas não devem estar em cada daquelas cidadezinhas que via no horizonte ou mesmo nas placas indicativas do trânsito? A feira já tinha começado, naquela fascinação com a paisagem, a transição da vegetação, entre juremas e carnaúbas, as gotas de chuva na janela refletindo os muitos eus de outrora, como se todos se confluissem naquele momento.

Era por volta de meio-dia quando cheguei. Não chovia, mas um céu nublado me deu as boas vindas, juntamente a um tamarindeiro centenário. Limoeiro está diferente do que lembro, mas lembro de que mal o conheci. Não andei muito em 2015, mas é visível o forte crescimento comercial, embora também chame atenção a presença de muitas casas antigas preservadas, com suas arquiteturas que lembram art déco, platibandas, ladrilhos, combogós. E como não me maravilhar ao rever a rua Cel Serafim Chaves, ao lado da Catedral da matriz, e sua extensa calçada, quase uma passarela, onde seria costume nos dias seguintes por cadeiras, ouvir a missa da tarde, o sino da igreja.

Na praça, inúmeras tendas já erguidas, os últimos detalhes em curso: luzes, cadeiras, palco. Um movimento delicioso, essa pré-festa, que tanto gosto de ver, o trabalho de pessoas que muitas vezes mal sabemos quem é, mas que torna possível a voz sair do microfone, o palco se manter de pé, e todo o engendrado dar certo, entre cabos, fios, instalações, a feira ganhava forma, o corpo já bem definido. A imagem da igreja, saltada ao fundo, compunha maestralmete a cena. Passeei pelos entornos, conheci habitantes locais, suas histórias com a Feira, soube de antigas livrarias, da forte tradição de cantadores de um local ali conhecido como Sapé, fatos que me chegavam na naturalidade de uma conversa espontânea, sempre as melhores.

A um lado da praça, a academia limoeirense de letras. Lembrei tê-la visitado da outra vez, estiquei até lá. O casarão abrigava um pequeno auditório e amplo corredor com parte da história, não só dos acadêmicos, como da cidade em si. Lá dentro, o tempo parecia suspenso, em cada farpa de madeira descascada das portas, à bem preservada madeira das cadeiras, uma sensação que me fez pausar por breves instantes e quase esquecer o que fazia, retido naquelas memórias.

Era já final da tarde. O folheto da programação acabou de sair. Bonito, com a praticidade de um folhear via-se a dimensão do que estava por vir, até o sábado, dia 24. Mesmo sabendo que estaria na programação, ler meu nome mais uma vez trouxe novo susto, bateu algo profundo, quase como quando o vi na capinha de meu livreto. Era fato, ali estava eu.

A feira abriu oficialmente às 20h. Coincidiu um pouco com o final da missa, o badalar do sino convocava a dar uma olhada nos estandes. Várias editoras, livros promocionais, todos os gostos, públicos, ao alcançe, na praça. Fazia gosto de ver o movimento crescente, à cada minuto, hora, chegavam pessoas, famílias, crianças, sorrisos.

Um dos maiores destaques deste primeiro dia se deu na apresentação do espetáculo teatral Boizinho da Faceira, algo que ainda não entendi direito nesse primeiro momento mas já percebi ser respeitada tradição, para a qual contava-se com a presença do mestre da cultura Chico Nogueira. Completamente lotada, a tenda central assistiu à representação, ao som suave de flauta, como um passarinho descobrindo o dia, canto das crianças e tantos brilhos de luzes e registros.

Os primeiros lançamentos vieram a seguir, os Dessa noite eu ainda praticamente desconhecia, cada um desbravava novo mundo, entre o que o autor dizia, o que o apresentador dizia e do que o livro dizia.

O cordelista Paiva Neves, conhecido de nome de outros eventos, lançou cordel inspirado em "O Mundo Perdido", de Conan Doyle. A obra dava nova leitura à pouco conhecida história do criador do detetive Sherlock Holmes.

Já nos momentos finais desta primeira noite, tivemos uma homenagem ao centenário do poeta Hercílio Pinheiro e também ao poeta Louro Branco, na voz e repente de vários cordelistas convidados. Era um momento glorioso, que eu bem queria ouvir, pois lera algumas coisas sobre Hercílio dias antes da viagem. Contudo, surgem acasos que nos chacoalham sem aviso, e flanando entre os quiosques e mesas expositoras, descobri uma turma de rapazes que fazem zines e livretos artesanais, numa pegada próxima à de meu livreto. Eram de Limoeiro, diziam que o cenário local era fraco nessa área, a conversa fluiu, à medida que mergulhava naqueles pequenos papeizinhos sobre o pano azul da mesa, literalmente um oceano. A cantoria? Acabei não ouvindo, aliás, ouvi, entrecortada à extensa conversa que nasceu naquele acaso.

E por fim sobem ao palco Agamenon Viana e seu parceiro Aurélio. Agamenon foi um dos autores que lançou livro, mas agora iria cantar, um repertório que misturava bossa nova e baião, e o fez com irremediável classe, para o agora pouco, mas firme público, que manteve-se mesmo após a leve garoa da noite.

Mal consegui organizar as ideias para pensar em escrever ao finalmente aquietar a cabeça nesta noite, mas sabia que teria de parar para isso. A vontade é de escrever mais, mas mais ainda virá. Desde já, imensamente grato a Eugênio e todos os que fazem bravamente essa festa linda, ao ar livre, para todos. Que venha o segundo dia! 

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