Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Letra viva
Cunha e Silva Filho
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Sobre a amizade e outras variações

 

        Cunha e Silva Filho


       A amizade é um vocábulo cuja acepção tem que ser levada a sério. Não pode ser banalizado nem pode ser dito da boca pra fora, a não ser quando, em circunstâncias ditadas apenas pelas convenções sociais, seja usado por mera formalidade, como sói acontecer amiúde nas redes sociais. No segundo caso, o seu uso é vazio de sentido. Creio que, na psicologia do brasileiro em geral, há uma tendência a tratarmos outrem com uma certa intimidade ainda que, aos olhos do interlocutor, sintamos um certo desagrado.
     Ou seja, somos avessos aos protocolos e, por conseguinte, só a muito custo aceitamos os distanciamentos. Preferimos as liberdades, as aproximações antecipadas, as intimidades. Por esta razão não apreciamos os diversos pronomes de tratamento na comunicação oral e descontraída. Escolher um “você,” um “tu, ” um “senhor” causa alguma dificuldade no nosso interior. Em razão mesmo dessa dificuldade de uso de tratamentos, há duas opções gerais: ou usamos em grande parte do país, um “você,” como é tão frequente no Rio de Janeiro, ou, em outras regiões, no Sul do país, por exemplo, empregamos um “tu.” Por outro lado, o mesmo indivíduo, ainda tomando o Rio de Janeiro como referência, usa indistintamente , no mesmo dialogo, os pronomes você e tu( mistura de tratamento), o que é muito frequente no português do Brasil, já bem observado pelo linguista J. Mattoso Camara Junior (1904-1970).
     Porém, não é de gramática ou variações linguísticas que quero falar nesse texto, mas do sentido da amizade nas relações humanas, atualmente ou em priscas eras. Em resumo, a minha hipótese, se é que é hipótese, é a de que o fator determinante da amizade vitoriosa não é sempre o tempo, seja de cinco, dez, vinte, trinta anos ou mais. No conjunto de fatores secundários que leva duas pessoas a manterem uma saudável amizade por toda a vida teremos que considerar as afinidades de ideias, de gostos, de valores éticos, religiosos, ideológicos e de outros valores culturais.
    Tomemos, em princípio, a categoria tempo, a duração das amizades e seu fim. Dois amigos se encontram, Começa uma amizade que dura um longo tempo. De repente, não se sabe por que cargas d’água, um foge do outro sem explicação plausível alguma. Evidente que houve um fator de estremecimento da amizade.. Houve uma razão íntima que não aflorou às consciências de ambas as partes. Da noite pro dia apagou-se a chama da amizade.
    Subitamente, a amizade feneceu, deixou de nela haver um sopro forte do verdadeiro sentimento da amizade, vocábulo que, na sua formação está intimamente ligado à união, ao amor no sentido lato. Os dois lados se separaram. Houve, então, um quebra, uma ruptura de afinidades eletivas que, num átimo, desfez todo um repertório de sentimentos de mútua admiração que se pensava ter enraizado. E aí, doce ilusão, a amizade perdeu a motivação, os liames sólidos que a mantinham inabalável como uma rocha.      Entre a amizade de outrora e a realidade atual fez-se um abismo. Contudo, os fundamentos da amizade ruíram e se preferiu o silêncio das partes. Cada qual foi cuidar de seus restos de vida. Aquele sentimento inicial, tão caro ao ser humano, aparentemente virou uma página final de um livro.
      Me vem, agora, a imagem da baleia de Moby Dick (1851) de Heman Melville(1819-1891)). Nada sobrou após a vitória dela e o naufrágio de todas as perseguições debalde feitas contra ela. Só o oceano - pélago profundo -, ficou como testemunha da fúria dos homem e da aleia branca.
      Uma vez uma senhora me falou que a vida de cada um de nós tem um “prazo de validade.” Com todas as letras eu poderia argumentar contra essa assertiva. Mas, não vem ao caso aqui alongar-me por estas divagações existenciais. No entanto, recuando diante da minha dúvida, estendo a minha linha de raciocínio àquela observação das senhora e me pergunto ou pergunto a Você, leitor querido, “A amizade tem prazo de validade?” Eis uma pergunta que bem merece uma discussão homérica.
       Retorno à minha hipótese sobre a amizade e a sua durabilidade. Na minha experiência de vida, tenho comprovado que a amizade é uma “vexata quaestio.” Posso adiantar que já provei dela e de sua permanência, como já senti o gosto acre de suas perda que sempre me deixou intrigado e a me questionar: “Por que acabou? Como se explica isso?” Num abrir e fechar de olhos se evaporou. Mas, a grande questão é que não estou me referindo somente a quebra da amizade entre familiares que é, por sinal, terrível em suas consequências psicológicas, emocionais, sentimentais) mas sobretudo a amizades entre estranhos que se tornaram amigos e que resultaram desastrosas no enfraquecimento de seus laços tão profundos.
      No nosso “eu profundo," como diziam os poetas simoblistas,  de vicissitudes,  que amargamente colhemos  pela vida afora,  é que  sentimos  a alma dlacerada. É certo que muita gente de altas qualidades morais nos estimam. Contudo, é certo também que, a qualquer momento, por um motivo ou outro, lá se vai fenecendo a amizade que supúnhamos duradoura. É tudo tão imprevisível como o ser humano, essa esfinge que nos espreita no curso de nossa existência, de nossa travessia pelo sofrido mundo dos vivos.
     Há um consolo que gostaria de cultivar: que as nossas amizades durem a efemeridade própria do ser humano no planeta Terra. Não é isso uma solução à amizade transcendente, mas, pelo menos é um fato que vamos constatando com o passar dos anos. Ah, terminei me esquecendo de dar demonstrações cabais de minha pobre hipótese de trabalho.
      Deixarei, assim, para as locubrações (termo que, pela primeira vez, vi no título homônimo de um livro do escritor maranhense Antonio Henriques Leal (1828-1885), no exemplar datado de 1874 que pertenceu a meu pai e que guardo com carinho há tanto tempo) muitas vezes, áridas e cansativas de uma possível dissertação acadêmica, com bibliografia, ementa e tudo o mais que os muros das universidades tanto prezam. Por falar desse autor maranhense, que se doutorou em medicina no Rio de Janeiro, foi Comendador da Imperial Ordem da Rosa, Membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico e da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, por equívoco, afirmou ser português esse autor maranhense.
     Em Locubrações (em português há duas variações gráficas “lucubração” e “elucubração”), obra dedicada ao Imperador Pedro II. Além de reunir estudos científicos realizados pelo autor, ele dedicou um capítulo, “A literatura brasileira contemporânea” (p.187-233), escrito em Lisboa. Outros capítulos ainda discorrem sobre uma edição de Iracema (1865), em ensaio de caráter filológico, de José de Alencar (1829-1877), sobre autores portugueses, um ensaio sobre a Guerra do Paraguai. Locubrações se divide em duas partes: ciências e letras. Merece uma leitura ou releitura, sobretudo porque é uma oportunidade de entrarmos em contato com as perspectivas críticas do autor sobre alguns autores brasileiros mais conhecidos de então.

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