Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Letra viva
Cunha e Silva Filho
Tamanho da letra A +A

UM BRASIL E UM NATAL DE 2017 PARA CADA UM


                                                                                                         

                                                                                                          Cunha e Silva Filho

 

 

 

         Assim como, leitor, já se afirmou uma vez que não há Brasil mas brasis (essa foi a impressão que meu pai teve quando foi, em 1968, participar de um Congresso de Jornalista em Porto Alegre, viagem que lhe rendeu um artigo “Dois” Brasis”) tomando como comparação a divisão entre Sul e Norte, podemos dizer que o Natal se divide em natais. O que quero significar com esta divisão? Simplesmente que o nosso país, continental como é, oferece de tudo, todavia de forma errada e caótica: minoria extremamente rica e detentora da riqueza financeira e outra parte subdividida (“dividir para reinar”) em classes médias difusas. pobreza e miseráveis, tão miseráveis que nem tantos anos de Bolsa Família conseguiram resgatá-los dessa desumana posição. Em país socialmente injusto tal qual o nosso, é de se esperar tamanha diversidade negativa de bem-estar de sua população espalhada em seu território.
         Daí o sentido principal deste artigo: o Natal múltiplo, cujos extremos mostram a riqueza dos poderosos cada vez mais concentradores e gananciosos a todo custo do bolo econômico e o Natal dos despossuídos, da fome, da ausência total em todos os setores da atividade humana: moradia, saúde, salário, alimento, direitos sociais, lazer, em suma, um quadro de tragédia humana coexistindo no mesmo espaço geográfico da Federação. Realmente, não dá pra elogiar os tempos de Natal, sobretudo dos últimos anos e, em especial, dos – vamos usar um termo em moda para referir-se ao tal governo Temer - “desmandos” do PMDB provocados e projetados ao futuro por essa sigla que causa calafrios nos brasileiros conscientes da situação política de agora.
        Como daria certo um partido, no início da ditadura, foi criado para servir de oposição seletiva ao regime de arbítrio? Como se confiar numa partido que se compõe de um quadro ministerial tão insignificante em competência e em valores humanos e intelectuais ( com exceção do ministro da Fazenda)? Como se confiar nas intenções, promessas e ações num governo federal em que alguns membros do poder estão sendo investigados pela Lava-Jato?
         Se o que o atual governo federal alega que encontraram o país arruinado nas finanças e em outros setores e, para solucionar tão gravíssimos problemas, vai cobrar do bolso já por si esvaziado do brasileiro os milhões e milhões de falcatruas e roubalheiras dos assaltos ao Erário Público, não seria tal atitude injusta e perversa? Que culpa tem o brasileiro de que governantes mancomunados com o alto empresariado tenha realizado a maior esbórnia de desvios do dinheiro do Estado brasileiro? E mais: por que penalizar o nosso povo, os funcionários públicos com essa história não bem contada de reformas trabalhistas e sobretudo de reforma previdenciária, invocando o instrumento isonomia de teto de aposentados privados e públicos quando se sabe que isso é um projeto descaradamente injusto?
        Acreditaria nessa paridade de teto máximo igual para todos se a aplicação dela incluísse tanto os , digamos, senadores, deputados, juízes, desembargadores, presidente da República, enfim, todos os que, hoje em dia, usufruem dos supersalários, acúmulo de três ou quatro aposentadorias e outras vantagens que são, em muitos casos, muito maiores do que os já altos salários que percebe essa elite dos Três Poderes. Se não fizerem isso, uma reforma previdenciária como a que foi adiada para fevereiro seria um monstro de injustiça e ilegalidade no tratamento das aposentadorias.
        Obviamente, não quero tampouco ser contrário a uma melhoria dos aposentadores da Previdência Social que, por longos anos, têm sido injusta com os trabalhadores da iniciativa privada. No entanto, ao dar paridade de salários de aposentadoria aos funcionários públicos que têm, na maioria de seus quadros, pessoas de alta competência e dedicação às suas funções, sejam equiparados indiscriminadamente com outros funcionários do setor privado.
        Por outro lado, se houvesse mesmo isonomia para todos, do alto da pirâmide à base da pirâmide, eu poderia acreditar em justiça social no país. Esses argumentos em defesa da isonomia são tão insustentáveis até para um leigo que mais me parecem estar o governo elaborando num mundo surrealista, sob o comando de um presidente que, sem ter sido eleito, deu na veneta de resolver os magnos problemas do Brasil à custa dos enormes sacrifícios da sociedade.
       Se com esse tipo de reforma previdenciária os donos do poder de plantão estão pensando em artifícios e estratégias a fim de angariar vitória nas eleições do PMDB e seus asseclas e aliados em 2018, o que pretendem não vingará mesmo, uma vez que o povo não está mais assim tão imbecil politicamente e não dará respaldo a um partido que se caracterizou por escândalos e desgovernos ao longa da história política brasileira.
        Há algo que sempre me intrigou no cenário nacional: os analistas econômicos, com a frieza que lhes é peculiar, de braços dados com a mídia em geral tendenciosa à direita, se comportam como uma imenso séquito neoliberal de cooptação da vida econômica e não veem que, no miúdo, o quadro não é tão panglossiano assim como estamos vivendo no país. Que o digam os menos favorecidos e as donas de casa. Se alegam que está havendo retomada do crescimento, esse fato não se pode negar naturalmente, Entretanto, os analistas tendem a ocultar o lado que não lhes interessa revelar, o qual inclui a continuidade de aumento dos preços, dos alimentos, dos remédios, dos planos de saúde, dos aluguéis, dos condomínios, tarifas públicas, entre outros itens que poderia citar.
Só lembro a esses comentadores da economia brasileira que o país não vai bem se apenas crescem suas exportações, ou diminui sua recessão. Um pais pode ser rico - veja os EUA – e, no entanto, ter grandes problemas sociais, pobreza, violência, sistema de saúde pública precário, ensino caro em nível superior. Um país só é feliz se a sua riqueza for melhor distribuída (e não é o caso brasileiro) se a educação, saúde, transportes, segurança forem aprimoradas, se seu povo for civilizado, sem preconceitos de qualquer natureza, unido, solidário e, last but not the least, se seus governantes forem probos e benquistos pela sociedade.
Aproveito este espaço para desejar, do fundo da minh’alma, um Natal humanizado, com paz, saúde, alegria e bem-estar geral. Feliz Natal em 2017, leitor.⁢

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

17.01.2019 - GUERRAS INÚTEIS

06.01.2019 - Nathan Sousa: um poeta em ascensão

26.12.2018 - A AGENDA MÁGICA

16.12.2018 - CRIMES NA CATEDRAL: MIMETISMO IANQUE?

04.12.2018 - O AUTOR E AS GRALHAS

18.11.2018 - No Facebook: entre o comentário e o artigo

13.11.2018 - Comentário e reflexão sobre esquerdismo e direitismo no Brasil e no Mundo

10.11.2018 - Sobre a deplorável condição do professor do ensino fundamental e médio público

08.11.2018 - Pendotiba é uma Pasárgada

02.11.2018 - Sobre a condição de ser crítico no moldes de Agripino Grieco

05.10.2018 - A AMIZADE: BREVÍSSIMA REFLEXÃO

27.09.2018 - COTIDIANO BRASILEIRO ATUAL

25.09.2018 - BERNARDO GUIMARÃES E JOÃO GUIMARÃES ROSA: DOIS CASOS DE METANARRATIVA

13.09.2018 - Reflexão sobre o chamado ensino domiciliar

12.09.2018 - TRISTE CENA BRASILEIRA

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

17.01.2019 - GUERRAS INÚTEIS

rEPUBLICADO

14.01.2019 - TIO GENARO E ANTÔNIO

TIO GENARO E ANTÔNIO

12.01.2019 - Trata-se de casos raros

Por que se diz “Trata-se de casos raros” mas ao mesmo tempo se pluraliza o verbo numa frase semelhante: “Tratam-se casos raros de câncer naquele hospital”?

10.01.2019 - O poeta João Carvalho na ágora do Ágora

Quando fui juiz em Capitão de Campos, já ouvia falar no João Carvalho, que havia sido médico nessa cidade, como um cidadão bem-humorado e cordato. Depois, o conheci pessoalmente e atesto essa opinião.

10.01.2019 - Pronome SE e indeterminação do sujeito

Vejamos os casos em que o verbo acompanhado do pronome se não configura voz passiva e, portanto, não se pluraliza

09.01.2019 - Algumas leituras de 2018 - III

Prosa contemporânea, livros sobre livros

08.01.2019 - Livre-se

Acredito que quase todos os Extraordinários tenham problemas de espaço em casa no que toca à arrumação dos livros

08.01.2019 - NOVO TEXTO DE "A PANTERA"

NOVO TEXTO DE "A PANTERA"

07.01.2019 - Algumas leituras de 2018 - II

Ficção científica, fantasia, autores paraibanos

06.01.2019 - Nathan Sousa: um poeta em ascensão

Não se pode negar

05.01.2019 - Algumas leituras de 2018 - I

Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018

04.01.2019 - Quarta-feira de Cinzas, sermões

O Padre Antônio Vieira é um notável autor binacional, brasileiro e português, vejamos um dos seus livros.

02.01.2019 - AS VOLTAS QUE A VIDA PODE DAR

Mudar é difícil. Aceitar a necessidade da mudança é ainda mais complicado. É sempre menos perturbador permanecer na mesma rotina de todos os dias, sabendo exatamente como agir ou quais decisões tomar.

26.12.2018 - A AGENDA MÁGICA

Era uma agenda

25.12.2018 - Auto de Natal em Copacabana

Auto de Natal em Copacabana

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br