Dilson Lages Monteiro Sábado, 20 de outubro de 2018
Letra viva
Cunha e Silva Filho
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UM BRASIL E UM NATAL DE 2017 PARA CADA UM


                                                                                                         

                                                                                                          Cunha e Silva Filho

 

 

 

         Assim como, leitor, já se afirmou uma vez que não há Brasil mas brasis (essa foi a impressão que meu pai teve quando foi, em 1968, participar de um Congresso de Jornalista em Porto Alegre, viagem que lhe rendeu um artigo “Dois” Brasis”) tomando como comparação a divisão entre Sul e Norte, podemos dizer que o Natal se divide em natais. O que quero significar com esta divisão? Simplesmente que o nosso país, continental como é, oferece de tudo, todavia de forma errada e caótica: minoria extremamente rica e detentora da riqueza financeira e outra parte subdividida (“dividir para reinar”) em classes médias difusas. pobreza e miseráveis, tão miseráveis que nem tantos anos de Bolsa Família conseguiram resgatá-los dessa desumana posição. Em país socialmente injusto tal qual o nosso, é de se esperar tamanha diversidade negativa de bem-estar de sua população espalhada em seu território.
         Daí o sentido principal deste artigo: o Natal múltiplo, cujos extremos mostram a riqueza dos poderosos cada vez mais concentradores e gananciosos a todo custo do bolo econômico e o Natal dos despossuídos, da fome, da ausência total em todos os setores da atividade humana: moradia, saúde, salário, alimento, direitos sociais, lazer, em suma, um quadro de tragédia humana coexistindo no mesmo espaço geográfico da Federação. Realmente, não dá pra elogiar os tempos de Natal, sobretudo dos últimos anos e, em especial, dos – vamos usar um termo em moda para referir-se ao tal governo Temer - “desmandos” do PMDB provocados e projetados ao futuro por essa sigla que causa calafrios nos brasileiros conscientes da situação política de agora.
        Como daria certo um partido, no início da ditadura, foi criado para servir de oposição seletiva ao regime de arbítrio? Como se confiar numa partido que se compõe de um quadro ministerial tão insignificante em competência e em valores humanos e intelectuais ( com exceção do ministro da Fazenda)? Como se confiar nas intenções, promessas e ações num governo federal em que alguns membros do poder estão sendo investigados pela Lava-Jato?
         Se o que o atual governo federal alega que encontraram o país arruinado nas finanças e em outros setores e, para solucionar tão gravíssimos problemas, vai cobrar do bolso já por si esvaziado do brasileiro os milhões e milhões de falcatruas e roubalheiras dos assaltos ao Erário Público, não seria tal atitude injusta e perversa? Que culpa tem o brasileiro de que governantes mancomunados com o alto empresariado tenha realizado a maior esbórnia de desvios do dinheiro do Estado brasileiro? E mais: por que penalizar o nosso povo, os funcionários públicos com essa história não bem contada de reformas trabalhistas e sobretudo de reforma previdenciária, invocando o instrumento isonomia de teto de aposentados privados e públicos quando se sabe que isso é um projeto descaradamente injusto?
        Acreditaria nessa paridade de teto máximo igual para todos se a aplicação dela incluísse tanto os , digamos, senadores, deputados, juízes, desembargadores, presidente da República, enfim, todos os que, hoje em dia, usufruem dos supersalários, acúmulo de três ou quatro aposentadorias e outras vantagens que são, em muitos casos, muito maiores do que os já altos salários que percebe essa elite dos Três Poderes. Se não fizerem isso, uma reforma previdenciária como a que foi adiada para fevereiro seria um monstro de injustiça e ilegalidade no tratamento das aposentadorias.
        Obviamente, não quero tampouco ser contrário a uma melhoria dos aposentadores da Previdência Social que, por longos anos, têm sido injusta com os trabalhadores da iniciativa privada. No entanto, ao dar paridade de salários de aposentadoria aos funcionários públicos que têm, na maioria de seus quadros, pessoas de alta competência e dedicação às suas funções, sejam equiparados indiscriminadamente com outros funcionários do setor privado.
        Por outro lado, se houvesse mesmo isonomia para todos, do alto da pirâmide à base da pirâmide, eu poderia acreditar em justiça social no país. Esses argumentos em defesa da isonomia são tão insustentáveis até para um leigo que mais me parecem estar o governo elaborando num mundo surrealista, sob o comando de um presidente que, sem ter sido eleito, deu na veneta de resolver os magnos problemas do Brasil à custa dos enormes sacrifícios da sociedade.
       Se com esse tipo de reforma previdenciária os donos do poder de plantão estão pensando em artifícios e estratégias a fim de angariar vitória nas eleições do PMDB e seus asseclas e aliados em 2018, o que pretendem não vingará mesmo, uma vez que o povo não está mais assim tão imbecil politicamente e não dará respaldo a um partido que se caracterizou por escândalos e desgovernos ao longa da história política brasileira.
        Há algo que sempre me intrigou no cenário nacional: os analistas econômicos, com a frieza que lhes é peculiar, de braços dados com a mídia em geral tendenciosa à direita, se comportam como uma imenso séquito neoliberal de cooptação da vida econômica e não veem que, no miúdo, o quadro não é tão panglossiano assim como estamos vivendo no país. Que o digam os menos favorecidos e as donas de casa. Se alegam que está havendo retomada do crescimento, esse fato não se pode negar naturalmente, Entretanto, os analistas tendem a ocultar o lado que não lhes interessa revelar, o qual inclui a continuidade de aumento dos preços, dos alimentos, dos remédios, dos planos de saúde, dos aluguéis, dos condomínios, tarifas públicas, entre outros itens que poderia citar.
Só lembro a esses comentadores da economia brasileira que o país não vai bem se apenas crescem suas exportações, ou diminui sua recessão. Um pais pode ser rico - veja os EUA – e, no entanto, ter grandes problemas sociais, pobreza, violência, sistema de saúde pública precário, ensino caro em nível superior. Um país só é feliz se a sua riqueza for melhor distribuída (e não é o caso brasileiro) se a educação, saúde, transportes, segurança forem aprimoradas, se seu povo for civilizado, sem preconceitos de qualquer natureza, unido, solidário e, last but not the least, se seus governantes forem probos e benquistos pela sociedade.
Aproveito este espaço para desejar, do fundo da minh’alma, um Natal humanizado, com paz, saúde, alegria e bem-estar geral. Feliz Natal em 2017, leitor.⁢

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