Dilson Lages Monteiro Domingo, 21 de outubro de 2018
Letra viva
Cunha e Silva Filho
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POR QUE TANTA PRESSA?


                                                                                            Cunha e Silva Filho


           Estamos em pleno domínio do mundo entrelaçado com a rapidez instantânea dos fatos e notícias – uma inflação de notícias verdadeiras ou fake (para dar um tom de uso corrente do termo no mundo atual) a que com muito custo tentamos digerir ou digerir mal porque a tônica da pós-modernidade em que estamos engolfados é a pressa e seu complemento, a realização hic et nunc. Os dias, os segundos, os minutos, as horas, as semanas, os meses e os anos passam numa vertiginosa rapidez que nos provocam perplexidade. Por que tanta pressa? “Festina lenta,” diz uma máxima latina. Não vamos morrer amanhã literalmente.
          Então, por que tanta afobação, “passageiro da agonia” dos tempos que correm? Que mal existe em, pelo telefone, ou, o que é mais usado, pelo celular, comunicar-nos uma informação a um receptor distante ou dele recebermos uma instrução apressada que mal dá tempo de captar algumas palavras? Repetindo, direi mais: o mundo não vai acabar amanhã. Você não vai receber um prêmio milionário de um bilhete de loteria. Pra que a pressa? Devagar, que chegaremos lá.
       O jovem de hoje quer por força estabelecer-se mal saído da puberdade. É preciso ter tudo: muito dinheiro, casa própria, um carrão, uma mulher bonita uma vida de luxo. Calma, companheiro de viagem. A vida não é isso o que pensa a sua pressa. Há protocolos a cumprir, tempo de preparação e tempo de amadurecimento e de realizações benéficas.
        Se pensar profundamente no título daquele grande romance de Ernest Hemingway (1899-1961)– The sun also rises (1926) - , você verá que a coisa não é tão fácil assim. Dê tempo ao tempo, pois, se for crente em Deus, verá que ao céu não chegaremos com tanta pressa e avidez de tudo conquistar tão cedo assim não é o melhor conselho que se pode dar mocidade. Relaxe, relaxe, relaxe. Você tem a vida pela frente. Os franceses dizem: “Il y a temps pour tout, pour le travail, pour le plaisir.” Nem só de pão vive o homem.
Tempos modernos, pós-modernos, terceiro milênio – tudo converge para a ideia e o  fetichismo  da pressa, do chegar logo, de ser o primeiro, o mais belo, o mais inteligente, o mais sábio.

      Ora, pensando bem, o último adjetivo demanda tempo, maturidade, estudos, dedicação e um espírito aberto, livre e sem as amarras e os modismos que cercam a juventude apressadinha e afoita nos seus projetos,, nas suas conquistas pessoais e profissionais. Calma, que Inês é morta. Tudo tem seu tempo e hora. Só a eternidade não tem pressa. O mundo não se fez num só dia mas em seis segundo as Escrituras. Terá Deus cometido um grande engano de cálculo? Quem sabe...Talvez Deus devesse tê-lo feito em mais tempo. A pressa é inimiga da perfeição e não há ser tão cheio de defeitos como o homem. E essa má qualidade é responsável por tantos desencontros e incompreensões entre as pessoas sem distinção de credos, raça e línguas. Por isso, foram providenciais para a melhoria do ser humano, desde o nascimento, a criação e desenvolvimento da cultura, do saber, das instituições sociais e políticas quando bem conduzidas por homens probos.
     Por que tamanha pressa, projetos a serem feitos do dia para a noite, se os podemos realizar com mais calma, com mais precisão e solidez?
     Não, seguramente, a pressa, sobretudo, nos moços, não é uma virtude mas uma defeito e esse defeito pode leva-lo à decisões erradas de que, mais tarde, se arrependerá de tê-las tomado.
     Somos seres incompletos, somos uma obra in progress. A certa altura da vida, isso é bem perceptível de compreender, mas, então, não há mais tempo para um regresso às origens de nosso aprendizado na vida.  Reverter o percurso existencial é-nos impossível. A vida anda para a frente no tempo e no espaço.         Essa incompletude é uma fato inconteste. Daí que a plenitude da vida não passa de uma vã ilusão, de um ledo engano, de um passo errado ou de uma escolha que nos levará àqueles dois caminhos propostos no poema de Robert Frost (1874-1963), “The road not taken”(1916).
    Julgo que é nesta fase de opções de dois caminhos que reside uma grande parcela dos acontecimentos de nossa existência, assim como a dura realidade que se põe diante de nós: o que conseguimos conquistar, uns com mais facilidade e menos tempo, outros com mais sacrifícios e mais tempo, ou, como diria o meu pai, com “sangue, suor e lágrimas”. É neste ponto que uma via de possibilidade se nos abre pela frente: o mundo além da vida, a dimensão transcendental, a espiritualidade, a vida eterna sob as bênção de Deus ou sob as malhas tenebrosas do Inferno, este sem nenhuma possibilidade de remissão porquanto virou vazio e nada. Aos eleitos a promessa de uma nova vida no caso de serem cristãos ou espiritualistas. Aos espíritas, a reencarnação, abrindo também uma possibilidade de aperfeiçoamento pessoal em outras dimensões da vida.
   A mocidade não quer pensar nessas coisas invisíveis. Acredita no presente, no viço, na força, na energia física e mental, na alegria de ser jovem e parecer eterno enquanto dura. No entanto, o sentido profundo da incompletude persiste no homem amadurecido e descrente das ilusões passadas. Há uma obra abissal de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima,1893-1983) que discute todas as fases da existência humana: Idade, sexo e tempo – Três aspectos da psicologia humana. (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1938).
    O livro do pensador católico e grande crítico literário, a meu ver, tem ainda muitas lições de vida a oferecer o leitor de hoje. Em alguns aspectos, é claro, envelheceu, uma vez que foi escrita para o momento em que viveu, anos 1930, a sua contemporaneidade. Contudo, como toda grande obra bem pensada, e com os recursos do conhecimento e bibliografia daquela época, o livro tem algo que se projeta além do seu tempo e é justamente na visão avançada do autor, ao refletir sobre as fases da vida humana, que ele mantém certa validade de abordagem dos temas ali ventilados por um grande escritor.
   Não é com tanta pressa dos dias de hoje que os jovens e a mocidade resolverão seus problemas pessoais e suas inquietações de conquistar, açodadamente um lugar ideal que os leve ao que se chama felicidade do mundo material. Para que tanta  pressa, jovem, se sabe que tem todo um caminho a percorrer a seu favor? 

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Comentários (1)

Já num livro publicado em 1912 o belga J.H. Rosny-Ainè queixava-se do frenesim da civilização moderna. O nome do romance é significativo: "A morte da Terra". O que se vê hoje em dia é loucura coletiva, amigo. Abraços.

Miguel Carqueija
postado:
04-12-2017 01:50:12

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