Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Letra viva
Cunha e Silva Filho
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MODERNISMO BRASILEIRO:A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (3)

 


                                                                                         Cunha e Silva Filho


5. MODERNISMO E MODERNIDADE

 

 

        Não só no campo literário como também nos setores institucionais, culturais e econômicos, o país que pretende inserir-se era da modernidade deve levar em conta um saber a ser construído tendo como condição prévia as idéias de diferença, sob pena de se manter unilateralmente uma postura absolutista e autoritária. Esta postura assumida não pode ter por isso um caráter intransitivo.
      O projeto de modernidade brasileiro será eficaz na medida em que se abrir alteridade – a via de acesso à “vida do mundo.” Se, porém, limitar-se às imposições do discurso próprio e não admitir a travessia para o discurso diferente não se constituirá em projeto solidário e democrático[5]
     Todo discurso autoritário esquece e anula qualquer argumento em contrário. Vejam-se, no caso brasileiro, a era do Estado Novo, o longo período da ditadura militar com o apoio de faixas da sociedade civil. O discurso político brasileiro, mesmo nos períodos considerados democráticos, não se fez tendo como princípio diretivo o bem-estar coletivo do país, a massa da população. O desenvolvimento do país, quando houve, foi feito sempre por exclusão. A modernidade que daí surgiu teve sempre um sentido de incompletude. Os grandes projetos de desenvolvimento industrial, tecnológico, as reformas econômicas foram concebidas sem consultar as populações em nossas Casas Legislativas.
         Os dois últimos governos federais que tivemos, o de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, assimilando modelos de economias advindos do neoliberalismo, são dois flagrantes exemplos de como o conceito de democracia se relativizou. O que esses governos nos impuseram, através de medidas provisórias, alterou profundamente a sorte dos brasileiros, sobretudo dos mais desfavorecidos. Tudo isso se fez em nome de uma suposta modernidade de abertura do país à globalização da economia. Ora, alterações bruscas no sistema econômico, se por um lado alavancavam o país a muitas conquistas no campo da economia do mercado, por outro lado essa modernidade deixava lacunas em que certas camadas da população ainda ficaram presas a modos de vida arcaicos e abandonados pelo Estado brasileiro.
        A melhor imagem que teríamos dessa modernidade abrupta e intempestiva é a de um país que se tem construído por saltos e com tamanho açodamento que a realidade brasileira se torna um mosaico de realidades convivendo, até hoje, ao mesmo tempo Primeiro Mundo com Terceiro Mundo, considerando aqui essa divisão meramente de desigualdades e tempos desencontrados ou assimétricos. Basta vermos o que oferece o interior do país não só no Nordeste, mas no Sul e em toda parte, sem se falar das periferias urbanas.
        São populações que – é preciso enfatizar - vivem em tempos diferentes e num país que se arvorou de chegar à modernidade. Aludimos aqui à coexistência de realidades sociais díspares. Por exemplo, convivemos ainda com crônicos problemas : analfabetismo, analfabetismo funcional, ignorância da população sobre benefícios sociais vigentes ou que, no vendaval das reformas, são retirados pelos governos,sem consultar os interessados. E não estamos falando de outros gravíssimos problemas que permanecem nos desafiando: violência, educação pública deficiente, transporte coletivo insuficiente, saneamento básico precaríssimo.[6] Essa situação assincrônica da realidade brasileira corresponde, no plano cultural, à advertência de Eduardo Portella: “Com a chegada da pós-modernidade corremos o risco de sermos uma cultura pós-moderna sem termos sido moderna.”[7]
       Que modernidade é essa que permanece subserviente a interesses de em organismos transnacionais que ditam o que bem entendem sobre a realidade de um país do mudo, gerando mais miséria e um contingente cada vez maior de desempregados? Que democracia é essa que vem a reboque das ditaduras econômicas? É nessa altura de nossa reflexão que percebemos a pertinência da interpelação lúcida do crítico Eduardo Portela:

(...) para que serve a modernidade se não é capaz de reforçar a democracia? Se não conseguir ampliar o campo da justiça social? Não se pode negar que o Brasil vem fazendo algum avanço âmbito da democracia real. Menos satisfatórios ou mesmo insuficientes, se levarmos em conta cada vez mais a velha e cada vez mais concentração de rendas, são os ganhos em termos de equidade social. (...) [8]

     Na esfera literária, os dois conceitos Modernismo e Modernidade para Eduardo Portella merecem ser melhor equacionados e compreendidos. O ensaísta levanta, primeiro, uma questão moderno?” O que sucedeu ao verde-amarelismo não foi senão ter descambado para ideários fascistoides?
No pensamento do ensaísta o que seria mais saudável e proveitoso à nossa herança cultural teria sido não uma cisão, mas um aproveitamento do legado romântico e a apreensão das novas contribuições que vieram somar-se àquelas oriundas do Romantismo, movimento cultural com amplas ressonâncias que vão até às vanguardas.
     A realização plena e compensadora entre polos diferentes só se efetiva na convivência das diferenças, ou, como assinala Portella, no “... chegar de coabitação fácil e frutíferas convivências imprevisíveis e de intercâmbios simbólicos inabituais.” [9]
Portella propõe três tipos de modernidade no quadro da cultura brasileira contemporânea, convivendo sucessivamente ou, segundo ele próprio sugere, simultaneamente: modernidades das nações, dos nacionalismos e das desnacionalizações. O ensaísta ainda fala de uma outra, a que chama de “derradeira modernidade.”
      Antes de se configurar como um povo com contorno nítidos o brasileiro sofre o impacto catastrófico do anonimato e de uma realidade conturbada pela invasão das massas e presa fácil, conforme acentua o ensaísta, de manipulações.
Retomando a advertência feita anteriormente no mesmo ensaio ao afirmar que os podíamos cair no risco de sermos pós-modernos sem sermos modernos, Portella reclama por uma revisão crítica do Modernismo. Todavia, na concretização desse objetivo ele desqualifica a discussão por ele denominada peleja mesquinha entre mundialização dos mercados e mundialização dos valores. Nesse ponto, não vejo como peleja mesquinha uma discussão mais ampla entre duas realidades confrontadas pela Modernidade.
   A globalização afetará, sim, a universalização dos valores. Os males provocados pela economia globalizada neoliberal trazem no seu bojo os sacrifícios populações mais desafortunadas, sobretudo com o desemprego, a instabilidade no trabalho com o temor implantado sub-repticiamente pela engrenagem dos mecanismos psicológicos, a miséria, a fome em gruas progressivos, assim como – e já estamos sentindo isso na pele em nosso país - a redução do papel do Estado como responsável por áreas vitais como saúde, educação, formando um quadro social injusto e comprometendo as condições de vida no planeta.[10]
    Seria muito bom e tranquilo para os destinos da humanidade se a globalização e o universalismo na visão que nos passa Rouanet[11] tivessem na práxis os resultados por ele pretendidos. Não bastam só organismos democraticamente formados para decisões de foro internacional a fim de que soluções sejam encaminhadas convenientemente. O vetor da racionalização, para usarmos o termo desse ensaísta, ipso facto, não vai, posto que de forma duradoura, conviver pacificamente com o vetor da emancipação dos indivíduos.
   A economia - ninguém pode refutar esse fato – pouco está se importando com o comportamento humano, uma vez que o racionalismo nela está assente em fatores tais como lucro, risco e competição, os quais, por só, nada têm a ver com solidariedade e sentimentos piedosos...
Portanto, o pensamento projetivo de Rouanet nos parece mais um objetivo de teor triunfalista e mesmo utópico, ainda quando procura atenuar conceitos como globalização e internacionalismo ao defender aqueles que lhe parecem mais apropriados ao entendimento da modernidade: autonomia e universalismo. (Continua).

NOTAS:


[5] PORTELLA. Eduardo (1984. Op. cit
[6] Este ensaio é uma versão refundida de uma monografia escrita durante o meu Doutorado na UFRJ, em 1998. A perspectiva histórico-ideológica se restringe à realidade do país das décadas de 1980 e 1990. O tema desenvolvido se encontra ainda bem atual. A situação social, com a economia em recessão, foi agravada profundamente. O resultado de governos mal administrados e perdulários, entre outros malefícios que nos afligem, logo se fez evidente na escalada da violência. A nação atravessou e está ainda atravessando uma fase de imoralidade política jamais vista na historia política brasileira diante do pipocar de escândalos de corrupção governamental nos níveis federal, estadual e municipal. Corruptores e corrompidos se deram as mãos no enlace fatídico e cínico entre o público e o privado. A senha entre público e privado passou a ser a propina, o dinheiro em malas, a formação de quadrilhas e a lavagem de dinheiro no setor público aliado a parte do alto empresariado conforme se viu no Escândalo do Mensalão, Operação LavaJato e tantos outros surgidos atualmente no país envolvendo os governos Lula, Dilma, Temer, governadores e políticos no exercício de seus mandatos.
[7] PORTELLA, Eduardo (1984), op.cit., p.6.
[8] PORTELLA, Eduardo (1986), OP. CIT., P. 5-6.
[9] PORTELLA, Eduardo (1997), OP. CIT., P. 7.
[10] BOURDIEU, Pierre. (1999).
[11] ROUANET, Sérgio Paulo 1997). Op. Cit. 

NOTA: POR ENGANO MEU,  A PARTE DA CONCLUSÃO SAIU PUBLICADA ANTES  DA PRESENTE PARTE DO  MEU ENSAIO, QUE É A PARTE 3.

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