Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 14 de agosto de 2018
Letra viva
Cunha e Silva Filho
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MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (2)

 


Cunha e Silva Filho

 


3. AS CONTRADIÇÕES: O NACIONAL E O ESTRANGEIRO.

 

      Nenhum movimento cultural é autônomo nas suas implicações e procedimentos. Portanto, quando reclamamos para o nosso caso uma literatura que reflita o nosso povo e a nossa nação, tal premissa se exime de ser absoluta em si. Não há essa ideia de pureza e de primitivismo quando delimitamos nossa definição de nacional. Exatamente porque no nacional está implícita a tradição literária por via da qual se transmitem as técnicas e formas literárias do exterior.
       É preciso estabelecer com critério o conceito de nacional sem o preconceito xenófobo. Lembre-se aqui a oportuna página de Machado de Assis contida no ensaio “Instinto de nacionalidade: O que de deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.[3]    Sendo o Brasil um país de cultura transplantada e, depois, modificada a custo de variantes mesológicas, étnicas e culturais, a formação de nosso patrimônio literário esteve constantemente recebendo o influxo externo. Por conseguinte, o que aqui se formou foi acompanhado sempre do contributo de fora, primeiro pela influência portuguesa, depois, pela francesa e inglesa, sobretudo desta última ainda vigorante. Nosso primeiros homens ligados à cultura tiveram formação europeia e de lá nos trouxeram as modas literárias e as doutrinas filosóficas correntes.
        Quando pleiteamos uma literatura nacional não estamos somente nos referindo à temática local, mas também a fatores intrínsecos que nos enformaram literariamente, dos quais, entretanto, vamos pouco a pouco nos libertando por força de uma realidade nova.
     A escrita literária não se originou de um grau zero. Ela se insere no circuito de experiências e conquistas da tradição ocidental. Não fosse por isso, não teríamos nunca entre nós a contribuição de técnicas e descobertas no campo da poesia, da ficção e da teoria que já foram trabalhadas lá fora e, por via indireta, dos livros estrangeiros ou nacionais a que os autores locais tiveram acesso.
Recusar simplesmente a contribuição alienígena é praticar um ato de insensatez intelectual, sobretudo agora que temos à nossa volta a pressão do conhecimento globalizado via Internet.
     A grande incongruência que existe entre o nacional e o estrangeiro se coloca quando decorre no âmbito das instituições sociais e políticas, conforme se deu em nosso pais, onde o pensamento liberal de estofo europeu se chocava com o sistema escravocrata do Império ou com outros procedimentos de convivência social avançada apenas para inglês ver. Da mesma sorte, em outros setores da vida social, modas, hábitos, lazer, leituras etc.


4. O POVO COMO OBJETVO DE PESQUISA, MAS NÃO COMO SUJEITO PARTICIPATIVO


      Se o Modernismo brasileiro pretendia aproximar a realidade da literatura, não se compreende como, na primeira fase, a iconoclasta, ele tenha se constituído do ponto de vista de recepção do leitor, em movimento visceralmente elitista, principalmente no tratamento da linguagem poética ou ficcional. Neste sentido, o Modernismo deu as costas para o povo, que não leu e ainda não lê a sua produção. Estamos pensando em obras seminais à compreensão desse movimento, como Pauliceia desvairada (1922), Macunaíma (1928), Pau-Brasil (1929), Memórias sentimentais de Joao Miramar (1924).
      É bem provável que essas obras como outras apenas tenham despertado certa curiosidade no povo, porém não a iniciativa de efetivamente realizarem sua leituras, com exceção, nos parece, dos autores da ficção de 30, donos de uma literatura em geral sem hermetismos formais e, por isso, mais acessíveis à média da população. Haja vista a obra de Jorge Amado (1912-2001).
     Se o movimento procurou a todo custo fazer um balanço das potencialidades do homem brasileiro, no sentido até documental, nada indica que ele tenha se afastado de suas vinculações com a burguesia de então, pelo menos nos seus primeiros momentos. Quem iria dar efetiva contribuição, pelo menos como propósito de transformar o povo em matéria ficcional e, além do mais, como voz narrativa seria um contista, surgido na década de 1960 - João Antônio.[4]
     Na sua ficção deu ele voz a seus personagens, a maioria do submundo do eixo Rio-São Paulo. Porém, tanto os modernistas quanto João Antônio, e bem assim os ficcionistas da geração de 30, que inauguram o ciclo do de romances do Nordeste, iriam se defrontar com um impasse inescapável à condição do intelectual que se vê enredado no dilema de difícil superação: como lidar com uma literatura que fixa e movimenta uma galeria de despossuídos que jamais lerão seus livros e não têm o nível suficiente de escolaridade e de leitura para se verem retratados nessa ficção marginal?
    Na época do surgimento do romance brasileiro, a partir do Romantismo, o público leitor pertencia em geral à classe burguesa. Por outro lado, não se poderia também recriminar um ficcionista à altura dos anos 1960, 1970 e 1980 – caso de João Antônio e de outros autores da sua época - por fazer uma literatura centrada primordialmente nas camadas desfavorecidas da população brasileira, assim como nos temas em torno da vida de malandros (figuras que fizeram do contista um dos seus mais hábeis intérpretes na literatura brasileira moderna), marginais, prostitutas, traficantes, não obstante ser a ficção joãontoniana de alta qualidade literária.
     Assim como não poderíamos reprovar o fato de que ele se beneficiaria comercialmente dessa temática populista, uma vez que a obra ficcional produzida pelo mercado transforma-se em produto de consumo e, por vezes, faz de seu criador, se este provém de classe menos favorecida (exemplo também de João Antônio) um instrumento do jogo capitalista, gerador de lucro. Da parte da função de escritor, a meu juízo, não houve apelação ou expediente espúrio de explorar temas que lhe granjeassem ascensão social ou sucesso econômico.

     O escritor como intelectual é caudatário do sistema que ele próprio repudia. Jorge Amado, por exemplo, foi um escritor que, em determinada fase de sua produção literária, foi duramente criticado por alguns críticos por fazer algumas obras para deleite do turismo e não por sua qualidade literária. Contudo, essa crítica, sob pena de se tornar injusta, não poderia estender seu julgamento à obra geral dele. No exemplo de João Antônio, guardadas as diferenças com Jorge Amado, o nível estético de sua ficção não sofreu nenhuma queda.
    O contista não se sustentou tão-somente com a temática dos despossuídos, já que ainda com boa qualidade literária passou a explorar temas da classe média, da qual era um crítico feroz e demolidor, ainda que, aparentemente uma contradição, a sua nova condição social o colocasse na classe média. Esse, na verdade, é o dilema de qualquer escritor que tenha vindo dos estratos mais modestos da pirâmide social. Não importa, burguês ou não burguês, o escritor será um porta-voz, seja das classes mais altas, seja das médias e das humildes, Uma coisa têm os escritores em comum no seu ofício: sua arma é a linguagem, não a baioneta.(Continua)

 

[3] ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: Obra Completa. p. 804. V. III.

[4] O autor deste ensaio defendeu, em 2002, uma Tese de Doutorado sobre João Antônio abordando primacialmente a figura do malandro no contista paulista. Título da Tese: O conto de João Antônio: na raia da malandragem. Faculdade de Letras, Rio de Janeiro: UFRJ, 2002, 349 p. Tese de Doutorado em Literatura Brasileira. 

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