Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 14 de agosto de 2018
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Cunha e Silva Filho
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MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU

 MODERNISMO BRASILEIRO: A FALTA QUE LHE FALTOU

 


                                                                                                      Cunha e Silva Filho

 

 

[...] O tempo é a época mais o horizonte diacrônico, o que significa dizer – é a época mais as épocas. O isolacionismo espiritual do corte sincrônico, imobiliza, por amnésia e pela incapacidade de pre-ver. De enxergar que cada época carrega consigo outras épocas passadas e futuras.

Eduardo Portella, Confluências – manifestações da consciência comunicativa, p. 26.

 

I. INTRODUÇÃO


Desenvolvemos neste breve ensaio alguns tópicos subordinados aos conceitos de Modernismo e Modernidade no Brasil. Na primeira parte, procuramos discutir, ainda que de forma sintética, o movimento modernista brasileiro de 1922, realçando-lhe a importância como marco fundador de uma nova era para o Brasil literário, cultural e artístico.
Na segunda parte, discutimos os polos nacional e estrangeiro na questão da nossa identidade literária. Na terceira parte, levantamos um dado de pesquisa que nos parece ainda não pesquisado em profundidade, que é o distanciamento do povo brasileiro como agente participativo do processo de transformação cultural e artístico desencadeado pelo Modernismo de 1922.
Na última parte, de forma mais desenvolvida, estudamos as implicações embutidas nos conceitos de Modernismo e Modernidade em nosso país. Esta seção do estudo visa a desenvolver algumas reflexões sobre os termos modernismo e modernidade partindo da leitura de quatro ensaios de Eduardo Portella ( 1932-2017) [1] e de um ensaio de Paulo Sérgio Rouanet.[2]

 

2. VALOR DA RUPTURA

 

        O projeto de uma literatura modernista para o Brasil não nasceu da noite para o dia. Seus vestígios remontam, sobretudo, à eclosão do Romantismo com a ideia de se inaugurar também uma literatura que refletisse a realidade social, política e cultural, a exemplo do que ocorreu com a independência política.
A ideias de separação do legado brasileiro português teve então até o reforço original de José de Alencar (1829-1877) com a sua tentativa de criar uma língua brasileira que traduzisse o nosso modo de produção estética, sem as interferências ultramarinas engessadas nos lusitanismos lexicais, semânticos e simpáticos, gesto que seria repetido, no século seguinte, em pleno alvorecer do Modernismo, por Mário de Andrade (1893-1945)), só que dessa vez de forma radicalizada e que teve tantas repercussões para a delicada questão da linguagem literária no movimento modernista. E em todas as suas fases ou desdobramentos.
       O grande saldo positivo do movimento modernista brasileiro foi o de atualizar os aspectos formais e temáticos da nova literatura om a realidade de um país que não podia permanecer imobilizado em práticas culturais e artística passadista. Ou seja, como produzir literatura cm a camisa de força de uma retórica artificialmente objetiva ou subjetiva (estilo parnasiano, simbolista, fora os epigonismos românticos ou até de períodos anteriores) num país que já passava por transformações econômicas, políticas e sociais que não mais admitiam a absolutização de verdades prontas e acabadas?
       Como manter-se uma ficção com bases ainda naturalistas quando o século XX já nos apontava para o freudismo, o bergsonimo, o marxismo e com o surgimento de profundas alterações no universo das artes e das diversas manifestação de vanguarda com tantas consequências salutares à renovação da cultura contemporânea? Era possível a essa altura do século XX continuar-se indefinidamente num mimetismo cultural só tendo vista para o passado e neste, infelizmente só vendo os aspectos imobilizados e não as suas conquistas inovadoras? Porque, no fundo, todo movimento literário e artístico avança um passo ao futuro, já que os movimentos não são estanques, mas se influenciam mutuamente no seu dinamismo renovador a fim de desbravar novas formas estéticas.
        Mas, o sentido da ruptura entre passado e presente, cujo marco simbólico foi a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, foi principalmente uma vontade de não mais parecer com o que se fazia literariamente em Portugal e em nosso país até então, tendo à frente a questão da linguagem, dos temas e das convenções dos gêneros literários.
        Os exemplos mais significativos dessas transformações e práticas literárias podem-se ver nas obras de Mário de Andrade e Oswald de Andrade (1890-1954). Isso quanto aos aspectos formais e revolucionários na produção poética e ficcional. Na temática o exemplo mais surpreendente em termos de tratamento seria a larga produção ficcional do romance de 30, inclusive pelo seu aspecto de recepção por parte dos leitores.
        Veremos, no capítulo seguinte, como podemos resolver as contradições trazidas pelos princípios da estética modernista brasileira tendo em vista os dois polos de interferência cultural: o nacional e o estrangeiro. (Continua).

(1) Trata-se dos ensaios seguintes: As modernidades. Revista Tempo Brasileiro, 84: 5/9. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1986; Premissas e promessas da modernidade. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:5/10. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997; Qual modernidade? Revista Tempo Brasileiro, 111: 109/112. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992; Sentido(s) da modernidade, Revista Tempo Brasileiro, 76: Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
(2) Perspectivas da cultura brasileira no início do século XXI. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:83/103. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
 

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