Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Janela para a crônica
Antônio Francisco Sousa
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A INCRIVEL CLARIVIDÊNCIA DE PELÉ

Desde antes de mil, novecentos e cinquenta e oito, quando, aos dezessete anos, assombrou o mundo com suas jogadas sobrenaturais na Suécia, muitas outras coisas a quem, no futuro, viria a ser o maior jogador de futebol de todos os tempos, se lhe pareceram normais, como a clarividência; uma de suas variantes o induzia a antecipar-se ao pensamento dos marcadores e à decisão dos goleiros, aos quais vazaria mais de mil e duzentas vezes. Tal atributo ou característica seguiu despercebida dele e de muitos mais por quase toda sua vida profissional; talvez porque o que se constituía em tarefa, senão das mais difíceis para alguns poucos mortais, menos fácil para tantos que procuram seguir sua atividade, para ele era normal. Até que um dia ela, a clarividência - na forma de premonição do que não iria acontecer no futuro próximo - levou o maior atleta do futebol mundial a pensar alto, e ele não conseguiu calar-se: bradou diante de todos os microfones que se lhe abriram na ocasião que o brasileiro não sabia votar. Como acontece aos eventos misteriosos, ou não facilmente explicáveis à luz da mais rasteira hermenêutica, desentenderam-no uns, questionaram-no outros, aclamaram-no muitos; o que se perceberia depois daquela sentença do rei do futebol, foi que ele se mostrara muito mais racional do que se supunha. Ainda não aprendemos a votar eficientemente. Os que o contestaram naquele momento e seguidores das ideias daqueles, insistem em continuar negando o plausibilíssimo presságio. Sem justificativa convincente, querem que aceitemos como fato causador das escolhas políticas erradas que vimos fazendo desde sempre, a falta de boas biografias. Em vez de causa, isso poderia ser consequência: como não escolhemos os melhores, mesmo existindo exemplares deles, explicitamente, damos aos piores, aos que, inteligentemente, aproveitam-se de nossa preguiça mental, de nosso frágil poder de discernimento, o direito de ocuparem espaço nos palácios governamentais e parlamentares, sem que nossas tardias manifestações críticas os aflijam ou amedrontem; afinal, sabem que, quem os elege tem interesses que se esvaem, desvanecem, evaporam-se logo após os processos eleitorais, e memória que não perdura nem até os próximos pleitos. E novamente a incrível clarividência de Pelé fez-se presente: quando, ainda jogando futebol em alto nível, resolveu parar suas atividades, como até então as exercera. Decidiu, talvez ouvindo um sopro sobrenatural, aceitar convite para ensinar parte do que sabia a quem se mostrava disposto a recompensá-lo regiamente: os ianques, norte-americanos. O que aconteceu a partir de essa decisão o mundo inteiro acompanhou: enfim, ganhou muito dinheiro, aumentou o interesse dos americanos pelo futebol que praticava, brasileiro, genuíno. Tornou-se a figura mais conhecida do globo terrestre, por algum tempo, mais que os Beatles ou Jesus Cristo. Parou na hora certa, tanto que continua respeitado e requisitado a participar de eventos em que organizadores e/ou convidados exigem a presença de sua figura emblemática, carismática, forte, vencedora, quase lendária. Exemplos de atletas de outros esportes, profissionais de áreas diversas que não souberam parar no que parecia o momento oportuno, temos aos montes; talvez lhes haja faltado a clarividente premonição de Pelé. Para ficar em um nome só, atual, de quem, aparentemente, perdeu o bonde da história, eis que já se transformava em lenda viva, quase um semideus, mas que, tudo indica, equivocou-se em relação ao melhor momento de pôr um ponto final, esportiva e, profissionalmente, na atividade que soberbamente exercera até pouquíssimo tempo atrás, escolheríamos Usain Bolt, o mais rápido ser humano, até hoje, nos cem metros rasos. Evidentemente, ele e todos que o acompanham é que sabem ou poderiam explicar por que não encerrou suas atividades no auge, logo após haver arrebanhado todas as medalhas mundiais e olímpicas conquistadas em dois mil e dezesseis, deixando para fazê-lo meses depois, sem o mesmo brilho e glamour dos últimos anos; certamente, os motivos que o induziram a continuar concorrendo ativamente, não teriam sido econômicos. Quanto a nós, preferiríamos ter visto o rei das pistas seguindo o ensinamento do rei dos gramados, evitado traumas e dissabores desnecessários e se mantido como ser humano invencível. Muitos nascem com a cor de Pelé, poucos com sua capacidade técnica, raros com sua incrível clarividência. Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com

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