Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Filosofia no cotidano
Paulo Ghiraldelli Jr
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Nossa democracia pode morrer?

Nossa democracia pode morrer?

 Nossa democracia pode morrer? Pode! Mas sua morte, se ocorrer, tem menos chance de vir por golpe, como em 1964 ou em 1937, do que vir por movimentos contínuos de perdas de direitos individuais.

 
A democracia grega era o governo do povo. A reunião dos representantes dos demos  para deliberar sobre questões de toda a polis criou a democracia, o governo dos demos ou do povo. Nessa democracia, a ideia de liberdade era a ideia da liberdade da polis de fazer valer tais decisões, sem que outra polis interferisse. Ora, não é assim que vemos a democracia de hoje. A democracia de hoje está associada a uma doutrina que o grego não conheceu, a doutrina liberal, ou seja, a doutrina da criação e preservação de direitos individuais.
 
O liberalismo esteve presente na Revolução Gloriosa, na Revolução Americana e na Revolução Francesa. Ajudou na luta contra o Antigo Regime e deu substância à democracia moderna. Associamos o liberalismo ao livre comércio e à doutrina do individualismo gerada no contexto do Iluminismo. Em geral, empurramos a Igreja para fora desses novos tempos, por conta de sua associação com o mundo feudal e com o Antigo Regime, mas, se olhamos com cuidado para o cristianismo, veremos – principalmente se recorrermos às visões se Hegel e Nietzsche – que este foi o grande alimento do liberalismo.
 
O cristianismo trouxe uma religião de ligação de Deus com o indivíduo. Uma ligação de um Deus-Pai com cada Filho, por uma relação “interior”. Gerou a figura do indivíduo com “exterior” e “interior”. Forjou a ideia de vida privada, do burguês moderno. Mas, lá na base, já se pronunciava como uma doutrina da democracia moderna, como um liberalismo avant la lettre, com a Parábola do Bom Samaritano. O samaritano era um indivíduo bom, no interior de uma comunidade que via os samaritanos como todos maus. E foi ele quem acolheu o homem caído e ferido. Ele, vindo de um grupo desprezado, é que cumpriu a lei da misericórdia. Nessa parábola estão postas as ideias básicas a respeito da consideração do indivíduo e das minorias, que se tornaram a base para o liberalismo desenvolvido, que veio a dar nova substância para democracia.
 
Se os Direitos Humanos foram criados após a II Guerra Mundial como doutrina a ser seguida pelos diversos países, segundo a formulação da ONU, isso ocorreu exatamente pela presença do cristianismo no interior do liberalismo, e do seu sucesso na formulação de Constituições variadas no Pós Guerra.
 
Quando a democracia começa a morrer? Não quando deixamos de votar somente, mas, principalmente, quando a Parábola do Bom Samaritano não conta mais nem entre os que se dizem cristãos, e quando o Estado já não tem defensores aguerridos dos Direitos Humanos. É quando aparecem os fascistas que dizem que “Direitos Humanos são para Humanos Direitos”, e não para todos.
 
Paulo Ghiraldelli Jr. 61, filósofo.

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