Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Eclética
Elmar Carvalho
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Jaime da Paz, um varão de Plutarco

 

JAIME DA PAZ, UM VARÃO DE PLUTARCO

Elmar Carvalho

Nasceu no lugar São Domingos, zona rural de Campo Maior, em 22 de abril de 1922. De uma prole de onze irmãos, da qual era o antepenúltimo. Filho de José Gregório da Paz e Francisca de Sousa Frota. Aos seis anos de idade já era órfão de pai e mãe, quando passou a morar com seus pais adotivos: José de Deus e Silva (Cazeba) e Cândida Paz (Sicândida), sua tia.

Concluiu o primário no Grupo Escolar Valdivino Tito. Teve como primeira professora Mulata Lima que (juntamente com as suas irmãs) relevantes serviços prestou à Educação em Campo, sobretudo como professora do Ginásio Santo Antônio e de seu estabelecimento particular, denominado Escola Maria Auxiliadora, que funcionava em seu casarão residencial.

Aos dezoito anos, foi morar em Fortaleza, onde estudou e trabalhou. Na capital alencarina chegou a fazer o primeiro ano de contabilidade. Em 1942, com a 2ª Guerra Mundial no auge, foi convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira, quando teve a oportunidade, como Sargento, de fazer um curso na Escola Técnica de Aviação, em São Paulo.

Ao terminar esse curso, foi servir como técnico na 2ª Companhia Especial de Manutenção, no Rio de Janeiro. Nessa capital terminou o curso de Contador, pela Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. Licenciou-se, a pedido, das fileiras do Exército no posto de 2º Tenente. Em 1948 regressou a Campo Maior, onde passou a lecionar Contabilidade no Ginásio Santo Antônio, do qual foi um dos fundadores o pároco Mateus Cortez Rufino, um dos notáveis beneméritos de Campo Maior.

Em sua terra natal, fundou um comércio de miudezas, tecidos e compra de gêneros de exportação, inicialmente estabelecido na casa de seus pais adotivos. Essa firma veio a prosperar e se tornou uma das mais importantes de Campo Maior, inclusive com a sua instalação em digno e assobradado prédio próprio, situado perto do Grupo Escolar Valdivino Tito, no centro comercial da velha urbe.

Talvez a sua precoce orfandade e a necessidade de começar a trabalhar ainda bem jovem, bem como o seu posterior ingresso no Exército, em que a hierarquia e o respeito à ordem são preponderantes, tenham contribuído para moldar o seu caráter e a sua personalidade. Foi um homem votado ao dever e ao cumprimento de suas obrigações funcionais e compromissos. Certamente a sua experiência militar e a da criação e administração de sua firma comercial contribuíram para que ele viesse a ser um eficaz gestor de seu município natal.

Apesar de seu semblante quase sempre sério (mas não carrancudo), era um cidadão afável, cordato, um perfeito cavalheiro no trato com todas as pessoas, sempre respeitoso e educado. Pelos depoimentos que ouvi ao longo de minha vida, gostava de cumprir o que prometia. Por isso mesmo, não obstante haver sido político, primava em cumprir as suas promessas, e por esse motivo não as fazia de forma leviana, nem eleitoreira. Com efeito, prometia apenas o que tinha a intenção de cumprir e realizar, tanto em sua vida particular, como nos cargos e encargos que exerceu, tais como venerável de sua loja maçônica e dirigente do Rotary.

Campo Maior, no período que vai de 1967 a 1977, teve uma sequência de três paradigmáticos prefeitos: Raimundo Nonato Andrade (Professor Raimundinho Andrade), Jaime da Paz e Dácio Bona. O primeiro, hoje, dá seu nome ao Colégio Estadual, em que fiz o terceiro e quarto ano do antigo curso ginasial; o terceiro foi meu professor de Ciências no primeiro ano desse curso e o segundo (Jaime), juntamente com sua esposa, a professora Mariema, participou de alguns eventos culturais de que fiz parte, quando tive o ensejo de lhe reconhecer a profícua administração de nosso município. Dele e de sua consorte recebi o incentivo e o aplauso sincero e entusiasmado em minha vocação literária. Meu pai, quando a ocasião era propícia, não se cansava de exaltar essas três emblemáticas gestões municipais.

Eu e minha família morávamos ainda em Campo Maior quando o Tenente Jaime assumiu a sua administração. Numa época de poucos recursos financeiros, em que escassas verbas eram repassadas pelo Estado do Piauí e pela União, em seu curto governo de apenas dois anos (1971 a 1973), realizou uma administração exemplar, diria mesmo excelente.

Tendo eu, ainda em plena adolescência, acompanhado o seu governo, e sendo, portanto, testemunha ocular de muitas de suas obras na cidade, tenho dado o meu testemunho de sua probidade e eficiência administrativa. Aliás, o dever da eficiência, embora pouco observado pelos gestores atuais, é previsto em nossa Carta Magna.

Segundo informação da professora da Universidade Federal do Piauí, Sílvia Melo, autora do importante livro “Educação e Educadores de Campo Maior”, “a zona rural foi muito beneficiada [na gestão de Jaime da Paz], destacando-se a implantação de 17 (dezessete) Escolas Rurais e diversos Postos do Movimento Brasileiro de Alfabetização de Adultos - MOBRAL que teve grande importância para reverter o elevado índice existente de adultos analfabetos”. Sem dúvida isso se deveu a seu senso de justiça e sensibilidade, e ao conhecimento que tinha do estado de quase abandono em que viviam os rurícolas na época.

Reginaldo Gonçalves de Lima, de saudosa memória, nascido em Jaboatão dos Guararapes (PE), mas campomaiorense como os que mais o sejam, inclusive por título de cidadania, pelos relevantes serviços que prestou ao nosso município, em suas funções públicas, mas sobretudo no resgate de sua rica história cultural e administrativa, no seu notável livro “Geração Campo Maior – anotações para uma enciclopédia”, que tive a honra e a satisfação de apresentar, disse sobre o governo de Jaime da Paz:

Destaques em sua administração:

Construção do mercado público, inaugurado em 07-09-1972, localizado na Av. Demerval Lobão, e o início da construção do Terminal Rodoviário Zezé Paz. Concluiu e inaugurou o cemitério do bairro São João. Construiu o edifício comercial Prof. Raimundinho Andrade, na Av. Demerval Lobão e casas populares (...).   

Tendo se convertido à religião de sua esposa, a professora Mariema (da estirpe Nogueira Paranaguá, irmã de dona Magnólia, falecida esposa do professor R. N. Monteiro de Santana, que também foi prefeito de Campo Maior), passou a frequentar os cultos da Igreja Batista de Campo Maior. Os dois conseguiram formar uma bela família, em que predomina o amor a Deus, a Jesus Cristo e ao nosso semelhante. Sem demagogia e muito menos hipocrisia de falsa caridade (até porque só exerceu o cargo de prefeito em apenas um mandato), mas por sincero amor fraterno, nas comemorações de seu aniversário, convidava pessoas humildes, que, além das iguarias degustadas, recebiam presentes.

Das pessoas proeminentes de Campo Maior, foi um dos primeiros a morar na orla do belo e pequeno Açude Grande, no qual se reflete, quando as águas estão serenas, a silhueta de nossa Serra Azul, também chamada Serra Grande ou Serra de Santo Antônio, sobre o qual tive a oportunidade de dizer:

Açude Grande

apenas no nome, mas pequeno

na paisagem ampla dos descampados.

Tuas águas cinzentas

azularam-se em minha saudade.

Tuas águas barrentas

são tingidas de azul pelo

azul do céu que se espelha

em tuas águas de chumbo.

Como eu dizia, o Tenente Jaime da Paz, há muitos anos, construiu uma bela vivenda, à margem do açude, com largos alpendres e vasto quintal, no qual plantou inúmeros coqueiros e outras fruteiras. Em sua entrada foi afixada a data 11 de julho, que lhe serve de nome. Foi nesse dia, no ano de 1954, que o tenente Jaime e a professora Mariema se conheceram. Essa data é como se fosse um símbolo ou emblema desse amor perene. Entre o muro da vivenda e o açude, no qual banhei muitas vezes, quando ele não era poluído, existia um belo campinho de futebol, de fina e branca areia, quase uma praia, no qual joguei em minha adolescência, como ressalto neste trecho de meu livro “O Pé e a Bola”:

Havia uma praia, no início da década de 1970, de brancas e finas areias, à margem do pequenino Açude Grande, em que tomávamos deliciosos banhos, pois este ainda não fora profanado pela poluição, nas proximidades da casa do tenente Jaime, cujo quintal era cheio de graciosos, elegantes e ondulantes coqueiros, cujo conjunto me dá hoje a impressão de uma pequena nesga de paisagem arrancada do Caribe.

(...)

Nesse tempo o açude possuía, nas imediações da casa do tenente Jaime da Paz, em cujo quintal se erguiam e oscilavam e dançavam verdejantes coqueiros, que mais evocavam uma paisagem marinha, uma bela praia, de areias brancas, finíssimas, onde, na posição de goleiro, fiz ótimas e acrobáticas defesas, a planar, quase levitando, em verdadeiros saltos ornamentais.

Após a construção da avenida de contorno do açude, esse campinho-praia desapareceu, ficando em minha memória, para sempre, a lembrança desse tempo ditoso. Na proximidade da vivenda, como um pontual alargamento do logradouro, o tenente construiu um pequeno recanto florido e ajardinado, bem perto das águas plúmbeas, de onde certamente vislumbrava a beleza da laguna, o voo majestoso e esbranquiçado das garças, as aves aquáticas e a graciosidade distante da serra encantada.

Nesses momentos contemplativos, sem dúvida ele pensava em sua vida bem construída, sem vaidades e sem ostentações, de suas lutas em prol do bem comum e do próximo, sobretudo dos mais humildes. E viu que tudo valeu pena, até porque, parafraseando Fernando Pessoa, a sua alma não era pequena. Teve a alegria de ter todos os seus seis filhos, três homens e três mulheres, formados em curso superior. Fiz amizade com o Gregório, um dos diretores da CEPISA, hoje Eletrobras/Piauí, e o Jaime Filho, engenheiro da Comdepi. Vários de seus netos também são graduados, a maioria em medicina. Portanto, foi um vencedor, no bom e legítimo sentido da palavra.

Se a nossa Campo Maior tivesse o seu Plutarco, certamente no panteão de suas ilustres “Vidas Paralelas”, Jaime da Paz seria um dos mais eminentes varões plutarquianos.

 

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