Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Eclética
Elmar Carvalho
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A saga de uma longa caminhada

A saga de uma longa caminhada

Elmar Carvalho

Na última reunião da Academia Piauiense de Letras, o confrade Celso Barros Coelho repetiu o que já me havia dito sobre o meu romance Histórias de Évora: a importância de um bom título. Com efeito, a escolha de um título feliz pode despertar a curiosidade do leitor em potencial e, assim, atraí-lo para a leitura do texto. Mas, no presente caso, o título não foi apenas um recurso ou armadilha para prender a atenção de meu possível leitor, porém uma concretíssima realidade fática, se não estou a laborar em alguma redundância, já que exagero não seria.

De fato o autor de Três séculos de caminhada, Vicente Miranda, cometeu quase verdadeiras estripulias e pulutricas, dignas de um ginasta ou atleta, para escrever o seu livro. Na época, ainda jovem, fez várias e cansativas viagens em busca de informações em lugares ermos, remotos e de difícil acesso, nos quais entrevistou idosos parentes. Pesquisou nos cartórios de longínquas comarcas do Piauí e do Ceará. Subiu em escadas, para consultar antigos processos, amontoados em verdadeiros e quase inacessíveis sótãos. Foram dezoito anos de pesquisa em fontes documentais, e não de meras suposições, ilações, hipóteses e consultas a livros já publicados.

Decifrou carcomidos e borrados calhamaços, documentos e processos. Desvendou quase apagadas lápides de cemitérios urbanos e rurais. Não sei se nestes últimos chegou a conversar com fantasmas de avoengos, que lhe possam ter relatado fatos esconsos e já esquecidos. Compulsou livros registrais de sacristias e delegacias policiais. As dificuldades eram de diversas ordens, entre as quais nomes grafados de forma errada, homonímias e divergência entre o nome do registro e o da tradição oral dos familiares.

Em suma, em alguns casos não seria exagero afirmar que ele foi quase um Indiana Jones em suas aventuras e incursões historiográficas e arqueológicas, em diferentes rincões e fazendas a que teve de ir. Todos os percalços e dificuldades que enfrentou foi para cumprir um desejo de seu saudoso pai, Pedro Mapurunga de Miranda, que almejava ver a história e a genealogia da família preservadas. Seu pai guardava algumas anotações que lhe serviram de pistas iniciais ou ponto de partida para novas e mais aprofundadas investigações.

Entre as velhas e tradicionais famílias ligadas à Ibiapaba podem ser citadas (e são as que mais foram enfocadas em seu estudo): Fontenele, Araújo, Mapurunga, Damasceno, Machado, Magalhães, Miranda, Cerqueira, muitas estabelecidas em Viçosa, sua terra natal, e Piracuruca, uma de suas terras afetivas, à qual também sou vinculado por laços de sangue. Portanto, na genealogia delineada se percebe um forte entrelaçamento entre famílias cearenses e piauienses. Algumas das famílias referidas adotaram outro apelido, por causa de avoengos insatisfeitos ou amuados em decorrência de eventual interesse contrariado.

Como um legítimo Hercule Poirot farejou em arquivos públicos, seguindo pistas, intuições e suposições, e mesmo à procura de novas informações. Num desses cartórios, teve que ficar espremido entre o forro e as telhas do teto, já que os mofentos autos de processos, talvez por desleixo ou irresponsabilidade do notário, ali estavam “largados”. Nessa árdua escaramuça em busca da história de seus parentes e ancestrais gastou muita pecúnia, labuta e tempo. Jamais direi que ele perdeu tempo; antes diria ganhou. E ganhamos todos, pois ele escreveu um lídimo monumento literário, historiográfico e genealógico.

Quando recebi um segundo exemplar desse livro, em 23 de fevereiro de 2006, conforme data do amável autógrafo (a dedicatória do primeiro é datada de Parnaíba, 13/10/2001), comecei a ler e reler algumas de suas partes, que mais me despertaram a atenção. Depois, sinto-me no dever de confessar, por outros deveres laborais e outros interesses momentâneos, suspendi a sua leitura. Algum tempo depois meu irmão Antônio José me disse que o havia lido, e que gostara imensamente de seu conteúdo. Comentou, de forma breve, algumas de suas deliciosas narrativas. 

Essa mesma opinião me foi expressada pela escritora, historiadora e professora Teresinha Queiroz, que me disse reler, amiúde, muitas de suas partes, alertando-me para a sua importância historiográfica, genealógica e literária. Ao contrário desses dois enfáticos e sinceros elogios, um leitor preguiçoso, não afeito a profundas e mais alentadas páginas, teria dito de forma jocosa, do alto de sua ignorância e preguiça mental: “Mas são muitos os rios e os séculos que a gente tem de atravessar... Eu só consegui ler alguns anos e poucos riachos...”

Foi, então, que decidi lê-lo de capa a capa, com mais atenção e eventuais anotações. Pude constatar que é uma obra bem escrita e que contém histórias interessantes, algumas jocosas, irônicas, apimentadas; outras, dramáticas ou até mesmo trágicas. Vicente Miranda teve a coragem e a sinceridade de contar certos feitos (e até malfeitos) de seus parentes e avoengos, que muitos jamais revelariam, mormente em livro, não para ferir ou afrontar suscetibilidades, mas apenas porque todas as famílias, exatamente por causa do fator humano, têm os seus pecados e crimes que se tentam ocultar.

Algumas de suas passagens são histórias de amor e morte, de sangue e traição, quando a obra adquire um aspecto de conto ou mesmo de romance, dada a habilidade como o autor encadeou e urdiu certos entrechos. Sabemos que a dita vida real é às vezes mais surpreendente que a ficção. Vejamos, como simples amostra ou tira-gosto, este enxerto: “São inúmeros os exemplos de sacerdotes que tombaram no exercício do dever, a começar pelo primeiro daqueles que pisaram o chão da Ibiapaba – Francisco Pinto – conforme já narrado. // Padre José Monteiro de Sá Palácio, operoso vigário da Vila de Piracuruca por muitos anos, ele próprio vítima da bestialidade humana, quando perdeu a mãe assassinada com 35 facadas (...)”. Notável é também o episódio da “índia corredeira”, assim como tantos outros. Deixo ao leitor a curiosidade, para ir lê-los no livro em comento.

É uma obra volumosa, que, além da ênfase genealógica, trata também da corografia da Ibiapaba e adjacências, descrevendo as escarpas da Serra Grande, os vales de seus principais rios e afluentes e os seus mais notáveis acidentes geográficos. Narra o seu povoamento e a formação de seus primeiros aglomerados urbanos. As figuras ilustres dessas cidades e municípios desfilam em suas páginas. Descreve as trilhas, que mais ou menos seguiam os cursos d’água, por onde as antigas povoações se formaram.

Parece até que Vicente Miranda, ao percorrer o espinhaço da Ibiapaba, ao lhe devassar as íngremes encostas, ao lhe contornar os sopés, seguiu as pegadas do genial Luiz Gonzaga: “Lá no meu pé de serra / Deixei ficar meu coração / Ai, que saudades tenho / Eu vou voltar pro meu sertão”. Algumas de suas descrições são de profunda beleza literária e bucólica, e se revestem na verdade de excelente prosa poética, como nesta passagem: “De lá de cima, (...) descortina-se uma vista maravilhosa de todo o vale do rio São Gonçalo e Lambedouro. Oportunidade rara para o pesquisador (...) vingar-se do morro do Caburé que, visto da base, é arrogante e desafiador. Agora, humilhado, fica lá em baixo com o cocuruto cinzento e arrepiado”.

Por ter entrelaçamento familiar com as mais antigas famílias da Ibiapaba, sobretudo as da imperial Viçosa do Ceará, terra do general Tibúrcio, que lutou em várias batalhas, e do jurista Clóvis Beviláqua, filho do padre Beviláqua, um dos pró-homem de sua terra, casado com a piauiense Amélia de Freitas Beviláqua, jornalista, poetisa, contista, cronista e romancista. Reza a lenda que, certa feita, uma das estátuas do general caiu. Mas caiu de pé, afiançam os viçosenses.   

Sobre a vetusta urbe, de ameno clima e serrana e florida beleza, fincada no espinhaço da Ibiapaba, tive a oportunidade de dizer, em minha crônica Viçosa, sempre viçosa e cheia de graça, que se encontra publicada na internet:

(...) fui à Praça da Matriz, onde fotografei a vetusta igreja de Nossa Senhora da Assunção, de coloniais linhas sóbrias, austeras, exceto no frontispício, de discreta sinuosidade. Sua inauguração data de 15 de agosto de 1700, porém o povoamento de Viçosa do Ceará começou bem antes, remontando a 1590, quando franceses provenientes do Maranhão tiveram contato com os índios da região, até sua expulsão em 1604 por Pero Coelho de Sousa. Segundo o padre Ascenso Gago, superior dos missionários ibiapabenses, a data de fundação da urbe seria 1695. O fato é que nesse período existia a missão dos padres jesuítas, que tentavam catequizar os índios Tabajaras, dando origem à Aldeia da Ibiapaba.

Nos meus primeiros contatos com Vicente Miranda, mais de década atrás, logo lhe notei acentuada semelhança com o grande poeta, cantor e compositor Belchior. Não pude deixar de lhe indagar a esse respeito, tendo ele me respondido que eram parentes. Nessa época Miranda ostentava um vasto e denso bigode, assim como seu célebre primo. Tempos depois, ao revê-lo, de imediato percebi que ele havia se despojado da bigodeira. Jocosamente, revelando o seu senso de humor, que eu já conhecia, disse que rapara o bigode para não ser confundido com o parente famoso, que se envolvera em dívidas e andava um tanto sumido.

Todavia, por ter elaborado essa monumental obra, monumental tanto pelo tamanho como pela qualidade, não posso dizer que Vicente Miranda seja “(...) apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes”. É um historiador de muito valor, um empresário bem-sucedido em seu campo de atuação e teve e tem parentes importantes, entre os quais o próprio e saudoso Belchior, autor dos antológicos versos acima. 

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