Dilson Lages Monteiro Sábado, 20 de outubro de 2018
Eclética
Elmar Carvalho
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Via Sacra no Centro Histórico de Parnaíba

 

Elmar Carvalho

No final de dezembro, véspera de Ano Novo, fui com Fátima ao centro comercial e histórico de Parnaíba. Ela ia comprar uns utensílios domésticos. Como iria demorar mais de uma hora, resolvi revisitar alguns pontos históricos, turísticos e arquitetônicos, que conheço desde 1975, quando minha família foi morar em Parnaíba, portanto, no final de minha adolescência.

Comecei pela Praça da Graça, onde moramos, no apartamento dos Correios. A praça ainda era a mais velha e mais bela. O Cassino já não existia. Por essa época, ainda funcionavam os cines Éden e Gazeta, e a AABB nela ficava situada. As belas moças em flor ainda desfilavam sua beleza na velha praça. Tornei-me, desde essa época, amigo do Louro da Banca, que nunca foi de botar banca com ninguém, e que foi depois, juntamente como o patrimônio arquitetônico, “tombado” pelo IPHAN.

Recordo que, no Éden, assisti a um filme de Drácula, com castelo e carruagem entre nevoentas paisagens, estrelado por Christopher Lee. Apesar da maldade, o velho conde se mostrava de forma aristocrática e hierática, sem a violência ostensiva e exagerada dos filmes de hoje. No final da década, na gestão do prefeito Batista Silva, acompanhei a demolição desse belo logradouro, com o consequente desaparecimento da pérgola, do coreto, dos velhos bancos e postes de iluminação.

Os escombros foram escondidos por um tapume de madeira, que foram derrubados e queimados pela população, na histórica noite de 31 de agosto de 1979. Morando na praça, não poderia deixar de assistir a tudo isso. Testemunhei sua reconstrução, mas ficou para sempre em minha memória a nostalgia da paisagem arquitetônica perdida. Caminhando em seus passeios e alamedas, costumava contemplar a suntuosidade ostensiva da Catedral e a discreta e singela beleza da Igreja do Rosário. No seu entorno, ficavam os principais bancos e repartições públicas.  

No final dos anos 1970, houve um comício gigante nessa praça, em homenagem ao retorno do ex-governador Chagas Rodrigues à política partidária, com a presença de próceres do MDB nacional, entre os quais Ulisses Guimarães, Almino Afonso, Miguel Arraes, além de destacados caciques estaduais. Discursei nesse evento, na qualidade de presidente do Diretório Acadêmico 3 de Março, representando o corpo discente do Campus Ministro Reis Velloso – UFPI. Em plena ditadura militar, vociferei contra a falta de liberdade democrática e a minguada verba destinada à Educação. Para alimento de minha vaidade juvenil, muitos oradores fizeram referência à minha fala. Infelizmente, na época não havia selfie e nem as facilidades fotográficas de hoje, de modo que não guardei nenhuma foto desse grande comício.

Saindo do velho logradouro, passei pela praça da Mulher do Pote (Praça Constantino Correia). Grande e pesada, foi um presente dado ao ministro do Planejamento, o parnaibano João Paulo dos Reis Velloso. Considerando-se o trabalho e a despesa para o seu transporte para Parnaíba, muitos poderiam achar que foi uma espécie de “presente de grego” ou mesmo algo como uma vitória de Pirro, tal o esforço e dispêndio para sua fixação final. Passadas essas décadas, podemos dizer que valeu a pena todos os esforços e todas as despesas. E a escultura continua impávida, a sustentar o pote, peso que lhe cabe carregar pelo resto de sua (quase eterna) vida de pedra bruta e sólida.

A Santa Casa de Misericórdia foi a minha seguinte estação. Grande e belo e velho prédio que revi tantas vezes, na minha juventude e na minha idade atual. Nela foram internadas duas de minhas irmãs, vítimas de um acidente de carro, em que morreu Josélia, nossa outra irmã. Durante alguns anos, meus pais moraram perto desse nosocômio. Revi os grandes oitizeiros da praça que lhe fica defronte. Ali perto, no cruzamento da Capitão Claro com a Álvaro Mendes, ficava a agência e “parada” principal da antiga empresa Marimbá, que fazia a linha Parnaíba – Teresina. Em seus ônibus azuis viajei muitas vezes, até sua venda para o grupo Claudino.

Quando me dirigia para a Praça Santo Antônio, encontrei, perto do antigo Cascatinha, o amigo Paulo Afonso Ribeiro de Brito, casado com a Gardênia, filha da professora Miriam Castelo Branco. Nos cumprimentamos, e segui meu desiderato, não sem antes dar uma boa olhada no velho mercado central e seus pés de oitis e na praça contígua que foi restaurada e exposta ao público. Lembrei-me dos velhos comércios; muitos dos quais já não existem. Existia até bem pouco tempo a casa Siqueira, que pertenceu ao saudoso amigo José João Siqueira, que resistiu bravamente na venda de tecido, e não apenas de confecções como manda a moda de nossos tempos atuais. Zé João foi um competente professor universitário e escreveu um importante trabalho sobre o extrativismo da carnaúba.    

Eis-me, enfim, na Praça Santo Antônio, onde estive tantas vezes, ao longo de minha vida. Nela pontificavam e desfilavam as mais belas moças de Parnaíba dos dourados anos 70 de minha evocação saudosista. Deixei-me inebriar de saudade, enquanto me envolvia na sombra e na penumbra das lembranças e dos frondosos pés de oitis. Foi o meu primeiro alumbramento de Parnaíba, quando, antes de nossa mudança familiar e residencial, vim visitar meu pai, no começo de 1975, aproveitando uma carona.

Papai, a pretexto de visitarmos seu primo Joaquim Furtado de Carvalho, fluente no inglês e numa boa conversa, professor da Caixeiral, me levou até essa bela praça, onde vi seus monumentais oitizeiros. Nosso parente morava na pensão de dona Judite, onde moravam outras pessoas que depois se tornaram meus amigos, entre os quais o jornalista e escritor Antônio Gallas Pimentel. Meu parente, meses depois, me recomendou fizesse amizade com o Gallas. Segui-lhe o conselho, e essa antiga amizade se mantém sem abalo e sem solução de continuidade.

Na Praça Santo Antônio (assim como nas avenidas Chagas Rodrigues e Presidente Getúlio Vargas) residiam as figuras mais proeminentes e conhecidas de Parnaíba. Nela moravam Vicente Correia, grande ativista da igreja católica, Cândido de Almeida Athayde, político, empresário, médico renomado e meu professor na faculdade de Administração de Empresas, Assis Cajubá de Brito, advogado atuante e eloquente, também meu professor em disciplina sobre Economia, com quem aprendi os mistérios das aziendas e as virtudes e mazelas das relações empresariais, Carlos Alberto Teixeira, guardião zeloso do Patrimônio da União, procurador da Fazenda Nacional, e que também foi meu mestre na universidade, bom na retórica e na disciplina que lecionava.

Quando voltava para a Praça da Graça, para esperar minha mulher, encontrei novamente o Paulo Afonso, que retornava à casa de sua sogra. Não sei se foi mera coincidência; hoje já não sei se o acaso existe, se tudo não tem um propósito. O Paulo me pediu que entrasse, para cumprimentar a professora Miriam Castelo Branco, mestra respeitada do vernáculo. Revi seus filhos Zé Filho, Verbena e Gardênia, esposa do Paulo. Recordamos nossos amigos comuns. Ela se lembrava de quando eu ainda era um garoto, recém-chegado a Parnaíba, nos idos de junho de 75 do século passado. Falamos de literatura e arte, e evocamos os velhos e inesquecíveis professores, entre os quais Benedito Jonas Correia (pai de meu compadre e amigo Canindé), Lauro Correia, José Rodrigues, Maria da Penha e Lima Couto, este pai dos amigos Régis, Vítor e Paulo, tradutor de poemas, e que, certamente por bondade, aplaudia as coisas que eu então publicava.

Voltei à Praça da Graça, ponto de partida e de chegada. Cumprimentei o Louro, e embarquei no túnel de um outro tempo, onde o tempo não existe, ou existe confundido no destempo de um tempo absoluto, sem passado, sem presente, sem futuro. Tempo total, indiviso, tecido de eternidade. Ó lembranças, ó tempos que tento recapturar nas teias frágeis e diáfanas da memória.

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