Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2018
Eclética
Elmar Carvalho
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Meu pai e a sua Ítaca encantada

Meu pai e a sua Ítaca encantada

Elmar Carvalho

         Na tarde de domingo, dia 5 de novembro, após um breve cochilo, senti um forte, porém agradável cheiro de flores*, perto da rede em que eu repousava. Sabia que era um sinal. Entretanto, por cautela, perguntei a Fátima, minha mulher, e a minha filha Elmara se haviam usado algum tipo de perfume, sabonete ou desodorante. Ante a resposta negativa, não tive dúvida; meu pai, que se encontrava na UTI da Unimed, havia falecido. De fato, um pouco depois, meu celular tocou, e nesse telefonema meu irmão Antônio José me comunicou o falecimento de papai – Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

            Esse fenômeno, o cheiro de flores, sobre o qual não desejo emitir nenhuma explicação ou justificativa, me ocorreu pela primeira vez em junho de 2013, de madrugada, na cidade de Regeneração, alguns dias após o falecimento de minha mãe. Digo apenas que o entendo como um sinal de que existe algo mais do que apenas esta efêmera vida terrena, com os seus percalços e vicissitudes, em diferentes etapas de nossa trajetória existencial. Creio que ele é dado para vivificar a nossa Fé e para aumentar a nossa coragem e Esperança, bem como outras virtudes.

            Se fosse projetado o filme da vida de meu pai, com certeza a tela não teria apenas uma luminosidade vazia, destituída de imagens, como a daquele ermitão, que se limitou a não fazer o mal em sua gruta solitária, mas que também não praticou boas ações no convívio com outras pessoas, talvez no egoísmo de alcançar o céu a qualquer preço. Papai teve, como todos nós, as suas alegrias e tristezas, as suas conquistas e decepções, sobre as quais não irei aqui discorrer.

Aos 14 anos de idade, quando era aluno do Colégio Diocesano de Teresina, perdeu o pai, meu avô João de Deus, tendo que retornar a Barras, sua terra natal. Na maturidade, sofreu a perda de sua filha Josélia, quando ela tinha apenas 15 anos de vida. Em sua velhice, no final de abril de 2013, amargou a morte de sua amada esposa, minha mãe, que cuidou dele e dos oito filhos com exemplar e inexcedível dedicação. Faleceu em 5 de novembro de 2017, no dia em completava (exatamente) 91 anos e 10 meses de existência.  

Gostava de ler, sobretudo romances, contos e poemas, mas também livros religiosos. Tinha uma pequena biblioteca, que li em minha infância. Tomava emprestados livros de biblioteca públicas e particulares para que eu os lesse em casa. Gostava de música, principalmente as da velha guarda, que ouvia em programas radiofônicos, como o Gramofone da Vovó, apresentado pelo locutor Jaime Farell, através da Rádio Sociedade da Bahia, se não estou equivocado. Recitava de cor alguns desses poemas e cantarolava várias dessas músicas, cujas letras eram na verdade belos poemas. Durante algum tempo foi colaborador do jornal A Luta, de Campo Maior, com artigos ou crônicas, que escrevia em linguagem elegante e escorreita, mas sem nunca ter alimentado veleidade literária.

Não tinha pretensão artística porque sua meta primordial era sustentar sua família, composta por minha mãe e oito filhos. Seu esforço maior foi sempre cumprir suas funções, para conservar seu emprego, embora tivesse estabilidade em seu cargo efetivo, já que era servidor público federal, até se tornar celetista, quando o antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos foi transformado em empresa pública.

Tenho lembrança de ter ido com ele, em minha infância, assistir exibição de filmes no velho Cine Nazaré, espetáculos de circos que aportavam em Campo Maior, bem como fui com ele ao Estádio Deusdete Melo, para presenciarmos acirradas disputas futebolísticas, mormente entre os arquirrivais Comercial e Caiçara. Com ele fui, algumas vezes, participar de missas na igreja de Santo Antônio do Surubim, e até mesmo a desobrigas efetuadas pelos saudosos vigários Mateus Cortez Rufino e Isaac Vilarinho.

Prezando sobretudo a qualidade, teve seletos amigos ao longo de sua vida, cuja amizade cultivou e preservou, e dos quais recebeu idêntica e reciproca consideração. Tendo chefiado a ECT – Empresa de Correios e Telégrafos – em Parnaíba, por muitos anos, angariou a estima e a consideração de seus servidores, sendo que quase todos tinham idade de ser seus filhos, já que a maioria dos antigos servidores não optou em pertencer ao regime da CLT, adotado pela empresa criada a partir do antigo Departamento. Não lhes chamava a atenção em público, mas os orientava reservadamente, na sala da chefia. Teve a percepção antecipada de que o alcoolismo era uma espécie de doença, de modo que nunca propôs a demissão e punição de ninguém, em raros casos isolados que surgiram, para os quais encontrou solução menos drástica.

Dele recebemos bons conselhos e bons exemplos, que não desejo especificar, exceto um: numa época em que não havia cartão de crédito nem de débito, quando recebia algum dinheiro a mais, em troco ou em saque bancário, ato contínuo retornava para devolver a importância excedente que lhe fora indevidamente entregue.

No dia do seu sepultamento em Campo Maior, houve missa** de corpo presente na igreja de N. S. das Mercês. O padre Expedito Melo, em perfeita celebração, proferiu belas e confortadoras palavras sobre meu pai, que nos comoveram. Logo após a missa, em momento de muita inspiração, o grande tribuno João Alves Filho pronunciou lapidar necrológio, em que ressaltou as boas qualidades de um homem simples e bom, que se chamou Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

A caminho do cemitério em que papai foi sepultado, dentro de meu carro, a Maria Francisca, que foi nossa vizinha na primeira metade dos anos 1970, nos prestou comovente depoimento, cujo teor desconhecíamos. Ela disse que, algumas vezes, o papai lhe dava pequena ajuda, para que ela comprasse cadernos e outros materiais escolares, e que, muitas vezes, lhe advertiu para que nunca desistisse de seus estudos, esclarecendo-lhe que esse era o único meio de uma pessoa pobre melhorar de vida. Respondi-lhe que nessa época ele atravessava situação financeira difícil, pois ainda não ascendera a novo cargo em seu emprego, e sua família era grande. Ela respondeu, com a voz embargada pela emoção, que sabia disso.

Com a morte de mamãe, com quem viveu em admirável e longa união, em amizade e respeito recíprocos, meu pai começou a declinar em sua energia vital. Contudo, mesmo faltando apenas dois meses para completar 92 anos, se manteve lúcido e se locomovendo com suas próprias pernas, com exceção dos momentos em que esteve na UTI, onde faleceu.

Com Fé, Esperança e coragem alicerçada em fervorosas orações, enfrentou as vicissitudes momentâneas de sua longa vida. Combateu o bom combate dos homens de bem, dos homens que acreditam em Deus e na vida eterna.

Parafraseando o notável poema de Konstantinos Kaváfis, direi que a vida de papai foi uma bela viagem, com pequenas turbulências e bonanças, mas com o descortino de deslumbrantes paisagens, e que, em coroamento, ele encontrou Ítaca, a sua ilha encantada.   

* Vê a crônica Cheiro de Flores, que se encontra publicada na internet.

** As missas de corpo presente e de sétimo dia contaram com o apoio logístico do amigo José Francisco Marques e com a boa vontade e compreensão do celebrante, Pe. Expedito Melo. Tiveram a presença de familiares e amigos da família, aos quais somos gratos. 

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