Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2018
Eclética
Elmar Carvalho
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HISTÓRIAS DE ÉVORA DE ELMAR CARVALHO

HISTÓRIAS DE ÉVORA DE ELMAR CARVALHO

MAGNO PIRES *

            Os contos ficcionais e reais contidos no livro-romance Histórias de Évora, enredo ficcional e real, mais este que aquele, pressupõem que os acontecimentos ocorrem em cenário europeu, em Portugal. Pois, assim nos conduz o topônimo “Évora”; porém, e efetivamente, suas empolgantes e emocionantes narrativas se desenvolvem, ambientadas e contextualizadas em Sete Cidades, paraíso ecológico, situado em Piracuruca; ou, entre os limites das chapadas e do cerrado, com fortes características, também do semiárido, dos municípios de Piracuruca e Piripiri; contudo, as belas e cativantes composições ficcionais avançam ou abarcam também Parnaíba e Campo Maior dos anos 70 e 80. E outras cidades piauienses no rico e extraordinário período do extrativismo vegetal da cera de carnaúba que enriquecera a elite rural do Estado. E a sua principal atividade econômica de então.

            Narrativas ficcionais e materiais. Subjetivas e objetivas que conduzem, racionalmente, à realidade dos fatos e passagens descritas com tanta precisão.

            Ações e caminhos literários que prospectam e ecoam as objetividades expostas, que deixam o leitor curioso e com forte ansiedade e desejo ilimitado de ler a próxima história para saciar a sua indiscrição de tão relevantes que são.

            Embora divididos e/ou separados em capítulos, cronologia natural adotada em qualquer romance, o embricamento e/ou ligamento entre as exposições das ocorrências, dos fatos, das circunstâncias, do meio, dos fins colimados e dos cenários trabalhados caracterizam e formalizam um contexto extremamente real das histórias bens construídas, entabuladas e narradas, ainda que o romancista fale mais em ficcionismo e o livro detenha um realismo contagiante.

            E a sua conexão emocional e consensual, entre fatos e ficções, nas metas conarrativas, com o protagonista Marcos Azevedo, denota a vasta sensibilidade do autor em expor a conduta social e afetiva desse referencial Marcos Azevedo, com os demais personagens; e emoldurar, realisticamente, as histórias. E exponencializar a realidade pseudo-ficcional, embora os contos de Évora sejam mais realidades que coisas irreais, o que também expressa a inteligência literária do autor em tentar dividi-los e/ou segregá-los.

            É um romance mais real que ficcional (repito), ainda que romance, que relata várias décadas históricas do Brasil. Salientando os fatos, as suas características sociais, culturais, econômicas e políticas, além de suas acentuadas contradições do período compreendido. E com comentários bem emoldurados e descritos factualmente, fugindo do ficcional, e sem o medo e/ou receio de expor, comentar, criticar, dizer e falar a verdade, mesmo quando descreve sobre sexo, festas amorosas, encontros libidinosos... Sarau, embora na época, não se usava essa terminologia para qualificar esses encontros festivos. Existiam as famosas tertúlias. Numa sociedade conservadora, como a das décadas de 50 e 60 do século passado. Quando o país ainda vinha tentando se libertar limitamente dos fortes vínculos do famigerado regime escravocrata.

            E, ao estender-se às décadas de 70 e 80, embora nestas, o conservadorismo haja diminuído, havendo uma certa descontração e/ou descompressão dos costumes sociais. Ainda que o lado religioso e ortodoxo existisse, porém, sem as fortes características do período passado.

            É um romance histórico, sociológico e antropológico. E de leitura aconselhável para jovens e adultos, especialmente, por conta do seu conteúdo social real, sociológico, e uma explanação correta, privilegiada, das mudanças dos matizes sócio-política-econômica e cultural da sociedade brasileira no período contextualizado e desenvolvido com empolgante sinceridade.

Ao dissertar em linguagem enxuta, exata e realista, e tão bem, os encontros amorosos do protagonista Marcos Azevedo, que tem a sua fase de timidez, com a famosa madame Doralice, que era uma prostituta, parece tê-los vivenciados e participado de alguns.

 

Pois, para descrevê-los e/ou caracterizá-los, com enormes detalhes, muita segurança, senão participou, com certeza, vivenciou-os infinitamente, o que também não há o que estranhar nesse comportamento, ainda que ilegítimo do período.

 Os jovens de sua época viviam (ou vivem) numa sociedade extremamente restrita à moral, a ética e aos costumes. Portanto, conservadora, religiosa, e com receio e/ou medo do pai e da mãe. Dos avós, dos tios, dos parentes, dos amigos, de parentes e aderentes, e também da repressão dos vizinhos. E receio dos castigos e das reprimendas dos genitores.

 A religiosidade, ou caráter religioso, também impunha à sociedade vultosas restrições e extemporâneos limites.

 Eram criados numa perspectiva ilimitada de “respeito” e/ou temor à religião e às coisas religiosas. Onde, por isso, quase toda conduta amorosa era pecaminosa.

 Como antecipei antes, Histórias de Évora descrevem aspectos sociais, econômicos, políticos, religiosos e culturais do período da vivência do autor, percorrendo várias décadas de nossa história, com muita percuciência.

 É um livro de sociologia e antropologia, portanto, realista, humanista, que todos devem ler para aumentar conhecimentos e aprimorar o saber. Pois, expõe fortemente as ocorrências socioculturais da sociedade piauiense e brasileira. Esta, projetada a partir do Piauí, como campo e cenário de ação. Numa dimensão literal correta e com fixação honesta da realidade, embora um romance. Onde, em cujo gênero literário, prevalece o ficcionismo. Por isso, o livro é menos ficção e mais objetividade e/ou materialidade, com o aspecto ficcional extremamente bem elaborado ou descrito, dissertado, pelo amor.

 As aventuras romanceadas erótico-amorosas do protagonista Marcos Azevedo, com a famosa madame Doralice, com Lívia, no cabaré da Gracinha que permeiam grande parte dos cenários do livro-romance, são sensivelmente relatadas e correlatadas e sem o receio de recriminação da sociedade, dos pais, dos familiares. Ele agia livremente. Doralice mantinha o Solar da Rosa dos Ventos

 Portanto, embora Évora, cujo vocabulário nos lembra Portugal, Lisboa, seja uma cidade fictícia, imaginaria, mas repleta de realidades, compreendida nos limites de Piracuruca e Piripiri, com o panorama de ação-abrangência, epicentro, em Sete Cidades, paraíso ecológico, as histórias fantásticas e realistas, descritas, focadas pelo seu inteligente, sensível e emérito autor-acadêmico impõem um forte caráter litero-histórico, sócio-político-cultural, econômico, sociológico e antropológico à obra que é recomendável à leitura e à formação de brasileiros, conforme já antecipado. Como são os livros de José Lins do Rego, Jorge Amado, Humberto de Campos, Gilberto Freyre, Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha, Josué de Castro... dentre outros brasileiros responsáveis pela nossa formação cultural. Esses ilustres romancistas e literatos brasileiros tiveram a mesma percepção, sentimento, sensibilidade, compreensão e preocupação de Elmar Carvalho ao relatar e denunciar, pela literatura, os problemas nacionais da atualidade (ou do seu tempo) à posteridade, para conhecimento da sociedade, embora os escritores mais contemplem que realizem.

 Mas, suas realizações, são as denúncias e críticas que fazem pelos livros ao mundo. Elmar faz, a seu tempo, a sua crítica-denúncia dos ainda angustiantes problemas nacionais que persistem insolúveis. E com uma literatura de excepcional valor e conteúdo, elogiável sobre todos os aspectos enfocados, analisados e criticados.

 * Magno Pires é membro da Academia Piauiense de Letras, ex-Secretário da Administração do Piauí, ex-consultor jurídico da Companhia Antarctica Paulista (Hoje AMBEV) 32 anos. Portal www.magnopires.com.br com 94.450.112 acessos em 8 anos e 2 meses, e-mail: magnopires_mp@yahoo.com.br.  

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