Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
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Fotos Antigas

Fotos Antigas

 

Elmar Carvalho

 

Onde estão aquelas pessoas

que assistiam ao comício na velha praça,

que já não existe, exceto na foto desbotada

e carcomida pelas traças implacáveis?

 

Muitas já estão dormindo,

dormindo profundamente

(como no poema de Bandeira),

no Cemitério da Igualdade

ou em outro campo santo qualquer.

A própria praça já não existe

na sua sedutora arquitetura de então.

 

Por causa da usura, dos metais e do tempo,

alguns casarões foram demolidos,

dando lugar a modernosas formas,

sem história, sem lembranças.

Outros permanecem, com os aleijões das “reformas”.

 

O homem que passava

para sempre ficou

congelado na foto,

em inconclusa passada.

 

Para onde se foi, com a sua pressa,

com as suas preocupações e planos,

e as suas momentâneas contingências?

 

Decerto, deserto de tudo,

hoje já não tem pressa,

nem preocupações,

nem dúvidas e dores,

para sempre imoto em sua cova.

 

A moça bonita, eternamente

moça e bonita na fotografia,

terá morrido moça e bonita

ou terá sentido na pele e na alma

o desmoronar lento do tempo?

 

A águia metálica

voou do cais do porto

para outro logradouro, de onde,

pousada no poleiro monumental,

assiste o desfilar frenético dos carros,

entre movimentadas avenidas.

Ela, contudo, permanece imóvel,

embora com as longas asas distendidas,

hierática, sem pressa e sem medo.

 

A maria fumaça que passava

soltando fumaça e apitando

não mais passará, não mais passará,

com as suas negras engrenagens,

nem mesmo travestida

em locomotiva a diesel.

Até os trilhos e dormentes

lhe foram arrancados, e as trilhas, apagadas.

 

Os namorados que se amavam

e se afagavam, à sombra

da velha pérgola ou do caramanchão

de outrora, ainda se amam, ainda se afagam?

São tantos os sonhos desfeitos...

 

Um dia, os retratos estarão apagados,

e este poema, esquecido.

E não restará sequer uma tabuleta

ou um bilhete esmaecido

em (esconsa) gaveta.    

  

(*) Após vários anos sem escrever nenhum poema, fiz hoje (22.11.17) este texto, que espero mereça essa classificação ou rótulo.

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