Dilson Lages Monteiro Domingo, 16 de dezembro de 2018
Dia d crônica
Domingos Pellegrini
Tamanho da letra A +A

Conversa de véio

Conversa de véio

[Domingos Pellegrini]

Conversa de dois idosos na academia ao ar livre: 
- Então, de novo aqui no estica-véio... 
- Pois é, enquanto a danada não chama, a gente vai ouvindo os sabiás. E o carnaval, pulou onde? 
- Na cama, na cadeira de balanço e na rede. Filha diz que cadeira de balanço é coisa obsoleta, falei então me pega todo dia no colo e balança, aí pode pinchar fora a cadeira. 
- E obsoleto ficou o telefone fixo, javiu? Menino, eu via meu pai esperar dois dias pra fazer um interurbano... 
- Palavra que nem existe mais. Bisnetinha diz que com o tal uatsap a gente pode falar com Pequim de graça, mas eu não tenho nadinha pra falar com Pequim. Queria era falar umas coisinhas pra uns e outros da política assim olho no olho, sacumé? 
- Sei, mas eu tô me acostumando com o uatsap, mesmo sem entender como é que uma coisa funciona sem custo. Meu medo é que, quando estiver entendendo direitim, inventam outro trem, é tanta novidade tão ligeiro que... 
- ...dá medo. Nem enterram gente mais, só cremam. Aliás, lembrei de creme. Levei o bisneto na sorveteria, tinha sorvete de tudo quanto é tipo, menos de creme, perguntei porque, disseram ah, ninguém mais pede creme... 
- Mas daqui a pouco o creme volta com tudo, que nem lomplei, que quase acabou e agora é moda. Se eu tivesse menos de setenta, abria a Sorveteria da Saudade: só pistache, creme, morango, coco e amendoim. 
- Amendoim não posso comer, minha véia reclama que fico muito assanhado... 
- Devia ter me avisado que era pra dar risada. Meu genro é assim, conta piada tão sem graça que só ele ri. 
- Já o meu conta piada que ninguém entende. 
- Meu neto contou esta: qual a doença que o pneu mais pega? Pneumonia. 
- Que matou o Tico, vinha aqui todo dia, dizia que estava ótimo e... 
- ...esticou de vez. E a gente aqui esticando aposentadoria pra chegar no fim do mês. 
- Ganhando duas vezes menos que o tal auxílio-moradia de juiz. Será que a gente vai embora sem ver o Brasil criar vergonha? 
- Pois é, no Brasil se cria desde zebu até avestruz, só não se cria vergonha. 
- Porque o povo é muito pamonha. 
- Minha avó já dizia que falta berço, escola, terço e cachola. 
- Mas meu bisneto outro dia me pediu a bênção, pode acreditar. Chegou de mansinho e: a bênção, vô. Até marejou a vista. Aí ele piscou: amanhã é meu aniversário, me dá um tablet de presente? Dei um tablete de chocolate. Tô ficando esperto. 
- E ele gostou? 
- Me deu um pente de presente. 
- Mas você é careca! 
- Entendeu? 

 

Notícia da Chácara

Dalva Vidotte/ Divulgação 

 

RECICLANDO 
Seu nome é Marco Antonio Xavier, e a profissão ele fala de boca cheia: reciclador. Passa pegando os papéis, plásticos e vidros, e toma o suco com que retribuímos a lição que nos dá: leva o lixo, deixa alegria. Sempre sorrindo, sem reclamar, com disposição para tudo resolver de algum jeito inventivo. Leva mesmo o que não tem valor para reciclagem, encaminha para alguém que de algum jeito usará, como cabos de vassoura que vai enfiando num tubo "pra não atravancar o carrinho".
Aliás, carrinho com estrutura metálica e guarda-sol, "pra trabalhar direitinho". Exemplo a ser seguido num país onde tanta coisa mal funciona e – conceito a ser reciclado - o trabalho ainda é visto como castigo. Mas os catadores reciclam o futuro todo dia.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

18.11.2018 - Agro orgulho

09.11.2018 - Na Mata com a história do Brasil

12.06.2018 - Histórias

05.06.2018 - Minha Rua

20.02.2018 - Conversa de véio

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

15.12.2018 - A ARTE DA FUGA

A ARTE DA FUGA

12.12.2018 - Lovecraft e o Modernismo

O escritor de Providence é um dos grandes mestres da literatura de horror

11.12.2018 - A PANTERA 17

A PANTERA 17

05.12.2018 - A PANTERA 16

A PANTERA 16

05.12.2018 - 15. A PANTERA

15. A PANTERA

04.12.2018 - O AUTOR E AS GRALHAS

Alguns escritores

02.12.2018 - "Names", novela de Dalton Almeida

Ficção científica brasileira existe e é muito ativa. Vejamos este exemplo.

02.12.2018 - Meus tempos de editor na FCMC

Foi, na época a que me refiro, sem a menor sombra de dúvida, o mais importante e arrojado plano editorial do Estado do Piauí...

01.12.2018 - PRESSÁGIOS: DAS MOIRAS AOS SUECOS

Cloto, Láquesis e Átropos, três irmãs que tinham em suas mãos o destino dos deuses e dos homens.

26.11.2018 - A Pantera - 14

A casa em ruínas. Por isso, resolvemos morar na lancha que, apesar de apertada, nos oferecia melhor conforto e proteção

19.11.2018 - A Pantera - 13

Jara se recusou a entrar no elevador, que era pequeno e ameaçador. Subimos os sete andares de escada, eu e ela

18.11.2018 - Agro orgulho

Em meio século, o Brasil se tornou potência agrícola, com o preço dos alimentos caindo pela metade

18.11.2018 - No Facebook: entre o comentário e o artigo

Habituado que

14.11.2018 - A Pantera - 12

Ouvíamos todas as noites, no bar, a voz daquela cantora de jazz, em fita-cassete

14.11.2018 - Expedição a Batalha

O certo é que num percurso de poucos quilômetros, vimos cerrado ou chapada, caatinga ou sertão, este em tudo semelhante ao que é visto nas fotografias do cangaceiro Lampião.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br