Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Dia d crônica
Domingos Pellegrini
Tamanho da letra A +A

Histórias

O professor de História, no seu primeiro dia de aula, entra e os alunos nem percebem, conversando, falando ou jogando no celular. Ele escreve na velha lousa um imenso H, e depois vai desenhando cabeças com bigodes e barbas, enxada, foice. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, e agora espera curiosa. Finalmente ele fala:

 
– Não vamos estudar aquela História com H, só com heróis e grandes eventos! Vamos estudar a partir da nossa história, daonde e como viemos. Por exemplo, como é seu sobrenome?
 
– Oliveira.
 
– Pois é, muitos Oliveiras têm esse nome porque eram imigrantes europeus, fugidos de perseguições religiosas, então adotavam nomes de árvores ou plantas, Oliveira, Pereira, Trigueiro e tantos outros. E o seu sobrenome?
 
– Santos.
 
– Foi o nome adotado por muitos ex-escravos ou filhos mestiços de fazendeiros com escravas. Você é, como diz o IBGE, pardo, o que não é vergonha nem demérito algum, ao contrário, a maioria do povo brasileiro é pardo. E o seu sobrenome?
 
– Vicentini.
 
– Origem italiana. Os italianos, como os espanhóis, alemães, japoneses, vieram para cá para bater enxada, trabalhar nos cafezais quando os escravos foram libertados.
 
O engraçadinho da turma levanta o braço:
 
– Meu sobrenome é Silva, professor. Tem mais Silva na lista telefônica que formiga em formigueiro. Daonde eu vim?
 
– Da selva. Silva é selva, em latim. Foi o nome dado pelos romanos antigos aos que vinham das florestas para morar na cidade, eram os “da selva”. Se a gente pensar que a maioria das pessoas morava no campo há meio século, e depois se mudou em massa para as cidades, a origem do nome até se justifica.
 
A turma espera em silêncio: aonde ele quer chegar?
 
 
– Proponho o seguinte. Vocês conversem com seus pais, avós, tios, para saber dos antepassados. Daonde vieram, por que, trabalharam e viveram onde e como. Cada um contará então a história de sua família, e daí vamos situar essa história familiar na história social. Vamos falar da cafeicultura, por exemplo, depois que alguém falar que seu avô trabalhou com café.
 
Uma mocinha levanta a mão:
 
– Não só meu avô, professor, minha avó conta que também trabalhava. Levantava às cinco, fazia café, dava de mamar ao nenê, porque ela diz que sempre tinha um nenê no ombro, outro na barriga e uma criança na barra da saia. Depois de fazer o café e tratar das galinhas, recolher os ovos, tirar leite das vacas e cuidar da horta, ela ia levar marmita pro meu avô e os filhos maiores no cafezal, e ficava lá também batendo enxada até o meio da tarde, quando voltava pra preparar e janta e...
 
– Bem, só com isso que você contou podemos estudar a cafeicultura e o feminismo, comparando as famílias daquele tempo e de hoje, tantas mudanças. Cada um de vocês, com sua história, vai acender o fogo do conhecimento em cada aula. Eu só vou botar lenha, dar as informações, vocês vão dar vida à História, que aí, sim, vai merecer H maiúsculo! Combinado?
 
Os alunos aplaudem, entusiasmados, comentam: nossa, massa, uau, professor maneiro!... Saem, e depois ele, saindo, dá com o diretor nervoso:
 
– Eu ouvi sua aula, professor, aqui ao lado da porta, como faço com todo novato! O senhor tire essas ideias da cabeça, viu? Vai ensinar conforme o programa, começando pelo descobrimento, as três caravelas, a calmaria etc. Entendido? Ora, onde já se viu, História viva... Só por cima do meu cadáver!
 
O professor novato vai pelo corredor, sentindo-se morrer por dentro. Na sala dos professores, nas paredes estão Tiradentes e o crucifixo de Jesus, dois mártires. Ele chora, perguntam por que, apenas consegue dizer “não é nada, é uma longa História”.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

12.06.2018 - Histórias

05.06.2018 - Minha Rua

20.02.2018 - Conversa de véio

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

25.09.2018 - BERNARDO GUIMARÃES E JOÃO GUIMARÃES ROSA: DOIS CASOS DE METANARRATIVA

Ao abordarmos a questão da metanarrativa

24.09.2018 - A arte do estilo

O estilo é o resultado não só do que o cara sabe fazer muito bem, mas do que ele não consegue fazer direito

23.09.2018 - A índia Maacu

Bruscamente, incompreensivelmente, irrompendo com fúria e fulgor como Febo no horizonte

23.09.2018 - Uso impessoal de haver, ter e fazer

Emprega-se o verbo haver como impessoal – isto é, sempre na 3ª pessoa do singular – quando tem o sentido de existir.

20.09.2018 - O maçom e barbeiro Chagas Vieira

Um Mestre da tesoura e da Sublime Arte Real.

19.09.2018 - praça da saudade

praça da saudade

13.09.2018 - Didi

Enquanto o Didi trabalhava, meu vizinho enxugava uma cerveja estupidamente gelada, a olhar o trabalho.

13.09.2018 - Reflexão sobre o chamado ensino domiciliar

Na área da Educação

12.09.2018 - Marina Silva dá entrevista ao jornal "O Globo"

Uma das três candidaturas equilibradas (junto com José Maria Eymael e Álvaro Dias) expõe suas ideias e posições.

12.09.2018 - TRISTE CENA BRASILEIRA

uMA ADVOGADA

04.09.2018 - CLANDESTINIDADE: poema de Jefferson Bessa

POESIA

04.09.2018 - Minha resposta a um comentário de uma escritora sobre a tragédia do Museu Histórico Nacional

SUA BREVE E INCISIVA

04.09.2018 - Mergulhando nas lembranças de Cavour

Li e reli, salteadamente, vários trechos e legendas. Me concentrei nas fotos de carros, pessoas, prédios, praças e paisagens.

01.09.2018 - Os entrevistadores carrancudos

A vergonhosa atitude de dois repórteres da Globo

31.08.2018 - CAMPANHAS ELEITORAIS ACADÊMICAS

Pertencendo a mais de uma dúzia de entidades culturais, nove delas academias, creio ter alguma experiência para discorrer sobre o assunto assinalado no título deste texto.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br