Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 21 de maio de 2018
Crônica de sempre
Rogel Samuel (atualização diária)
Tamanho da letra A +A

QUE MAIS?

 QUE MAIS?

ROGEL SAMUEL

Quem é? É Bernstein regendo a Eroica de Beethoven. Ele tem momentos de
suprema glória, de ânimo, de certeza, fazendo tudo girar à sua volta
como num balé de invisível e arrebatadora revolução. Todo Beethoven
revolucionário está ali, dança e avança, a Eroica, a primeira obra
romântica da história de todas as artes. Comecei a ouvi-la cedo, numa
gravação que hoje começo a pensar em procurar. Sei de um sebo que a tem.
Volto do teatro. No Rio faz 15 graus. No dia anterior, tivemos a
orquestra do Mozarteun de Salzburgo. Na quarta, a cravista suíça
Christine Daxelhofer tocou para uma sala quase vazia. Ingressos a dez
reais. O "Tokyo Ballet"foi impressionante. A " Kabuki Suite", de Toshiro
Mayuzumi foi extraordinária. A estória está entre a tradição e a
influência ocidental. A música, bela, muito influenciada por Stravinky.
Hoje saio de um show de D. Ivone de Lara, no Teatro Rival, que faz 67
anos, o teatro. Ela é uma excelente sambista. Pena que o som estivesse
errado: não ouvi uma palavra do que ela cantava. O som, alto e
desgastante. Karajan dizia que, numa ópera, todos tinham de entender as
palavras. Não apenas as notas. A vice-governadora Benedita estava lá.
Vejo o vídeo: Bernstein, possuído do ritmo. Seu biógrafo diz que,
durante quase dez anos em que regeu a Filarmônica de NY, só recebeu
críticas. Dali saiu para a de Viena, onde fez suas melhores gravações.
Por que a crítica é sempre burra? Bernstein foi colega do nosso Eleazar
de Carvalho, que de certo modo o superou na sucessão de Serge
Koussevitzky. Mas dizem que Bernstein foi preterido devido à
peculiaridades de sua vida privada que não importa aqui. De Carvalho fez
brilhante carreira nos Estados Unidos e no Brasil. Eu o ouvi diversas
vezes. Eleazar e Bernstein herdaram do professor Koussevitzky o tipo de
regência dramática, dançante. E a mania de falar ao público. De dar
aula, antes do concerto. O anel de ouro, que Bernstein usava, pertencera
a Serge Koussevitzky. Eleazar dançava xerém no pódio. Ele veio do
sertão. Foi marinheiro. É pena que as nossas orquestras fossem tão
ruins, naquela época, e que ele estivesse sempre apoiado pela direita.
Como Villa Lobos, apoiado por Getúlio. Naquela época podia-se ouvir
Jacques Klein, que morreu aos 48 anos. Klein fazia algumas caretas ao
tocar certos trechos, como se não tivesse satisfeito consigo mesmo.
Bernstein gritava ao reger. Como se estivesse morrendo. A época dos
grandes maestros acabou. E Bernstein foi um extraordinário músico, claro
e intenso. Como Toscanini: fale-se o que quiser, mas a sua regência era
precisa, clara, e ele era um homem desprovido de vaidade, pura música.
Recebeu críticas mordazes de Furtwängler: "faltam as pequenas nuances",
diz, a propósito da "Leonora" de Beethoven. Chega a chamar o mestre
Toscanini de "ignorante naïve". Diz que a música de Toscanini não é
"orgânica" - e ele estava tratando da "Eroica". Diz Furtwängler que
Toscanini só conhece duas coisas: "tutti e aria" - e o pior é ele tem
razão. "É uma maneira de agir verdadeiramente primitiva". Argumenta que
ele é "exagerado, sentimental e homófono" e que "faz de seus defeitos
uma virtude". "Ao inverso de Nikisch, ele não tem talento manual inato,
mas sabe fazer uma consumação gigantesca do espaço, do que resulta que
seus tutti são todos parecidos". Diz que ele é "um grosseiro
mal-entendido", é só "um culto da personalidade", e seu sucesso deriva
da sua personalidade. Mas "seu sucesso é funesto, pois atinge até os
alemães" etc. [L'órchestre: des rites et des dieux, Mutations. Paris,
Mai 1988]. Enfim... e a guerra? Sobrevoei a cidade e fiquei no Aeroporto
de Karachi, vindo de New Delhi, e quis muito conhecer um lugar como
aquele. Era uma cidade de outro mundo. Nosso avião foi invadido por
jovens rapazes que limparam o avião andando de quatro por entre as
cadeiras com escovas nas mãos como se fossem quadrúpedes. Não olhavam
para cima, para nós, passageiros, como se fôssemos de uma classe social
tão suprema que só lhes era permitido rastejar entre nossas pernas. E
estávamos num avião da KLM. As casas eram baixas e brancas, quadradas
como caixas. Havia um deserto cinzento ao redor. Depois entrou um casal
idoso, ela, uma senhora ricamente vestida, exageradamente cheia de
jóias. Ele, num terno aprumado, anelão no dedo. O contraste entrara no
avião. Fico imaginando um bombardeio ali. Por quê? Ou, como diria
Hamlet: Que mais?

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

17.05.2018 - MORRE O POETA HERCULANO MORAES....

17.05.2018 - A 3ª REIMPRESSÃO DA 6ª EDIÇÃO NA SUA LIVRARIA

13.05.2018 - Dia das Mães

06.05.2018 - O vestido verde

29.04.2018 - O fundamento dos sonhos

26.04.2018 - Rir da desgraça?

26.04.2018 - uivo longo noite escura vento

24.04.2018 - A CAXINAUÁ

14.04.2018 - O morcego

11.04.2018 - casa abandonada

10.04.2018 - E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

05.04.2018 - Alcides Werk (1934-2003)

03.04.2018 - O AMANTE DAS AMAZONAS

29.03.2018 - A PAIXÃO

29.03.2018 - Hino ao fazer

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

21.05.2018 - TRADUÇÃO DO POEMA

Quisiera sr

18.05.2018 - Alguma coisa vem mudando no país

É só observar bem. Temos de apoiar as mudanças para melhor. O Brasil precisa continuar sendo passado a limpo porque tem muita sujeira de fato.

18.05.2018 - Herculano Moraes

O acadêmico Reginaldo Miranda presta homenagem a seu amigo e colega de APL, Herculano Moraes.

17.05.2018 - MORRE O POETA HERCULANO MORAES....

MORRE O POETA HERCULANO MORAES....

17.05.2018 - A 3ª REIMPRESSÃO DA 6ª EDIÇÃO NA SUA LIVRARIA

A 3ª REIMPRESSÃO DA 6ª EDIÇÃO NA SUA LIVRARIA

16.05.2018 - Viagem a Manaus

À noite, ouvi, muitas vezes, o canto rascante de cigarras e a sinfonia álacre dos batráquios.

15.05.2018 - Psycho Pass 9: Akane se impõe

Prosseguindo o guia de episódios do seriado japonês policial e de ficção científica "Psycho Pass" veremos como a Inspetora Akane lida com a hostilidade de seu colega...

14.05.2018 - Retrato de minha mãe (*)

Cristo disse que quem desejasse ser o maior, deveria ser o que mais servisse. Portanto, deveria ser o maior e o melhor dos servos. Mamãe (quase) renunciou a si mesma, para servir aos outros.

13.05.2018 - Capitão Marcos Francisco de Araújo Costa

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante militar e educador do período colonial.

13.05.2018 - Minha mãe e o budismo

Minha mãe participou ativamente do budismo em certas ocasiões.

13.05.2018 - Dia das Mães

Que dirá no dia das mães?

09.05.2018 - Barras: histórias e saudades

O livro conta a saga da comunidade barrense, desde o seu primórdio, no século 18, quando o fazendeiro e empreendedor Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do grande Bernardo de Carvalho e Aguiar, instalou a sua fazenda e currais.

06.05.2018 - Todos se dizem inocentes

Nenhum criminoso se declara culpado

06.05.2018 - O vestido verde

Sim, toda vez que eu passava pela avenue de la Motte Picquet tinha de dar uma paradinha naquela loja .

05.05.2018 - Capitão Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante militar e criador piauiense do período colonial.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br