Dilson Lages Monteiro Sábado, 19 de janeiro de 2019
Crônica de sempre
Rogel Samuel (atualização diária)
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QUE MAIS?

 QUE MAIS?

ROGEL SAMUEL

Quem é? É Bernstein regendo a Eroica de Beethoven. Ele tem momentos de
suprema glória, de ânimo, de certeza, fazendo tudo girar à sua volta
como num balé de invisível e arrebatadora revolução. Todo Beethoven
revolucionário está ali, dança e avança, a Eroica, a primeira obra
romântica da história de todas as artes. Comecei a ouvi-la cedo, numa
gravação que hoje começo a pensar em procurar. Sei de um sebo que a tem.
Volto do teatro. No Rio faz 15 graus. No dia anterior, tivemos a
orquestra do Mozarteun de Salzburgo. Na quarta, a cravista suíça
Christine Daxelhofer tocou para uma sala quase vazia. Ingressos a dez
reais. O "Tokyo Ballet"foi impressionante. A " Kabuki Suite", de Toshiro
Mayuzumi foi extraordinária. A estória está entre a tradição e a
influência ocidental. A música, bela, muito influenciada por Stravinky.
Hoje saio de um show de D. Ivone de Lara, no Teatro Rival, que faz 67
anos, o teatro. Ela é uma excelente sambista. Pena que o som estivesse
errado: não ouvi uma palavra do que ela cantava. O som, alto e
desgastante. Karajan dizia que, numa ópera, todos tinham de entender as
palavras. Não apenas as notas. A vice-governadora Benedita estava lá.
Vejo o vídeo: Bernstein, possuído do ritmo. Seu biógrafo diz que,
durante quase dez anos em que regeu a Filarmônica de NY, só recebeu
críticas. Dali saiu para a de Viena, onde fez suas melhores gravações.
Por que a crítica é sempre burra? Bernstein foi colega do nosso Eleazar
de Carvalho, que de certo modo o superou na sucessão de Serge
Koussevitzky. Mas dizem que Bernstein foi preterido devido à
peculiaridades de sua vida privada que não importa aqui. De Carvalho fez
brilhante carreira nos Estados Unidos e no Brasil. Eu o ouvi diversas
vezes. Eleazar e Bernstein herdaram do professor Koussevitzky o tipo de
regência dramática, dançante. E a mania de falar ao público. De dar
aula, antes do concerto. O anel de ouro, que Bernstein usava, pertencera
a Serge Koussevitzky. Eleazar dançava xerém no pódio. Ele veio do
sertão. Foi marinheiro. É pena que as nossas orquestras fossem tão
ruins, naquela época, e que ele estivesse sempre apoiado pela direita.
Como Villa Lobos, apoiado por Getúlio. Naquela época podia-se ouvir
Jacques Klein, que morreu aos 48 anos. Klein fazia algumas caretas ao
tocar certos trechos, como se não tivesse satisfeito consigo mesmo.
Bernstein gritava ao reger. Como se estivesse morrendo. A época dos
grandes maestros acabou. E Bernstein foi um extraordinário músico, claro
e intenso. Como Toscanini: fale-se o que quiser, mas a sua regência era
precisa, clara, e ele era um homem desprovido de vaidade, pura música.
Recebeu críticas mordazes de Furtwängler: "faltam as pequenas nuances",
diz, a propósito da "Leonora" de Beethoven. Chega a chamar o mestre
Toscanini de "ignorante naïve". Diz que a música de Toscanini não é
"orgânica" - e ele estava tratando da "Eroica". Diz Furtwängler que
Toscanini só conhece duas coisas: "tutti e aria" - e o pior é ele tem
razão. "É uma maneira de agir verdadeiramente primitiva". Argumenta que
ele é "exagerado, sentimental e homófono" e que "faz de seus defeitos
uma virtude". "Ao inverso de Nikisch, ele não tem talento manual inato,
mas sabe fazer uma consumação gigantesca do espaço, do que resulta que
seus tutti são todos parecidos". Diz que ele é "um grosseiro
mal-entendido", é só "um culto da personalidade", e seu sucesso deriva
da sua personalidade. Mas "seu sucesso é funesto, pois atinge até os
alemães" etc. [L'órchestre: des rites et des dieux, Mutations. Paris,
Mai 1988]. Enfim... e a guerra? Sobrevoei a cidade e fiquei no Aeroporto
de Karachi, vindo de New Delhi, e quis muito conhecer um lugar como
aquele. Era uma cidade de outro mundo. Nosso avião foi invadido por
jovens rapazes que limparam o avião andando de quatro por entre as
cadeiras com escovas nas mãos como se fossem quadrúpedes. Não olhavam
para cima, para nós, passageiros, como se fôssemos de uma classe social
tão suprema que só lhes era permitido rastejar entre nossas pernas. E
estávamos num avião da KLM. As casas eram baixas e brancas, quadradas
como caixas. Havia um deserto cinzento ao redor. Depois entrou um casal
idoso, ela, uma senhora ricamente vestida, exageradamente cheia de
jóias. Ele, num terno aprumado, anelão no dedo. O contraste entrara no
avião. Fico imaginando um bombardeio ali. Por quê? Ou, como diria
Hamlet: Que mais?

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