Dilson Lages Monteiro Domingo, 25 de fevereiro de 2018
Crônica de sempre
Rogel Samuel (atualização diária)
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A VOZ DA CONDENAÇÃO

 

 
 

Rogel Samuel

 
 
No primeiro verso: “Não posso / mover / meus passos”, há sete sílabas, com três tônicas: PO / VER / PAS – e marcam a sucessão de tônicas e átonas, compassada sucessão dos iniciais passos do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles.
Mas já que o Romanceiro começa por um “não” – “não” de “não posso”, ou seja, “não” de interdição, do Interdito, do Proibido, do Negado, “não” da “morte e destruição”, daquela revolução que se perdeu, trágica, “que transita sobre angústias”.
Quem diz, no início: “não posso”, numa introdução negativa, negada, invertida, inversa – diz também “não entrarás, ó leitor”, e/ou “não vou ser capaz de fazer”, ó poeta. É a anti-proposição,  do Romanceiro.
Não, não posso entender o que aconteceu, naquele labirinto da História, onde o Brasil é esquecido, nó cego, morto, apagado, não da memória daquela estória de amores e de ódios. Não, não compreendo eu, o que estava acontecendo, naquele vinte e um de abril, no instante de lá, a terra está confusa, no ar sinto sinos, na boca ouço “o roçar das rezas”, na pele me arrepia a morte, ao ouvir a condenação, a culpa, o degredo, o Não.
 
Não posso mover meus passos
por êsse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amôres e ódios vão:
-pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
 
Mas vejo, e já pressinto, a masmorra, a sombra, o carcereiro que transita pisando angústias com o coração fechado, as altas madeiras do cadafalso, a morte pública, o pasmo da multidão.
          O poema todo é acompanhado pela batida sincopada de um “ÃO”, - ão! – ão! – ão! -  que se repete, com a regularidade da marcha fúnebre, cadavérica, do bater de pesados, soturnos sinos, funerários: vão, condenação, coração, multidão, oração, proclamação etc. até o fim, com o fim mortal “eterna escuridão”.
 
-avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
-descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.
 
O próximo verso é magistral: “batem patas de cavalos”. Por quê digo magistral? Primeiro, pelas consoantes que batem: o “b”, o “p”, o “t”, o “k” (de cavalos) – todas batem naqueles cinco “aa” – ba – pa – ca – va ---- de tal modo que quase é possível, com certa imaginação sonora, ouvir as patas dos cavalos batendo nas calçadas, nas pedras daquelas ruas de Vila Rica, no dia vinte e um de abril de 1789, cavalos dos soldados da morte, cavalos signos masculinos do poder de vida e morte.
Ah, aliás todo o poema é sonoro: dá para “ouvir” o bater dos sinos, o sussurrar das rezas, o tilintar das chaves, as patas dos cavalos, a voz do Brigadeiro... – aquilo fala da desgraça, das vozes daquele fatídico dia.
 
Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
-já louca e fora do trono
na sua proclamação.
 
 
Ali, o poema cai na “cova do tempo”. Lá, as “intrigas de ouro e de sonho” se confundiram sinistramente com a condenação e a morte. Ali, se misturam “quem ordena, julga e pune” com “quem é culpado e inocente”. Lá, a “tinta das sentenças” e “o sangue dos enforcados” morrem no mesmo pântano lúgubre e terrível. Ali, “o castigo e o perdão” caem na mesma cova.  Lá, confundem-se “liras, espadas e cruzes”. E ali no mesmo vão obscuro, “as palavras, o secreto pensamento, as coroas e os machados, mentira e verdade estão.”  Lá os “ossos, nomes, letras, poeira...”.  Sim, rostos, almas, herdeiros, rastros - o mundo está no mesmo chão do esquecimento.
 
Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão...
 
Você sabe o que é “muros sem eco”? Muros sem fala, nem eco? Muros dos presídios amargos e escuros? Presídios de solidão vasta e padecer?
 
Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta a nossa aflição.
 
Choramos êsse mistério,
êsse esquema sôbre-humano,
a força, o jôgo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.
 
Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!
 

         No alto da praça principal de Ouro Preto há estátua de mulher que sorri, no cimo do prédio onde é hoje o Museu da Inconfidência, mas que era Cadeia: um museu da tortura (tão próprio nesse país), a Casa do Poder Repressivo, na época da Inconfidência, sim, há uma estátua, e ela representa a justiça, ela é mulher com afiada e pontiaguda faca, espada na mão, espada que aponta o espaço, lá onde se pode imaginar o vão do ventre de um ser humano, espada fina, na ameaçadora mão, da Justiça, que ri, que sorri, que perigosamente sorri, de prazer, de gozo, sorriso do mistério, nunca desvendado, sorriso das lendas mortas, das silenciosas vertentes, das falas, dos mitos, da substância inexplicável das correntes escuras da escravidão, sorriso da morte, do escuro destino, da sombra da Noite, da destruição das vidas e dos amores, de amadas, de poetas, de ouro, de diamantes, daquele esquema ultramarítimo da espoliação capitalista, da força da devassa, do santo inquérito, do cadafalso, da tortura, das masmorras de pedra, do esquartejamento, do ouro!

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