Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 19 de junho de 2018
Contos de corpo e alma
Rodrigo Darini Valente
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O Professor

 A viagem até a escola era longa; o dia a dia, árduo e desgastante. Mesmo assim, aquele professor, um dos poucos que ainda praticavam o ofício por amor, fazia com prazer a sofrida viagem, e realizava com prazer sua arte. Era daquele tipo de que todos gostavam: mestre, pai, amigo e tio ranziza quando precisava. Sobravam-lhe homenagens a cada final de ano, nos famosos discursos das cerimônias de formatura de seus pupilos.

    Vivia só, o que fazia com que toda energia e disposição fossem colocadas a serviço de seus afazeres docentes. Se fosse necessário ficar até mais tarde para cobrir um colega faltante, ele o fazia sem pestanejar ou reclamar; se fosse necessário vir num sábado para ajudar a organizar uma festa na escola, trazia sempre um sorriso no rosto; se fosse necessário dormir de madrugada, pois tinha provas e trabalhos para corrigir, tudo bem; era só relevar o cansaço e o sono.
    Sempre, por toda a vida, trabalhou na mesma escola, que considerava sua segunda casa. Na verdade, se fossem contabilizado todo o tempo que nela passou, bem como o que foi dedicado mentalmente àquele lugar, a carga horária dedicada àquela instituição era infinitamente maior do que suas possíveis e rarefeitas preocupações domésticas.

    Alguns anos se passaram, e o professor teve de se aposentar. Uma grave doença o afligia, tendo lhe tirado toda a disposição e energia física para que continuasse atuando. Mesmo triste, sabia que não mais seria o mestre de outrora, dado seu desgaste físico e mental. Com o passar dos anos, acabou por aceitar seu triste destino. Acabou por ir morar numa cidade maior, longe de onde vivia, capaz de dar-lhe um tratamento médico mais adequado à doença.

    Curiosamente, pouco tempo depois de sua aposentadoria, a escola fechou. Por anos a fio, ficou lá o enorme e imponente prédio abandonado. Não mais alunos correriam por seus pátios; tampouco professores zanzariam apressados pelos corredores, em busca de sua sala assim que o sinal batesse; nem mais as merendeiras se apressariam em terminar o almoço das crianças. Até mesmo os pássaros que vinham comer resto de alimentos não mais passariam por lá. O mato, ratos e baratas eram as únicas formas vivas a frequentarem aquele local.

    Já nesse tempo, o professor sente que seu tempo de vida era escasso. Sem nunca ter sido avisado do fechamento da escola, confessa a seu enfermeiro sua única vontade: pisar pela última vez no templo que sempre amou; no lugar em que dedicou a maior parte de sua vida. Admirador do patrão, ele não poupou esforços para tentar localizar tudo relacionado àquela escola: ex-alunos, professores, funcionários… achou vários, que, não surpreendentemente, lembravam-se do agora velho e frágil professor. Alguns ex-alunos até mesmo choravam ao saber o estado em que ele se encontravam; queriam ter a chance de lhe dar um abraço, um beijo, dizer quais carreiras seguiram, se formaram família, como está seu mundo… queriam reencontrar aquela parte tão importante e indispensável de seu passado; de sua formação profissional e humana.

    Entretanto, havia o maior dos problemas: como levar o mestre a um lugar que, agora, encontrava-se tão judiado e abandonado? Como reagiria seu velho coração ao se deparar com a cena de um passado tão alegre e glorioso que não existe mais? Como estragar de tal forma aquele que era praticamente o último desejo e sonho de uma pessoa tão especial na vida daquela gente?

    Após reunirem-se para discutir a ideia, veio a solução: para uma última homenagem ao mestre e àquele lugar tão especial, os ex-alunos fariam um pequeno mutirão para tentar maquiar a velha escola. Alguns ficaram encarregados de cortar o matagal, enquanto outros passavam uma leve mão de tinta na fachada do lugar. Mais um grupo, por sua vez, faria a limpeza de apenas algumas salas, pois sabiam que o ilustre visitante não visitaria todos os cantos do prédio.

    Para fechar com chave de ouro, um deles deu a ideia de que levassem os filhos no dia da visita, todos uniformizados, para que o professor tivesse a impressão de que aquele lugar ainda fosse o mesmo que deixara anos atrás. Todos adoraram a ideia.

    Dias depois, chega o professor, mais debilitado ainda em sua cadeira de rodas. No portão principal, vê crianças correndo no pátio, serventes, professoras e merendeiras. Para recebê-lo, os ex-alunos se postaram diante do pseudorrenovado prédio e, cada qual a seu modo, vinham lhe agradecer por um dos maiores presentes que alguém podia receber.

    Todos agiam de uma forma tão natural, que o professor nem sequer notara que se tratava de uma encenação. Todos sabiam que era uma mentira “do bem”, portanto estavam perdoados. Em certo momento, a emoção foi tanta que as lágrimas corriam pelo rosto do mestre. Chorava copiosamente, levando consigo, neste ritual, todos que assistiam à cena.

    Depois de várias homenagens, choros, emoções e abraços, ele foi embora de volta à cidade natal. Deu, então, uma última olhada na escola, quando teve a certeza de que era ainda o mesmo lugar pelo qual passara sua vida. Era a esposa que nunca teve e, aquela gente, os filhos que sempre amou. Sentia sua vida completa.

    Dias depois, seu corpo pereceu. Mas morreu em completa paz, pois tinha em si a certeza absoluta de que sua missão havia sido cumprida.

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