Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 19 de junho de 2018
Brasil que lê
Galeno Amorim
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Um leitor de mundo

[Galeno Amorim]

Desde muito cedo, Luiz começou a dar duro pra ganhar a vida. Aos sete anos já trabalhava como engraxate, depois foi pedreiro. Precisava ajudar nas despesas da casa. Escola que é bom, nada! Que tempo ora o quê pra essas coisas de aprender a ler e a escrever...

Só quando se mudou para Brasília é que foi conseguir um serviço mais maneiro: foi trabalhar como ajudante num açougue da Asa Norte. Luiz tinha, então, 12 anos. Só se alfabetizaria alguns anos mais tarde. Como também vivia num quartinho nos fundos do açougue, logo percebeu que precisava arrumar alguma coisa para matar o tempo e, assim, não se sentir tão só.

Ele achou um livro. E fez dele sua companhia mais presente e permanente.

O primeiro livro que lhe caiu nas mãos foi um gibi. Trazia umas ideias meio estranhas sobre filosofia, mas ele seguiu em frente. Foi até o fim. Não entendeu nada daquilo. Mas adorou!

Depois daquele, vieram outros livros. E muitos outros ainda.

Quinze anos depois, Luiz acabou comprando o açougue onde trabalhava e morava. Resolveu inovar. Junto às carnes, instalou uma prateleira com dez livros em cima. Aos poucos, a coleção cresceu com a chegada de mais exemplares, e deu origem a uma pequena biblioteca no lugar. Enquanto a Vigilância Sanitária deixou, essa biblioteca chegou a ter mais de 10 mil títulos.

Luiz lia sem parar. Com isso, tornava-se mais criativo. As coisas que agora sabia, mais as palavras novas que descobrira nos livros, e, ainda, as histórias e as experiências de vida de personagens do mundo da literatura que desfilaram, nesses anos todos, diante de seus olhos de leitor, o haviam transformado numa pessoa diferente. Mais interessante, no mínimo.

A freguesia de classe média gostava disso. E, de certo modo, invejava um pouco toda aquela sabedoria vinda daquele rapaz tão simplório. E o boca a boca só fazia crescer sua fama de açougueiro dos livros.

Em pouco tempo, a casa de carnes prosperou. A clientela não parava de crescer. Nem por isso o açougueiro-leitor-quase-bibliotecário abandonou sua verve provocadora. Era uma freguesa entrar no seu estabelecimento para o rapaz dar a estocada:

- A madame vai levar meio quilo de Saramago ou uns bifes de Machado de Assis?! - ele brincava.

A coisa pegou. E até hoje ele vive a chamar a atenção para a importância da leitura e ajudando a formar leitores no coração do Brasil. Seu açougue cultural - que já atraiu grandes nomes da MPB e escritores que vão de Ziraldo a Frei Betto - ficou famoso. Dele surgiu uma biblioteca comunitária com mais de 50 mil livros. E ele não para.

Lendo de dez a quinze livros todo mês, Luiz Amorim está o tempo inteiro a ter novas e boas ideias. Foi ele, por exemplo, quem criou, por toda a cidade, a inusitada rede de bibliotecas populares nas paradas de ônibus. São duas ou três estantes de livros espalhadas pelos pontos da cidade. Sem ninguém para ver ou anotar quem pegou ou deixar de pegar o livro.

Enquanto aguarda a condução, o candidato a leitor pode folhear à vontade. Se gostou, basta pegar e levar para continuar lendo durante o trajeto. Tanto pode devolver na parada seguinte como levar pra casa e devolver quando bem entender.

Coisa de doido isso?! Ele próprio diz que sim (muito embora o índice de sumiço de livros seja muito baixo...).

Por que ele faz isso? O próprio Luiz Amorim dá a pista:

- Graças aos livros, o mundo mudou pra mim. Em todos os sentidos. Quando você faz uma coisa e se dá muito bem, passa a acreditar que, se as outras pessoas o fizerem, também vão ficar melhores...

Esse é o Luiz, um leitor de mundo.

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