Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Anexos da realidade
Miguel Carqueija
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Verde... verde... verde

Verde... verde... verde

 

                                   Miguel Carqueija

 

 

                           (coletânea organizada por Sérgio Fonseca de Castro)

 

 

 

     Por volta de 1987 um grupo pequeno, mas crescente, de aficionados pela ficção científica reunia-se no Rio de Janeiro; quase todos eram membros do CLFC. O então representante do clube no Rio, Sérgio Fonseca de Castro, propôs um dia – e eu estava presente – que produzíssemos uma antologia cooperativada, sob o título acima. O tema, dentro da FC, seria livre, desde que houvesse alguma referência à cor verde. Quando depois alguém indagou ao Sérgio o porque daquele tema, ele respondeu: “Foi a primeira idéia que me passou pela cabeça”.

     Bem, a antologia foi feita em formatinho, numa edição independente, e ficou pronta em 1988.  As páginas e a capa eram verdes... a capa era um desenho que hoje me parece pueril, de uma mistura de foguete, mulher, sol e árvore (sic). O desenhista não foi creditado. O texto era digitado em computador, mas numa resolução baixa, tendente ao esmaecimento e à borração.

     A introdução, escrita pelo organizador, apresenta ligeiros comentários sobre a FC, os autores e a motivação do livro. Texto datado em 19 de junho de 1988, ainda transmite aquela juventude de um grupo entusiasmado e idealista, uma inocência que os anos logo acabaram por dissipar ao sabor das dissensões e das desilusões. Sérgio fala em nome do “Grupo Rio de Ficção Científica”- uma entidade abstrata, por reunir pessoas ligadas ao CLFC e ao Clube Antares, e elementos avulsos, mas logo o Antares já não existia substancialmente (acabou de todo em 1992), seus membros (como eu próprio) em geral ingressaram no CLFC, e no fim o termo “fandom”é que prevaleceu.

 

 

 

                                             VERDE...   VERDE...

 

                                        ( José dos Santos Fernandes )

 

     O conto de José Fernandes – na época um dos mais ativos membros do fandom e um dos que se sucederam na representatividade do CLFC no Rio – é bem o conto de um médico, pelos detalhes  apresentados. O autor utiliza uma técnica incomum de narração, ao escandir os últimos momentos de um homem, atingido na cabeça por um fragmento metálico, produto de um desastre

 

 

astronáutico. Em minúsculas frações de segundo, no curtíssimo tempo de penetração do fragmento, diferentes memórias são ativadas, cada uma relacionada com uma cor, como se o tempo estivesse sendo esticado, retardando a morte inevitável. Está aí um exemplo interessante de como pode sair uma idéia originalíssima de um tema encomendado. Entretanto, nota-se a tendência “dark” do autor.

 

 

 

 

                                          VERDE...  VERDE...

 

                                 

                                     (Cristina Anneliese Carrero)

 

 

     Na época era Cristina – que se mudara de São Paulo para o Rio, e casara com Sérgio Fonseca – um dos nomes mais importantes do fandom, pelo menos em termos de participação, uma presença constante nas reuniões. Programadora de computadores, participou de um fanzine editado no Rio de Janeiro, que usava emprestado o nome do Hiperespaço (então desativado), com o acréscimo “The next generation”(alusão ao segundo seriado Star Trek).

      Sua história é uma fantasia contada na primeira pessoa, e infelizmente numa narrativa distante, o que a meu ver prejudica. Uma mulher solitária dedica sua vida à gatinha angorá branca e, quando ela adoece, recorre às artes mágicas para curá-la. Os resultados são desastrosos. O texto explica demais a vida e as esquisitices da protagonista, e o problema da gata que fica curada (de que?) mas passa de branca a verde, não convence nem desperta interesse.

 

 

 

 

                                            VERDE...  VERDE...

 

 

                                               (Sergio  Martins)

 

 

     Conheci Sergio Henrique Martins em 1987, quando ele tinha 15 anos e era o caçula do nosso incipiente grupo. Dos poucos textos seus que li, recordo que eram bem escritos e promissores.

 

 

 

      O trabalho publicado nesta antologia é, de todos, o mais enquadrável como legítima ficção científica, uma história espacial como, desde há muito, vem sendo o grande atrativo para o público.

     Uma nave com três tripulantes, ao orbitar em torno de Júpiter, é atingida por uma partícula meteórica e, contra o que seria de esperar, o sistema de segurança continua sinalizando a cor verde, dando a entender que a situação continuava normal. Este é o eixo da história e o que determina o seu desfecho.

     Embora hoje esquecido, este conto é formalmente correto e apreciável, talentoso mesmo. Ironiza a dependência  do homem à máquina.

 

 

 

                   

                                       THE  GHOST  IN  MACHINE

 

                                               (Bráulio  Tavares)

 

 

 

     Dois contos dessa antologia – este um deles – ostentam títulos diferentes de “Verde...  Verde...”, mas somente colocados no índice, o que é deveras estranho. Antes de cada conto vem uma página de rosto apresentando autor e obra, mas sem colocar o título, que se deduz ser o mesmo da antologia -–e o meu, intitulei-o de fato “Verde... Verde...”.

     Foi só quando tive o volume na mão que vi os dois títulos divergentes e nem entendi do que se tratava – pareceram-me simples comentários irônicos colocados no índice, por esquisito que fosse. Juro que foi isso que eu pensei – e porque Bráulio estaria sendo chamado de “fantasma na máquina”?

     E foi só quando procurei apurar que negócio era aquele foi que eu soube, pelo Sergio Fonseca ou pelo Rubenildo, que o título era opcional, não precisando ser “Verde...verde... “. No meu caso era muito tarde.

     Mas deixemos essa falha de comunicação e falemos do conto de Braulio Fernandes Tavares, que na época já havia publicado pela Brasiliense seu estudo “O que é a Ficção Científica”.

     A narrativa é cheia de tiradas humorísticas, numa parafernália de imagens de um distante futuro intergaláctico, onde um sujeito do sistema de Quetzal vem à Terra (que ele detesta) acompanhando um robô que precisa ser “exorcizado”, por assim dizer, para se livrar de um espírito humano que grudou nele numa teleportação.

     Braulio sabe narrar com segurança, mas o tom descomprometido e meio escrachado que ele impõe à história impede que ela voe mais alto em termos de obra literária.

 

 

                                         VERDE...  VERDE...

 

 

                                (Alyne Botelho de Magalhães Leite)

 

 

     Uma vinheta bem curta – menos de cinco páginas em livro de bolso – mas o suficiente para ser cansativa numa tentativa de metalinguagem, com a autora “conversando” com o leitor sem necessidade. Tudo gira em torno de um certo Lula, que construiu a sua vida vendendo muambas (sic). Há um excesso de detalhes irrelevantes, mas  o que realmente importa é que o sujeito buscava encontrar a pedra filosofal, que acaba sendo um líquido. Ao pingá-lo na mão, fazendo a si próprio de cobaia, ela vira ouro mas depois fica verde – coisa muito forçada. Até porque, se a mão virara ouro, não teria mais nem circulação. E depois já seria somente questão de cor. Afinal falta também um mínimo de jargão, inclusive com o personagem buscando um antídoto sem que a autora passe qualquer detalhe técnico – e a pobreza vocabular prejudica muito uma história de ficção científica.

 

 

 

                                  SÓ  PODIA  SER  BRINCADEIRA

 

 

                                             (Fábio  Fernandes)

 

 

 

     Este último conto teve a sua época de popularidade e hoje é um dos poucos aos quais caberia o epíteto, que eu não aprecio, de “datado”. É realmente uma brincadeira aproveitando clichês da FC, notadamente a história dos homenzinhos verdes e da frase “Leve-me ao seu líder!”. E Fábio colocou a si mesmo e a outros integrantes mais habituais, na época, do grupo carioca. Entraram na dança, como personagens: Sérgio Fonseca, Cristina Anneliese (então já um casal), Rubenildo Pithon de Barros, José Fernandes e sua namorada Cynthia Magluta (não recordo se já eram casados por ocasião do lançamento), Braulio Tavares e eu próprio. Aliás o meu papel é o menor, pois só aparece mesmo a minha miopia.

     Na ocasião todo mundo achou o conto engraçado, por mexer com o pessoal, todo mundo levou na esportiva. Hoje, relendo, parece-me que o autor quis só isso: divertir um pouco, despretensiosamente. Essa história, aliás, hoje já não poderia ser escrita, por causa da dispersão do grupo.

 

 

 

   Tecnicamente, tenho duas coisas a reparar. Uma é que não vejo razão para se falar numa hipotética sociedade astronômica, à qual nós pertencêssemos. Podia ser o CLFC mesmo; seria mais autêntico. E outra é que o Fábio deveria ter nomeado a si próprio, se nomeou os outros.

 

 

                                                COMENTÁRIOS  FINAIS

 

 

 

     O volume termina com um posfácio de Rubenildo Pithon de Barros, oficial do exército, que foi um dos representantes no Rio do CLFC, naqueles primeiros tempos. Ele traça algumas pinceladas sobre os autores, e fala do idealismo em produzir “essas coisas que fazem gente, mas não dinheiro”. Curiosamente, na ocasião esta antologia – que teve apenas 102 exemplares na primeira edição, mas gerou uma segunda, revista e ampliada, com mil – foi muito comentada e marcou época; mas hoje parece completamente esquecida pelo fandom. Em todo o caso, ela abriu caminho.

     Infelizmente a edição foi amadora mesmo, por não apresentar nenhum endereço, nenhuma direção, embora citando o CLFC; e a data de edição apenas se deduz porque o Sérgio datou o seu prefácio.

      Rio de Janeiro, 30 de novembro de 2004 a 3 de janeiro de 2005.

      Post-scriptum em 5/1/2018: o meu próprio conto, intitulado simplesmente “Verde... verde...” e posteriormente republicado como “Ascenção funcional”, deixei de analisar por ser eu o próprio autor. É um conto “hard” narrado sob o ponto de vista de um robô, e onde a hierarquia robótica se faz pela cor da pintura; no caso o protagonista Jenkins aspira ser pintado de verde, cor que representava a maior categoria a que um robô pudesse chegar.

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

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