Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 21 de maio de 2018
Anexos da realidade
Miguel Carqueija
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Pesadelo

 

Miguel Carqueija

 

            O Doutor Gumercindo Macieira Dantas chegara cansado e sem disposição sequer para assistir o Rambo que colocara em seu aparelho de vídeo. Só queria dormir. Tomou um banho cuidadoso, eliminando os vestígios de sangue nas unhas, esquentou um lanche rápido e consumiu-o entre bocejos. Uma fatia de empadão de galinha com café bem forte e algumas bolachas com queijo pareceram-lhe suficientes. A cama o esperava.

            Aproximou-se da cama, quase cambaleando. Puxa, como aquela chimpanzé dera trabalho! Sim, às vezes cansava muito. E a luz faltar justamente na hora dos elétrodos... isso é que dava ser pesquisador no Brasil.

            Não se conseguia nem receber animais saudáveis. A chimpanzé morrera depressa demais, em consequência da dor e dos choques elétricos. Dantas precisava que ela aguentasse mais uma semana, para complementar as suas observações. Agora teria de começar a briga para conseguir outro exemplar.

            Gumercindo bocejou longamente, já na cama. As pálpebras pesavam como chumbo. Ainda têm uns idiotas que rezam antes de dormir, pensou ele. E adormeceu completamente.

            Em pouco já roncava.

 

................................

 

            As luzes se acenderam de súbito.

            — Que é isso?

            Dantas já não estava em seu quarto. Estava numa estranha sala, cheia de luzes semelhantes às dos estúdios de televisão, direcionadas sobre ele, ofuscando-o. E ele próprio estava sentado numa cadeira de lenha e couro, preso com correias aos braços, às pernas e às costas de mesma. Remexeu-se, tentando se libertar. E então observou, horrorizado, os demais presentes.

            Ali estavam diversos chimpanzés, todos com batas brancas, vários cachorros, gatos, porquinhos da Índia, ratos brancos e coelhos. Os chimpánzés portavam diversos objetos médico-cirúrgicos, moviam-se e confabulavam pelo aposento; os demais animais, agrupados em círculo ao redor da cadeira, fitavam-no com olhos de acusação.

            — Que faço aqui? Quem me prendeu? Socorro!

            Um dos símios olhou bem para Dantas e falou:

            — Hoje, humano, é o dia do seu julgamento. Nós, a quem você torturou e matou, o temos finalmente em nossas mãos.

            Incrédulo, Dantas percebeu que se tratava da fêmea que fôra aparufasa a uma cruz de aço, tivera o ventre aberto e o filhote eletrocutado no útero e recebera ainda uma séire de torturas dantescas antes de morrer, e da qual ele se recordara quando estava para adormecer.

            — Só que não lhe injetaremos curare — prosseguiu a chimpanzé, segurando um escalpelo. — Queremos que se debata e muito.

            — Hein?

            Um cachorro branco, que tivera suas patas serradas em vida (agora elas lá estavam de volta, inteiras), começou a latir para ele, furiosamente.

            — Calma, Rex! — disse um chimpanzé macho, a quem Dantas extraíra os olhos — Hoje ele será castigado.

            Aproximou-se de Dantas, empunhando um alicate.

            — Vamos começar pelos dentes. Naturalmente não lhe daremos anestesia, pois você nunca nos deu. Amor com amor se paga.

            — Como vocês podem falar? O que querem de mim?

            Se aquilo era um pesadelo como é que ele não conseguia acordar, por mais que se agitasse? Debateu-se, gritou, esgoelou: em vão.

            Fizeram-no abrir a boca. O alicate pinçou um dente canino e puxou com força.

            Dantas urrou de dor.

            — Grita, carrasco! — disseram em uníssono as vozes dos antropoides.

            Arrancaram-lhe dente após dente. O sangue jorrava de sua boca. A fêmea aproximou-se então com o escalpelo:

            — Chega de gritos. Perturbam a nossa concentração. Temos de fazer observações cuidadosas.

            Aproximou o escalpelo da boca do médico.

            — Não, a língua não!!! — gritou Dantas, louco de dor e terror.

            — Vemos primeiro abrir a barriga e puxar os intestinos para fora, como ele fez comigo — disse outro macaco. — Deixe-o gritar mais um pouco, Chica.

            — Mas ele não deixou você gritar, Boris. Lembra-se de cono ele mutilou suas cordas vocais?

            — Isso é verdade. Mas assim mesmo... como é bom ouvi-lo gritar!

            — Monstros! — berrou dantas, em desespêro. — Como podem torturar assim um ser humano?

            Boris encarou-o.

            — Ah, é? Então como você pôde torturar tantos animais, sabendo que nem utilidade existe nisso... que a sua Medicina não precisa de torturas? Estrebucha, desgraçado! Que isso ainda é pouco...

            A faca penetrou no ventre de Gumercindo. Incrédulo, perplexo, ele assistiu o seu intestino ser desenrolado para fora como a estopa que um mágico puxasse da cartola.

            Dantas pôs-se a gritar como um possesso, como se nada mais lhe restasse fazer na vida.

            Chica adiantou-se.

            — Pois bem, Dantas: vou amputar sua língua, e depois estaremos prontos para experimentar o LD.50 em você.

            Pela mente atormentada d eDantas passou a imagem do LD-50: a “Dose Letal 50%”, isto é, a administração, por todos os meios possíveis (bucal, nasal, anal, dérmico, intravenoso, subcutâneo e ocular) de remédios, pesticidas e cosméticos... para testar sua toxidade.

            Algo que normalemente se faz com animais.

            — Não! Não, pelo amor de Deus! Não me façam essa infâmia!

            — Falou em Deus, doutor? Para que esse fingimento? Desde a faculdade você perdeu a fé em Deus. Você não acredita n’Ele!

            E aproximou o escalpêlo da boca de Dantas. Este prosseguia:

            — Não! Não! Nããão.....

 

.............................

 

            — Acorde, homem!

            — Para que tanto espetáculo?

            — Puxa, deve estar maluco!

            Gumercindo abriu os olhos, em sobressalto. Quase pulou da cama, porém foi contido. Lá estavam vários vizinhos seus, alguns de pijama.

            O Afonsino resumiu tudo:

            — Quase chamamos a polícia. Você estava gritando tanto que parecia possuído por mil diabos. Que foi que houve, homem? Encheu a cara ou o que?

            Rostos, rostos. Todos aborrecidos, incomodados pelo sono perturbado.

            Uma mulher observou:

            — Foi preciso arrombar a sua porta. Nunca vi um pesadelo tão forte! O senhor deve andar muito nervoso...

            — Puxa, desculpem-me... foi de fato horrível...

            — Mas afinal, homem, que foi que você sonhou de tão horrível? No fim você gritava: “Não me façam essa infâmia!”

            Dantas ia responder ao Afonsino mas um pensamento cruzou sua mente: dizer o que? Que no sonho estava sendo torturado pelos animais que normalmente ele torturava? Coisa que ninguém sabia em detalhes fora do laboratório?

            — Eu... eu... sonhei que estava nas mãos de assaltantes. Desses que fazem crueldades. Foi terrível, mas felizmente foi só um sonho!

            Não se atreveu a dizer: “Graças a Deus, foi só um sonho!”

            No dia seguinte, para espanto geral, o Dr. Dantas pediu demissão no hospital e, torturado pelos remorsos, abandonou a Medicina.

            Meses depois, com as ecvonomias que tinha, abriu uma sorveteria.

 

(27/9 a 20/10/1988)

           

           

 

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